Em 27/05/2025, publiquei no meu blog, no Substack, um ensaio alertando que a Europa deveria ter cuidado com aquilo que deseja. Naquela ocasião, diante da fadiga evidente do engajamento de Washington na segurança europeia e das pressões de Donald Trump para que os aliados assumissem seus próprios custos de defesa, o projeto de rearmamento maciço da Alemanha (Zeitenwende) era celebrado em Bruxelas, Paris e Londres com alívio quase eufórico. O continente, anestesiado por décadas de paz subsidiada pelo contribuinte norte-americano e por hidrocarbonetos russos baratos, passava a exigir de Berlim aquilo que durante três gerações considerou seu maior tabu: que a maior economia do continente se tornasse, novamente, uma potência militar hegemônica.
A advertência que formulei há pouco mais de um ano assentava-se em duas premissas estruturais: a memória histórica das dinâmicas de poder na Europa Central e as fissuras institucionais visíveis no próprio tecido germânico — expressas tanto na infiltração de células extremistas nos quadros das forças armadas da Alemanha, quanto na trajetória ascendente do partido de extrema direita, Alternative für Deutschland (AfD). Relatos hodiernos da eleição no Estado da Saxônia-Anhalt (Sachsen-Anhalt) e de sua repercussão em Berlim representam a transformação daquela advertência em uma crise geopolítica concreta.
A histórica vitória regional da AfD na Saxônia-Anhalt, ao alcançar impressionantes 43,8% dos votos válidos — mais que dobrando seu capital eleitoral de 2021 e impondo uma derrocada humilhante à União Democrata-Cristã (CDU) do chanceler Friedrich Merz, reduzida a meros 17,2% —, é mais do que uma oscilação de pêndulo partidário. Ao abocanhar 39 das 83 cadeiras do parlamento estadual (Landtag) e colocar a oposição tradicional em xeque institucional, a AfD não apenas consolidou seu domínio no leste: ela lidera hoje as pesquisas eleitorais federais com uma vantagem inédita de oito pontos percentuais sobre a centro-direita. A margem de segurança que o sistema construiu no pós-guerra está se desfazendo à vista de todos.
Lord Hastings Ismay, primeiro Secretário-Geral da OTAN, resumiu a razão de ser da Aliança Atlântica de forma lapidar: “manter os americanos dentro da Europa, os russos fora e os alemães sob controle”. O que se desenha no horizonte europeu atualmente é a subversão total dessa tríade: os americanos estão se retirando; os russos continuam forçando as fronteiras; e os alemães estão se rearmando, enquanto perdem a estabilidade interna.
O Ocidente pediu que a Alemanha construísse um exército forte para barrar o avanço russo, confiando cegamente na premissa de que a República Federal Alemã permaneceria para sempre como um protetorado liberal e pró-atlântico. Esqueceram a lição fundamental de Henry Kissinger: uma Alemanha unificada, militarmente potente e geograficamente central possui uma massa crítica intrínseca que sempre desestabilizou a balança de poder do continente europeu.
A ironia é que a ascensão da AfD à condição de força política dominante introduz uma contradição de segurança que beira o paradoxo existencial para a OTAN. O rearmamento alemão foi concebido e financiado para atuar como dique de contenção contra o expansionismo de Vladimir Putin. No entanto, a força partidária que hoje lidera o eleitorado nacional é a facção mais abertamente simpática aos interesses geopolíticos de Moscou em todo o espectro alemão. A liderança da AfD não esconde suas diretrizes fundamentais: prega a revogação imediata das sanções econômicas contra o Kremlin, exige o corte sumário da assistência militar e do envio de armas à Ucrânia, rejeita a autonomia estratégica europeia, desafia abertamente a integração da União Europeia e propõe a neutralidade da Europa Central.
Some-se a isso a penetração de ideologias ultra-nacionalistas em círculos de suboficiais e comandos especiais nas próprias forças armadas alemãs (Bundeswehr). Uma coisa é o Estado de Direito democrático purgar desvios extremistas em seus quartéis; outra, radicalmente distinta, é esse mesmo exército rearmado passar a responder a uma liderança política influenciada por uma agremiação que relativiza a memória histórica nas escolas, flerta com teses revisionistas e foi formalmente classificada pelos próprios serviços de inteligência interna (Verfassungsschutz) como extremista de direita.
O editorial recente da revista britânica The Economist diagnostica o pânico que tomou conta das elites alemãs. Com o chanceler Friedrich Merz registrando índices de aprovação de apenas 13% e governando uma coalizão com os sociais-democratas marcada pela paralisia administrativa, o centro tradicional alemão debate-se entre a inação e a tentação perigosa de flexibilizar o cordão de isolamento institucional contra a AfD. Sugerir, como já fazem alguns articulistas internacionais, que a CDU devesse “domesticar” a AfD tratando-a como uma força convencional, ignora a essência do populismo radical: o objetivo declarado da AfD não é integrar-se ao consenso de Berlim, mas demolir o arranjo tradicional que sustenta a ordem alemã do pós-guerra.
A República Federal da Alemanha contemporânea foi construída constitucionalmente em 1949 sob o juramento explícito de "nunca mais Weimar", uma expressão que remete diretamente à República de Weimar (1919–1933), a primeira experiência democrática da história alemã, instituída após a Primeira Guerra Mundial e o colapso do Império Alemão. Embora dotada de uma das constituições mais avançadas de sua época, a república ruiu sob o peso da hiperinflação, da Grande Depressão de 1929, da fragmentação partidária e, crucialmente, da incapacidade do centro político de conter as forças extremistas, culminando na ascensão legal de Adolf Hitler ao poder em janeiro de 1933.
O fantasma de Weimar reside no fato de que o totalitarismo nazista não tomou o poder central por meio de um golpe militar tradicional, mas através de eleições livres, mobilização de massas e manobras parlamentares. Uma vez inseridos no Parlamento (Reichstag), os extremistas utilizaram as prerrogativas do Estado de Direito e os mecanismos do artigo 48 da Constituição de então, que estabelecia o estado de exceção, para sufocar a própria ordem constitucional por dentro.
A República Federal Alemã de 1949 foi desenhada sob a doutrina da Democracia Defensiva, em que o comando das forças armadas compete ao Parlamento, não há decretos de emergência presidenciais para governar sem o Legislativo, e o Tribunal Constitucional tem competência expressa para banir partidos antidemocráticos (Art. 21 da Lei Fundamental). Assim, o perigo atual não é de repetição de um golpe institucional via decretos, como se deu em 1933, mas sim a erosão funcional do Parlamento, devido ao bloqueio pelos radicais.
Ao pressionar a Alemanha a abandonar sua recente vocação pacifista e a converter seu parque fabril em um complexo militar autossuficiente, a Europa ignorou a advertência clássica de que armas pertencem a quem detém o poder político para comandá-las. O pesadelo geopolítico dos anos 2020 não reside apenas no fato de a Rússia ter reintroduzido a guerra de conquista territorial nas fronteiras orientais da Europa, mas no perigo da resposta europeia. A Europa forjou um poderoso aparato militar para defender-se sem contar com os EUA, mas não se certificou de que aquele no comando de tal poderio bélico teria a disposição de utilizar seus recursos para defender o continente.
A Europa pediu uma Alemanha armada para garantir sua paz. Pode acordar, muito em breve, diante de uma Alemanha rearmada, governada pelo ressentimento nacionalista e disposta a negociar a segurança do continente diretamente com Moscou.
Referências bibliográficas:
· VASCONCELOS, Livius Barreto. A Alemanha se rearma. Newsletter Geopolítica & Macroeconomia, Substack, 27 de maio de 2025. (Ensaio de referência que antecipou a tese das fissuras na Bundeswehr, o avanço eleitoral da extrema-direita e os riscos da perda de tutela sobre o rearmamento alemão).
· THE ECONOMIST. What should Germany do about its rising right? A stunning success for the AfD in Saxony-Anhalt. The Economist, Leaders, 8 de setembro de 2026. (Editorial que analisa o desempenho eleitoral de 43,8% da AfD na Saxônia-Anhalt, a fragilidade da CDU sob o chanceler Friedrich Merz e o dilema em torno do cordão sanitário/Brandmauer).
· TVP WORLD. German far-right regional victory sends ripples across Europe. Transmissão e entrevista com o ex-embaixador dos EUA Daniel Freed, World News Tonight, Varsóvia, 8 de setembro de 2026. (Reportagem sobre os resultados parlamentares em Magdeburgo e a análise diplomática a respeito do desalinhamento estratégico entre a AfD, a OTAN e a política externa dos EUA).
· THE ECONOMIST. How right-wing extremists infiltrated Germany’s armed forces. The Economist, 2020. (Reportagem sobre a investigação e os relatórios oficiais acerca da infiltração de células extremistas nos quadros de elite da Bundeswehr).
· ISMAY, Hastings Lionel (Lord Ismay). Declaração sobre os pilares fundacionais da Aliança Atlântica (“to keep the Soviet Union out, the Americans in, and the Germans down”), c. 1952.
· KISSINGER, Henry. Diplomacia. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1994. (Referência ao clássico "problema alemão", no qual se formula que uma Alemanha central unificada, rica e militarmente poderosa gera um desequilíbrio intrínseco na balança de poder do continente europeu).
· ALEMANHA. Grundgesetz für die Bundesrepublik Deutschland (Lei Fundamental da República Federal da Alemanha), de 23 de maio de 1949. (Com ênfase no Artigo 21, que disciplina a constitucionalidade das agremiações e estabelece os fundamentos da Democracia Defensiva — Wehrhafte Demokratie — e o banimento de partidos pelo Tribunal Constitucional de Karlsruhe).
· ALEMANHA (República de Weimar). Die Verfassung des Deutschen Reichs (Constituição de Weimar), de 11 de agosto de 1919. (Com ênfase no Artigo 48, referente aos decretos presidenciais de emergência e à suspensão de garantias fundamentais).