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Livius Barreto

por Livius Barreto

O OCASO AMERICANO

Assim como, em 1956, Suez provou que Londres não mandava mais no Mediterrâneo, Ormuz prova, em 2026, que Washington perdeu o controle do Golfo.

22/03/2026 às 09h03

22/03/2026 às 09h03

A crise do Canal de Suez expôs a incapacidade do Império Britânico de projetar poder de forma soberana, sem o beneplácito de Washington. Embora a Grã-Bretanha ainda possuísse porta-aviões e divisões de elite, havia perdido a autonomia estratégica, porque dependia do suporte financeiro dos EUA. De fato, quando o Reino Unido invadiu o Egito para tomar o Canal de Suez, sem aviso prévio aos EUA, o presidente Eisenhower, que temia que a aventura colonial empurrasse o mundo árabe para os braços da União Soviética, ameaçou vender as reservas em Libras do Tesouro Americano e usar sua influência para bloquear o acesso de Londres aos créditos emergenciais do FMI, o que causaria uma desvalorização imediata da moeda britânica. Os britânicos perceberam que, sem o Dólar americano, sua moeda colapsaria em dias, ficando provado que o poder financeiro de Washington, a partir de então, determinaria onde as armas britânicas poderiam ou não disparar.

Assim como, em 1956, Suez provou que Londres não mandava mais no Mediterrâneo, Ormuz prova, em 2026, que Washington perdeu o controle do Golfo. As dificuldades da marinha americana em manter o Estreito de Ormuz aberto e de evitar os ataques a seus aliados da Região demonstra a incapacidade dos EUA de impor a Pax Americana no Golfo Pérsico.

 O histórico encontro no USS Quincy, em 1945, selou a aliança tácita entre os EUA e a Arábia Saudita, em que esta se comprometeu a garantir o acesso privilegiado e estável às suas vastas reservas de petróleo para alimentar a economia e a máquina militar dos EUA e de seus aliados, enquanto os EUA se comprometeram, em contrapartida, a fornecer treinamento militar, armamentos e fundamentalmente garantia de proteção contra ameaças externas e internas. Tal aliança serviu de alicerce para que, décadas depois, nos anos 70, fosse formalizado o sistema do Petrodólar, o acordo por força do qual o petróleo saudita e, por extensão, o da OPEP, passou a ser precificado e comercializado exclusivamente em Dólares Americanos, o que criou uma demanda global pela moeda americana, já que todas as nações do mundo precisavam de Dólares para comprar energia.

Com a derrogação da Pax Americana no Golfo, as empresas precisarão gastar em segurança privada para navios e pagar seguros navais excessivamente caros. Os preços do petróleo, do frete marítimo e do seguro de carga se elevarão, refletindo o custo da desordem regional no preço final do produto. Diante da demonstração de incapacidade dos EUA de proteger seus aliados regionais, conforme previsto na aliança mencionada, os mesmos serão obrigados a buscar uma acomodação diplomática com o agressor, o Irã; a investir no financiamento da sua própria defesa; e a buscar um novo arranjo da segurança regional, papel que provavelmente recairá sobre um modelo de segurança compartilhada sob a influência crescente da China, cujo suprimento de energia depende do funcionamento do Estreito de Ormuz.

A par da perda do prestígio militar norte-americano, observa-se também a perda da hegemonia regional do Dólar, pois, na busca de novo garantidor da paz regional, os países do Golfo tendem a abandonar o sistema do Petrodólar, passando a aceitar outras divisas em troca do seu petróleo, reforçando a tendência de desdolarização.

A história econômica dos impérios é marcada pela manipulação monetária. O fenômeno contemporâneo do Quantitative Easing (aumento da base monetária) é o descendente direto da "limagem de moedas" praticada no Baixo Império Romano (de 284 d.C. a 476 d.C). Quando o Estado exaure seu excedente produtivo e sua capacidade tributária, recorre à desvalorização da moeda para solver passivos nominais, através da degradação do valor real da obrigação.

No século III, o Denário Romano sofreu uma redução sistemática de seu teor de prata, de 95% sob Augusto para meros 5% sob Cláudio II. O desfecho foi a destruição da classe média pela inflação galopante e a fragmentação do poder central, devido à fuga da classe média espoliada para o campo, em busca da subsistência, através da troca do seu trabalho por proteção e comida, diretamente, o que se constituiu no embrião do Feudalismo. Padrão idêntico observou-se no ocaso holandês, quando o Banco de Amsterdã emitiu recibos sem lastro metálico para financiar o esforço de guerra contra a Inglaterra. A hegemonia norte-americana ingressou em trajetória análoga em 1971, com o fim da conversibilidade em ouro, a partir de quando o Dólar perdeu cerca de 97% de seu poder real de compra.

Ao desvincular o Dólar de lastros físicos, os EUA iniciaram o maior experimento fiduciário da história, o qual permitiu a importação de bens reais em troca de passivos escriturais, o que os franceses chamaram de "privilégio exorbitante". A demanda mundial pelo Dólar Americano, entre outros motivos para a compra de energia no sistema do Petrodólar, por anos levou para o exterior os Dólares emitidos nos EUA, exportando para o resto do mundo a inflação decorrente do aumento da base monetária ocasionada pela emissão de Dólares pelo Governo norte-americano.

Contudo, ao ser utilizado como arma geopolítica pelos EUA, o Dólar perde sua característica de ativo neutro, resultando disto a tendência de conversão das reservas internacionais em Dólar para o Ouro físico, que reassume sua função de principal reserva de valor. A desdolarização não é um projeto ideológico, mas uma medida de gestão de risco prudencial. Com gradual substituição do Dólar pelo Ouro, como reserva de valor, e o fim do sistema do Petrodólar, os Dólares mantido nas reservas dos diversos países voltarão para o EUA e a inflação, outrora exportada, retornará ao emissor, tudo devido ao uso abusivo do Dólar como arma e à perda de confiança nas garantias militares oferecidas pelos EUA.

O quadro é agravado pela "dominância fiscal". Em 2024, os EUA atingiram um ponto de inflexão: os gastos com juros da dívida pública — que ultrapassa os US$ 38 trilhões — superaram o orçamento de Defesa. A diminuição da demanda externa por Dólares limita a capacidade do Federal Reserve monetizar o déficit, emitindo Dólares para cobrir despesas, sem comprometer o controle da inflação, forçando o Governo a elevar juros para atrair o capital necessário para manter em funcionamento o enorme aparato do Estado norte-americano.

Mas isso não é tudo, há ainda a paralisia provocada pela fragmentação da sociedade norte-americana em frações irreconciliáveis, devido à desigualdade extrema de riqueza — nos EUA, o 1% mais rico detém mais patrimônio que os 90% da base — como demonstrado no modelo criado por Ray Dalio, detalhado principalmente em sua obra "Principles for Dealing with the Changing World Order" (Princípios para a Ordem Mundial em Transformação), que utiliza o estudo de ciclos históricos para prever a ascensão e o declínio de impérios e suas moedas de reserva. Dalio defende que a queda do status de moeda de reserva é um indicador tardio, o último a se anunciar, e que o declínio é precedido por dívida alta, impressão de dinheiro e conflitos internos.

O iminente ocaso norte-americano é o fechamento de um ciclo macroeconômico secular. A falha na proteção das rotas energéticas e dos aliados regionais do Golfo Pérsico, a insolvência fiscal e a fragmentação social formam a tríade que determinará o fim da hegemonia norte-americana. O cenário projetado para o restante desta década é o de uma Ordem Multipolar Fragmentada, onde o Dólar coexistirá com blocos regionais e sistemas de liquidação baseados em ativos tangíveis.