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A disputa pela confiança do mundo

Mais do que uma simples comparação entre líderes, esses dados revelam uma mudança mais profunda no equilíbrio das percepções globais - Por Jefferson Campelo - médico

12/08/2026 às 15h00

Uma pesquisa recente indicando que mais pessoas no mundo confiam no presidente chinês Xi Jinping do que no presidente americano Donald Trump, e que a imagem internacional da China supera a dos Estados Unidos em diversos países, merece atenção. Mais do que uma simples comparação entre líderes, esses dados revelam uma mudança mais profunda no equilíbrio das percepções globais.

Durante décadas, os Estados Unidos ocuparam uma posição singular como principal referência econômica, militar, tecnológica e cultural do planeta. Mesmo enfrentando críticas, Washington manteve uma capacidade notável de projetar influência e atrair simpatias. Entretanto, a crescente polarização política interna, as disputas comerciais, os conflitos diplomáticos e a percepção de instabilidade em suas instituições têm afetado a imagem do país em diferentes regiões do mundo.

A China, por sua vez, construiu uma estratégia distinta. Pequim investiu pesadamente em infraestrutura, comércio e financiamento internacional, especialmente na Ásia, na África e na América Latina. Projetos de grande escala, aliados a uma diplomacia focada no desenvolvimento econômico, contribuíram para fortalecer sua presença global. Para muitos países em desenvolvimento, a China passou a ser vista não apenas como uma potência distante, mas como um parceiro econômico relevante.

Isso não significa, contudo, que a ascensão da imagem chinesa represente uma aprovação irrestrita de seu sistema político. Questões relacionadas à liberdade de expressão, aos direitos humanos e à transparência continuam gerando críticas significativas em diversas democracias. Da mesma forma, a perda relativa de prestígio dos Estados Unidos não elimina sua enorme influência científica, tecnológica, financeira e cultural.

O aspecto mais interessante dessas pesquisas talvez seja o enfraquecimento da ideia de um mundo unipolar. As opiniões públicas internacionais parecem cada vez mais pragmáticas. Em vez de enxergar uma potência como modelo absoluto, muitos países avaliam seus parceiros com base em interesses concretos: investimentos, comércio, estabilidade e capacidade de oferecer oportunidades.

A disputa pela confiança global tornou-se tão importante quanto a disputa por mercados ou por poder militar. No século XXI, influência não depende apenas da força econômica ou da superioridade bélica. Depende também da capacidade de inspirar credibilidade, previsibilidade e cooperação.

Se a percepção internacional está mudando, isso não significa necessariamente que uma potência esteja substituindo a outra. O que os números sugerem é algo mais complexo: o mundo tornou-se mais plural, mais competitivo e menos disposto a aceitar lideranças incontestáveis. Nesse cenário, conquistar confiança pode ser o recurso estratégico mais valioso de todos.

imagem gerada por IA