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Livius Barreto

por Livius Barreto

O MODELO DE CRESCIMENTO CHINÊS

27/07/2026 às 19h53

27/07/2026 às 19h53

Quando Deng Xiaoping se tornou o líder supremo da China, em 1978, através de um golpe militar, após a morte de Mao Tsé-Tung, o país tinha uma das mais pobres economias do globo, sob estagnação há décadas, com performance pior do que as economias do Sudão e do Haiti.

Sob o então novo líder, a China abandonou o modelo comunista e abriu-se para a economia de mercado e para a globalização, com a implantação do regime conhecido como economia de mercado socialista, se transformando de uma sociedade essencialmente agrícola no país detentor da mais importante economia manufatureira do mundo, com produção equivalente a da Europa e a dos EUA, somadas, passando a dominar tecnologias de ponta nos seguimentos de telecomunicações, veículos elétricos e painéis solares e resgatando da pobreza aproximadamente 800 milhões de pessoas, em 40 anos.

Adotando um modelo de crescimento econômico baseado em uma política pública voltada para o desenvolvimento da indústria, como no passado fizeram os tigres asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Cingapura), o Japão e mesmo os EUA, há mais tempo, a China criou zonas econômicas especiais, a começar por Shenzhen, próxima a Hong Kong, determinando que os governos locais investissem na construção da infraestrutura necessária, além de criar incentivos ao atrelar as receitar dos governos locais ao valor da terra no respectivo distrito.

Para financiar os investimentos em infraestrutura, assim como para fomentar os setores imobiliário e industrial, ofertando financiamentos a juros baixos, a China recorreu à criação de débito público, a fim de evitar os efeitos inflacionários da emissão de moeda, sabendo que o aumento nominal da dívida seria compensado pelo aumento do PIB. A dívida pública do governo da China atingiu o seu ápice em 2023, 83,40% do PIB, enquanto a dívida total (incluindo a dívida gerada pelo governo, pelas empresas e pelas famílias) atingiu 282% do PIB, acima da média das economias desenvolvidas, de 256%, e da dívida total dos EUA, de 257%, sempre em relação ao respectivo PIB.

Em seguida, a China impediu a entrada de capital externo especulativo, estimulando o investimento direto na instalação de fábricas pelo capital estrangeiro, atraído pela boa infraestrutura disponível, pelo baixo custo da mão-de-obra e por financiamento com baixa taxa de juros, mas condicionava a entrada do capital estrangeiro à associação com empresas locais, para forçar a transferência de tecnologia.

Outrossim, a China recorreu ao protecionismo pra defender a indústria local em desenvolvimento, enquanto a mesma não era capaz de concorrer com a indústria estrangeira. Assim, um fabricante de veículos chinês, por exemplo, passou a contar com proteção tarifária contra a concorrência externa, mão-de-obra barata, boa infraestrutura, empréstimos a juros cômodos e know-how adquirido do estrangeiro. Além de tudo isso, sabendo da dificuldade em superar o know-how das avançadas indústrias automotivas japonesa e alemã, a China apostou nos veículos elétricos, em surgimento, valendo-se da abundância no seu território de matéria prima para a fabricação das baterias que alimentam tais veículos. Foi assim que a indústria automotiva da China superou a japonesa e a alemã no mercado internacional.

No entanto, inteiramente dependente do mercado externo, dado o limitado poder de compra do consumidor nacional, em decorrência dos salários propositadamente reduzidos, o modelo chinês dá sinais de esgotamento, com o problema da super produção, ocasionado pelo crescimento acelerado, liderado pelo Estado chinês.

Como sói acontecer, com o avanço tecnológico e econômico tende a se reduzir a capacidade dos setores agrícola e industrial de gerar postos de trabalho, o primeiro devido ao emprego da produção mecanizada e o segundo devido à automação, restando o seguimento da construção civil para absorver a mão-de-obra ociosa, o qual foi explorado à exaustão no atual modelo chinês.

Depois de um período de valorização constante, os preços dos imóveis residenciais despencaram, devido ao excesso na oferta, incentivada pelos juros baixos, levando ao colapso a gigante Evergrande, a maior empresa do seguimento imobiliário da China, a qual acumulou mais de US$ 300 bilhões em dívidas, tendo sua falência sido decretada em janeiro de 2024. Outrossim, pátios de fábricas de veículos e bicicletas, entre outros, abarrotados de produtos, evidenciam a excessiva produção industrial, em relação à demanda, o que tende a se agravar com a onda de protecionismo e nacionalismo em voga, que culminou com a Guerra Comercial deflagrada pelos EUA.

A China precisa dar o passo seguinte no desenvolvimento da sua economia, desta vez expandindo o setor de serviços, para absorver a força de trabalho disponível, gerar renda e aumentar o consumo interno, a exemplo daquilo que se observa nas economias desenvolvidas, como a dos EUA, Reino Unido e muitos outros. No Reino Unido, por exemplo, o setor de serviços responde por 78,6% da economia e emprega 95,7% dos trabalhadores.

Só o setor de serviços pode oferecer os postos de trabalho que a construção civil e as fábricas não podem mais assegurar. Todavia, por questões políticas, ao invés de incentivos, as empresas do setor de serviços na China, notadamente as de tecnologia e educação, sofreram uma grande repressão nos últimos anos, porque seu desenvolvimento passou a ser visto pelo Partido Comunista Chinês como uma ameaça ao regime. Empresas como o Ant Group, a New Oriental, Tencent e Alibaba, entre muitas outras, sofreram repressão com o aumento do controle do governo sobre a economia, em busca de reduzir a influência do setor privado em áreas consideras estratégicas.

Foi a abertura promovida por Deng Xiaoping que proporcionou o crescimento e enriquecimento da China e só uma maior abertura, que remova os obstáculos à inovação intelectual e tecnológica e passe a incentivá-las, em vez de prejudica-las para garantir a perpetuação do Partido Comunista no Poder, pode livrar a China de uma estagnação ou mesmo da depressão econômica duradoura.