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Livius Barreto

por Livius Barreto

TRADIÇÃO E DOUTRINA DIPLOMÁTICA VS TRANSACIONALISMO

30/08/2026 às 17h00

30/08/2026 às 17h00

A diplomacia é a prática institucionalizada de condução das relações entre Estados soberanos e outros atores internacionais, como organizações multilaterais, com o objetivo de alcançar metas estratégicas, defender interesses nacionais e gerir ou resolver conflitos por meios pacíficos. No entanto, enquanto potências como a República Islâmica do Irã e a Federação Russa sustentam as suas práticas diplomáticas em séculos de tradição, formação acadêmica e doutrinas, a diplomacia norte-americana recente desvincula-se de seu próprio corpo profissional, com a adoção de enviados especiais desprovidos de formação na carreira diplomática, oriundos primordialmente do setor imobiliário e do círculo de estrita confiança pessoal do Executivo.   

A diplomacia iraniana assenta-se em uma matriz civilizacional persa milenar, caracterizada pela gestão de equilíbrios geopolíticos complexos e pela resistência a pressões externas — historicamente da Grã-Bretanha e da Rússia czarista e, na atualidade, dos Estados Unidos. O aparelho estatal de Teerã, ancorado na Escola de Relações Internacionais (SIR), demonstrou perícia técnica nas negociações do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA de 2015), do qual Donald Trump retirou os EUA unilateralmente. Essa capacidade de manobra já havia ficado evidente nos Acordos de Argel (1981), que encerraram a crise dos 52 norte-americanos mantidos reféns por 444 dias na embaixada dos EUA em Teerã, acordo realizado por meio de uma sofisticada engenharia jurídica e financeira no Banco da Inglaterra e da criação do Tribunal de Reivindicações Irã-EUA, em Haia, perante o qual os diplomatas e juristas iranianos sustentaram litígios patrimoniais contra bancas internacionais por mais de quatro décadas.      

A Diplomacia da Federação Russa, por sua vez, é herdeira direta da escola soviética, na qual a negociação não é interpretada como a busca por concessões mútuas, mas como a consolidação jurídica de fatos consumados (faits accomplis) previamente impostos pela ameaça ou pelo uso da força. Formada majoritariamente no prestigiado Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO), a diplomacia russa adota demandas maximalistas para deslocar o centro de gravidade das conversações a favor do Kremlin, associando intimidação militar a uma postura de inflexibilidade progressiva. Sob Vladimir Putin e Sergey Lavrov, essa estratégia explora a assimetria temporal: governos autocráticos não sofrem a pressão de calendários eleitorais curtos, utilizando o arrasto das tratativas para desgastar democracias ocidentais sujeitas à rotatividade de poder.

Em nítida ruptura com esses modelos institucionais, a abordagem recente da Casa Branca impôs a desconstrução dos canais diplomáticos formais em favor do transacionalismo executivo. A ausência de resultados palpáveis na contenção da guerra russo-ucraniana — que, na sua retórica eleitoral, Trump prometeu debelar em 24 horas — e na estabilização do Oriente Médio decorre, em medida expressiva, da escolha de confiar dossiês de alta complexidade a conselheiros sem histórico nas ciências de Estado, como o empresário do setor imobiliário Steven Witkoff e Jared Kushner, genro do Presidente.

A premissa de que a resolução de crises internacionais dispensa o conhecimento da história diplomática e do direito internacional, bastando a habilidade comercial de "fechar negócios" (dealmaking), reduz litígios territoriais existenciais e tensões sectárias a disputas imobiliárias passíveis de liquidação financeira. Manifestações desse pensamento emergiram nas propostas de transformar a costa de Gaza em uma "Riviera do Oriente Médio" ou na caracterização de garantias de segurança soberana e cessões territoriais na Ucrânia como detalhes secundários de um pacote de investimentos.

A abordagem não profissional gera graves incoerências estratégicas, com mensagens contraditórias emitidas a adversários e aliados, como se dá, por exemplo, quando os EUA enviam o Chefe da CIA a Moscou, para supostamente advertir a Rússia sobre as potenciais consequência de planos de ataque à OTAN, enquanto anunciam, em Bruxelas, a retirada de parte de suas forças de dissuasão da Europa.

Negociadores de carreiras como Sergey Lavrov, da Rússia, ou Abbas Araghchi, do Irã, operam integrando precedentes jurídicos, doutrina militar e manipulação retórica contínua. Perante estes quadros, enviados transacionais que desconsideram o protocolo e o contexto histórico ficam sujeitos à captura negocial, cedendo irreversivelmente posições estratégicas em troca de memorandos voláteis voltados apenas ao consumo midiático de curto prazo.   

A prática contemporânea norte-americana de contornar a burocracia do Departamento de Estado e recorrer a negociadores sem qualificação de carreira não apenas contrasta com a tradição das potências rivais, mas representa um desvio profundo em relação à história institucional dos próprios Estados Unidos.   

Desde a aprovação da histórica Lei Rogers, de 1924 (Foreign Service Act of 1924) o serviço diplomático norte-americano passou a ser confiado à diplomacia profissional. Reformas sucessivas, como o Foreign Service Act de 1946 e o Foreign Service Act de 1980, que criaram o Senior Foreign Service e consolidaram uma tradição de negociação profissionalizada, estabeleceram a convenção de que cerca de 70% das chefias de missão diplomática pertenciam a funcionários de carreira do Foreign Service, reservando-se até 30% para nomeações políticas em postos predominantemente cerimoniais. Todavia, as administrações Trump contornaram esta infraestrutura ao marginalizar o corpo de carreira e privatizar canais estratégicos em benefício de enviados especiais alheios ao escrutínio institucional do Senado e à disciplina do serviço público internacional.   

Enquanto no mercado imobiliário privado a ruptura negocial implica apenas a perda de oportunidade financeira, nas disputas internacionais as opções envolvem sobrevivência de regimes, honra nacional e integridade territorial. Potências como o Irã e a Rússia demonstraram repetidamente a disposição de suportar sanções económicas severas para salvaguardar prerrogativas de segurança invioláveis. A tentativa de substituir compromissos de segurança e reconhecimento soberano por promessas de empreendimentos comerciais expõe uma profunda incompreensão da psicologia de líderes formados na tradição realista e ideológica. Enviados desprovidos de apoio institucional não possuem a memória histórica necessária para antecipar manobras procedimentais da contraparte.

Ao mesmo tempo, o hábito de renegar compromissos previamente negociados e ratificados pelos Estados Unidos — como a retirada unilateral dos EUA do acordo nuclear do Irã, em 2018 — degrada o capital de confiança da diplomacia de Washington, elevando o custo de qualquer futura negociação de contenção estratégica, como se vê presentemente em relação ao impasse do Estreito de Ormuz.   

Negociação em cenários de alta complexidade internacional exige um domínio rigoroso de jurisprudência, protocolos burocráticos e sensibilidade estratégica aos fatores históricos e identitários que moldam a conduta dos Estados. Ao abdicar da memória institucional do Foreign Service e considerar litígios geopolíticos existenciais como meras transações comerciais, a abordagem transacional fragiliza a coerência estratégica de longo prazo de Washington e confere vantagens estruturais decisivas a regimes adversários, que continuam a tratar a diplomacia como a arte suprema da salvaguarda e expansão do poder do Estado.

Referências Bibliográficas

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·           KOPP, Harry W.; GILLESPIE, Charles A. Career Diplomacy: Life and Work in the US Foreign Service. Washington, D.C.: Georgetown University Press, 2011. (Histórico institucional da aprovação do Rogers Act de 1924 e evolução do corpo de carreira diplomático).

·           DREZNER, Daniel W. The Toddler in Chief: What Happens When the Most Powerful Man in the World Has the Childish Attention Span. Chicago: University of Chicago Press, 2020. (Exame do desmantelamento da burocracia do Departamento de Estado e da diplomacia transacional).

·           FISHER, Roger; URY, William; PATTON, Bruce. Getting to Yes: Negotiating Agreement Without Giving In. Nova York: Penguin Books, 2011. (Conceituação clássica de BATNA, essencial para a crítica aos acordos imobiliários/comerciais).

·           SATOW, Ernest. A Guide to Diplomatic Practice. Londres: Longmans, Green and Co., 1917 (Edição revista por Ivor Roberts, Oxford University Press). (Tratado clássico sobre a natureza e as regras da arte diplomática de Estado).