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Livius Barreto

por Livius Barreto

O MITO DOS GRANDES LÍDERES E A VERDADEIRA CRISE DA UE

A verdadeira crise da Europa não reside na ausência de novos líderes. A sociedade exige que a União Europeia aja com a rapidez e a firmeza de um Estado geopolítico unificado, mas recusa-se a dotar o bloco dos instrumentos federativos necessários para tan

21/08/2026 às 16h52

21/08/2026 às 16h52

O Mito dos Grandes Líderes e a Verdadeira Crise da UE

É comum ouvir em análises geopolíticas um lamento nostálgico: onde foram parar os grandes estadistas da Europa? A comparação contrapõe, de um lado, a memória estilizada de figuras que desenharam a arquitetura da integração — da pacificação inicial liderada por Robert Schuman e Konrad Adenauer no pós-guerra, à consolidação da União Europeia impulsionada por François Mitterrand e Helmut Kohl durante a reunificação alemã — e, de outro lado, a geração atual de governantes e burocratas, frequentemente rotulada como uma classe de "gerentes" e "tecnocratas" incapazes de formular uma visão geopolítica de longo prazo.

Essa narrativa de decadência moral e política é sedutora e alimenta diagnósticos dramáticos. Contudo, a ideia de que as dificuldades da Europa decorrem da "falta de homens extraordinários" ignora a própria natureza das instituições que o continente construiu. A transição dos líderes de grande visão política para a gestão regulatória não foi um acidente de percurso, mas um projeto deliberado de engenharia institucional. É preciso afastar a tese simplista de uma degeneração pessoal da classe política para entender que essa nova arquitetura teve por finalidade despolitizar matérias cruciais, retirando deliberadamente grandes decisões econômicas e administrativas da arena da disputa partidária, das paixões eleitorais e das rivalidades nacionalistas, transferindo o seu comando para regras jurídicas fixas e para instâncias técnicas, independentes e regulatórias, com o propósito de evitar que rivalidades e nacionalismos exacerbados voltassem a arrastar o continente para guerras devastadoras.

Matérias estratégicas — como a política monetária, a disciplina fiscal, os limites de déficit, as regras de concorrência e as normas do mercado único — foram intencionalmente blindadas das promessas de campanha e das conveniências do ciclo eleitoral doméstico dos países membros. Em vez de permitir que ministros ou parlamentos nacionais alterem livremente essas políticas ao sabor do momento político, o poder decisório foi delegado a instituições não eleitas e pautadas pelo saber técnico, como o Banco Central Europeu (BCE), a Comissão Europeia e o Tribunal de Justiça da UE.

Após as duas guerras mundiais, os arquitetos da Europa concluíram que a mobilização ideológica e o discurso político apaixonado haviam nutrido os nacionalismos que destruíram o continente.  A conversão da alta política em 'gestão de regras' emergiu, assim, como a estratégia fundamental para pacificar o continente, substituindo o embate de ideologias pela administração de parâmetros fiscais e normas regulatórias.

Em suma, "despolitizar" não significa que essas matérias deixaram de ter impacto real na vida dos cidadãos, mas sim que a sua condução passou a responder à lógica do cálculo técnico e da norma jurídica, e não ao confronto político tradicional da democracia eleitoral. A ideia de que a política europeia foi convertida em "gestão de regras" reflete a formulação teórica do "Estado Regulador" desenvolvida por Giandomenico Majone. A União Europeia

estruturou-se não como um superestado social com poderes de redistribuição de

renda, mas sim como uma rede regulatória voltada para a correção de falhas de

mercado e a livre circulação de fatores produtivos.

Para compreender o perfil da liderança europeia contemporânea, é preciso também desconstruir o mito do heroísmo individual. A historiografia da integração continental demonstra que os chamados "pais fundadores" não agiram em um vácuo de genialidade: suas realizações não resultaram de um brilho intelectual isolado ou de virtudes sobre-humanas, mas sim de fatores conjunturais e estruturais extraordinários. Esses pioneiros responderam a condicionantes geopolíticas críticas, como a devastação do pós-guerra, a urgência da reconstrução econômica e o alinhamento estratégico imposto pela Guerra Fria sob o guarda-chuva de segurança e financiamento dos Estados Unidos. Ademais, a construção europeia avançou por meio de intensas negociações intergovernamentais, compromissos burocráticos e pressões de redes econômicas transnacionais. Em suma, tais líderes operaram dentro de uma janela histórica de oportunidade irrepetível, que favorecia grandes projetos constitutivos, e não porque fossem intrinsecamente superiores aos governantes do presente.

À medida que o projeto comunitário se consolidou, o centro de gravidade da União Europeia mudou. Adotando o método funcionalista de Jean Monnet (diplomata e planejador francês, considerado o arquiteto prático da unidade europeia), a integração começou por setores técnicos e pela regulação do mercado. Filiando-se à célebre teoria sobre as fontes de legitimidade da União Europeia, do politólogo alemão Fritz Scharpf, que demonstra a transição da legitimidade democrática tradicional baseada na participação (input legitimacy) para a legitimidade baseada no rigor técnico e na eficiência de resultados (output legitimacy), a Europa operou sua transição para o modelo fundamentado no rigor técnico, na estabilidade orçamentária e na entrega de resultados no Mercado Único.

 Com o Tratado de Maastricht e a criação do Euro nos anos 1990, essa lógica consolidou o que autores como Claudio Radaelli, Kathleen McNamara e Sheri Berman qualificam como uma "tecnocracia protegida": órgãos independentes, como o Banco Central Europeu, e regras fiscais rígidas foram intencionalmente desenhados para insular as decisões econômicas das pressões eleitorais de curto prazo.

Em decorrência desse desenho surgiu o que se pode chamar de "leader nella gabbia” (ou líder na gaiola). Mesmo quando surge uma figura com grandes ambições geopolíticas, o sistema institucional da União Europeia encarrega-se de neutralizá-la. O poder de veto soberano em matérias essenciais de política externa, a fragmentação da representação executiva e a necessidade permanente de atingir o "menor denominador comum" entre os 27 Estados-membros, dada a necessidade de unanimidade para aprovação das decisões, forçam qualquer governante a diluir suas propostas em compromissos burocráticos.

O efeito colateral dessa escolha histórica reside na erosão da legitimidade democrática tradicional. Quando o cidadão percebe que a alteração do partido no governo não resulta em mudanças nas regras econômicas fundamentais, a capacidade de mediação dos partidos tradicionais enfraquece. Como consequência, as

tensões políticas reprimidas pela gestão tecnocrática reaparecem nas margens do

sistema sob a forma de movimentos eurocépticos e populistas, que buscam "repolitizar"

de forma conflituosa o que as elites comunitárias tentaram despolitizar pela

via regulatória.

No entanto, seria um erro diagnosticar o atual modelo europeu como paralisia pura. Pesquisas recentes de historiadores e cientistas políticos como Christel Koop, Christine Reh e Edoardo Bressanelli mostram que a União Europeia desenvolveu uma forma alternativa de exercer liderança em momentos de emergência. Diante de crises existenciais, como a pandemia de COVID-19 ou a guerra na Ucrânia, a Comissão Europeia rompeu com a neutralidade estritamente técnica: ao emitir dívida comum (Next Generation EU) e centralizar decisões de compras e apoio estratégico, o executivo comunitário expandiu seus poderes não pelo carisma individual de seus quadros, mas por adaptação institucional.

A verdadeira crise de liderança da Europa, portanto, não reside na ausência de novos "visionários", mas no desacordo estrutural entre as expectativas do público e os limites do sistema. A sociedade exige que a União Europeia aja com a rapidez e a firmeza de um Estado geopolítico unificado. Contudo, recusa-se a dotar o bloco dos instrumentos federativos necessários para isso, mantendo a exigência de unanimidade para a tomada de decisões e o primado dos interesses eleitorais domésticos, que condiciona a sobrevivência política dos líderes de cada do Estado Membro à colocação dos interesses nacionais acima dos objetivos estratégicos da União.

Lamentar a falta de grandes figuras políticas é uma forma conveniente de evitar o debate real. Se a Europa deseja ter uma voz geopolítica assertiva no século XXI, a solução não virá do surgimento providencial de um novo herói político, mas da reformulação corajosa de suas regras do jogo: o fim dos vetos nacionais em política externa e a construção de uma verdadeira autoridade executiva democraticamente legitimada. Sem essa reforma estrutural, os governantes europeus continuarão a ser exatamente aquilo para o qual o sistema os projetou: excelentes gestores encarregados de administrar as grades de uma gaiola institucional.

 

Referências e fontes citadas

·      BERMAN, Sheri. "The Pipe Dream of Undemocratic Liberalism". Journal of Democracy, v. 28, n. 3, p. 29–38, 2017. (Analisa o insulamento tecnocrático e o afastamento das decisões econômicas da esfera eleitoral).

·      BRESSANELLI, Edoardo; KOOP, Christel; REH, Christine. "An Executive in Crisis: The European Commission, Executive Power, and Crisis Management". Journal of European Public Policy, v. 29, n. 1, p. 1–22, 2022. (Examina a transformação da Comissão Europeia em um ator político ativo durante as crises recentes).

·      LEUCHT, Brigitte; SEIDEL, Katja; WARLOUZET, Laurent (orgs.). Reinventing Europe: The History of the European Union, 1945 to the Present. Londres: Bloomsbury Academic, 2023. (Historiografia crítica sobre o processo de integração europeia e desconstrução da 'Teoria dos Grandes Homens').

·      MCNAMARA, Kathleen R. The Politics of Everyday Europe: Constructing Authority in the European Union. Oxford: Oxford University Press, 2015. (Trata da construção da autoridade cultural e tecnocrática das instituições comunitárias).

·      RADAELLI, Claudio M. "Technocracy, Democracy, and Governance in the European Union". Journal of European Public Policy, v. 6, n. 5, p. 757–774, 1999. (Fundamentação teórica do modelo de governança regulatória e tecnocrática na Europa).

·      SCHARPF, Fritz W. Governing in Europe: Effective and Democratic? Oxford: Oxford University Press, 1999. (Obra clássica sobre a conceituação e a transição entre a legitimidade de entrada [input] e a legitimidade de saída [output]).

·      TURCO, Jacopo; GUIDA, Simone. "Perché l'Europa non ha più grandi leader". Monólogo audiovisual divulgado pelo canal Nova Lectio, 2024. (Ponto de partida e objeto de análise crítica sobre a crise de liderança na União Europeia).