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Quarta parede

por Nathalia Amaral

Emergência Radioativa (2026): a tragédia do Césio-137

Série da Netflix reforça o audiovisual brasileiro e leva às telas uma das histórias mais emblemáticas ocorridas no Brasil.

27/03/2026 às 16h06

27/03/2026 às 16h06

A produção audiovisual brasileira vive um boom que não se via há muitos anos. Poderia falar sobre o Agente Secreto ou Ainda Estou Aqui, mas, na verdade, o que mais me chamou atenção nas últimas semanas foi a série recém-estreada na Netflix: Emergência Radioativa.

A obra mostra os acontecimentos ocorridos em Goiânia (GO) após uma contaminação coletiva por Césio-137. Basicamente, mostra o que aconteceu depois que dois catadores coletaram uma cápsula de chumbo abandonada em uma clínica de radioterapia e a venderam para um ferro-velho. Apenas 19 gramas de césio-137 foram suficientes para contaminar mais de 100 pessoas e resultar na morte direta de quatro, entre elas uma menina de apenas seis anos. O maior acidente radiológico fora de uma usina nuclear da história.

Emergência Radioativa (2026): a tragédia do Césio-137 - (Divulgação/Netflix) Divulgação/Netflix
Emergência Radioativa (2026): a tragédia do Césio-137

A série acerta em mostrar a ingenuidade da família diretamente envolvida no incidente e de todos que tiveram contato com a substância, em um período em que as informações científicas eram escassas, especialmente entre a população mais vulnerável, incluindo aqueles que sequer sabiam ler e escrever.

Hoje, talvez tenhamos dificuldade em compreender como aquelas pessoas, ao entrar em contato com um elemento completamente desconhecido e que brilhava no escuro, não perceberam que se tratava de algo perigoso ou, no mínimo, suspeito. Eram outros tempos.

E é justamente essa distância histórica que torna a dimensão humana da tragédia ainda mais evidente. As vítimas fazem a série ter todo o sentido. A série permite acompanhar como a desconfiança e a descrença se transformam em raiva e, posteriormente, em culpa. As pessoas envolvidas na contaminação não se deram conta, nem mesmo após serem alertadas pelas autoridades, do perigo que corriam, e já tão calejadas pelo descaso do poder público com os mais pobres, duvidaram até o último segundo de que o Estado está ali para lhes oferecer suporte.

Sabe-se que, na vida real, o sofrimento foi ainda maior do que o retratado. Os agentes públicos, retratados como mocinhos, não podem ser figuras idealizadas, porque a realidade está longe de ser maniqueísta. Muitos enfrentaram negligência e discriminação e, possivelmente por isso, desenvolveram transtornos psicológicos após o ocorrido.

O fato é que o Brasil carece de mais produções como essa. A nossa história é rica, e não apenas quando falamos sobre o período da ditadura militar. Temos muitos fatos que merecem ir para as telas e, finalmente, parece que o Brasil está acordando para isso. Melhor ainda: o público brasileiro começa a prestigiar quem, de fato, entrega um trabalho consistente.