Em nosso artigo “O Complexo Conflito EUA versus Irã”, publicado no Substack em 01/02/2026, antes da eclosão formal das hostilidades entre os EUA e Israel, contra o Irã, destacamos que o regime iraniano, valendo-se das assimetrias da guerra híbrida e explorando a complexa geografia do Golfo Pérsico, tinha plena capacidade de impor uma resistência formidável à força-tarefa norte-americana.
Os acontecimentos que se sucederam confirmaram essa projeção. O Irã não apenas opôs uma resistência capaz de frustrar os objetivos estratégicos primários de Washington, como demonstrou a capacidade prática de fechar e submeter ao seu controle operacional o Estreito de Ormuz, a artéria mais crítica do comércio energético global.
Contudo, a pretensão ulterior de Teerã de tarifar e restringir discricionariamente o tráfego da marinha mercantil no estreito viola frontalmente o regime internacional de passagem em trânsito, consagrado pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM). Trata-se de um precedente inaceitável para a ordem internacional. Permitir a jurisdição unilateral e a cobrança de "pedágios" em águas internacionais criaria uma jurisprudência perigosa, suscetível de ser replicada por outras potências revisionistas, como a China no Mar do Sul da China ou a Rússia no Mar Negro. A controvérsia, portanto, transpôs a volatilidade do preço do barril de petróleo: tornou-se uma batalha pela preservação do livre comércio marítimo global.
Ironicamente, não fosse essa inflexibilidade quanto ao estatuto do Estreito, a administração norte-americana estaria pronta para encerrar as operações e aceitar um desfecho negociado, ciente da impossibilidade política e econômica de sustentar uma guerra de atrito de alta intensidade indefinidamente.
Conforme observou com precisão Gil Mihaely, Diretor de Publicação da revista francesa de geopolítica Conflits, a estratégia inicial de Washington fracassou, e a inclinação de Donald Trump era reagir com o pragmatismo típico de um executivo: reconhecer o prejuízo de um "investimento malsucedido", dar baixa no ativo e redirecionar a agenda política. Sob esse cenário, o Irã estaria em posição de consolidar ganhos colossais, como o alívio definitivo das sanções econômicas, a criação de fundos internacionais para a reconstrução do Irã e uma projeção de prestígio sem precedentes no Sul Global.
Em vez de converter a resistência militar em dividendos diplomáticos e econômicos definitivos, Teerã insiste na retenção física e na tributação do tráfego marítimo. Com isso, inviabilizou a saída estratégica dos EUA, forçando Washington a articular uma coalizão internacional para conter o precedente.
Essa cegueira estratégica guarda uma simetria impressionante com um dos episódios mais emblemáticos da própria história antiga da Pérsia: a campanha do Rei Xerxes I nas Guerras Médicas (480 a.C.). Após ocupar Atenas e desfrutar de uma posição de inegável supremacia militar, Xerxes incorreu em um erro fatal de húbris ao tentar impor o domínio absoluto sobre os mares no estreito de Salamina. Até aquele momento, as cidades-Estados gregas encontravam-se profundamente divididas por rivalidades históricas e inclinadas à hesitação. Contudo, ao transformar um estreito marítimo na arena de sua hegemonia coercitiva, o Imperador Persa provocou exatamente o resultado que deveria evitar: forçou rivais figadais a constituírem uma coalizão defensiva sem precedentes. Passados mais de dois milênios, a Teerã contemporânea parece reencenar o mesmo drama do Império Aquemênida, ao converter o Estreito de Ormuz em instrumento de extorsão, catalisando a união de atores regionais que jamais se alinhariam em circunstâncias ordinárias.
A conduta iraniana desenha, ainda, uma perfeita analogia com a criminalidade organizada: os Estados do Golfo (como a Arábia Saudita e o Kuwait) operam de forma análoga a comerciantes em um bairro controlado pela máfia. Para preservar a estabilidade de seus negócios, dispõem-se a pagar elevadas taxas implícitas de "proteção" ou coexistência pacífica. Todavia, a dinâmica se rompe quando o achacador deixa de ser um "mafioso racional" e passa a atuar de forma imprevisível e destrutiva, ameaçando a própria existência do comércio. Nesse ponto de inflexão, mesmo receando retaliações, os comerciantes não têm alternativa senão recorrer à polícia.
É precisamente esse deslocamento que explica as recentes operações diretas de países vizinhos contra os proxies iranianos no Iêmen e no Iraque. Intoxicada pelo triunfo tático de ter contido a superpotência, a Guarda Revolucionária (IRGC) incorre em um grave erro de avaliação — por vezes alimentado por divisões políticas internas em Teerã, onde facções radicais exigem a manutenção da crise para preservar seu poder doméstico.
Na arte da estratégia militar ensina-se que, quando um oponente mais forte sinaliza a intenção de absorver uma perda pontual e se retirar, deve-se construir para ele uma "ponte de ouro”, que lhe proporcione uma saída honrosa do conflito. Ao exigir a alteração permanente das regras do comércio marítimo internacional e ameaçar a infraestrutura vital de seus vizinhos, o Irã destruiu essa ponte.
Ao esticar a corda a este ponto, Teerã conseguiu o feito de unificar contra si atores regionais profundamente heterogêneos. O pragmatismo cauteloso dos Estados do Golfo foi substituído pela imperiosa necessidade de sobrevivência, chancelando o apoio logístico e operacional à presença militar ocidental. Ao tentar converter uma vitória defensiva em uma hegemonia coercitiva, o Irã arrisca colocar em xeque todos os ganhos históricos que havia acumulado no conflito.
Referências e Fontes Bibliográficas
[1] VASCONCELOS, Livius Barreto. O Complexo Conflito EUA versus Irã. Substack, 1º fev. 2026.
[2] ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM). Montego Bay, 1982. Parte III: Estreitos Utilizados para a Navegação Internacional (Artigos 37 a 44 — Regime de Passagem em Trânsito).
[3] CONFLITS : REVUE DE GÉOPOLITIQUE. Revista francesa especializada em geopolítica e relações internacionais. Direção de Publicação de Gil Mihaely. Paris, 2026.
[4] MIHAELY, Gil. Análise estratégica sobre o impasse no Estreito de Ormuz e a diplomacia americana. LCI (La Chaîne Info), Paris, debate exibido em 04 ago. 2026.
[5] HERÓDOTO. Histórias: Livro VIII (Urania). Registro histórico da Batalha de Salamina, da hubris de Xerxes I e da formação da Liga Helênica (480 a.C.).
[6] SUN TZU. A Arte da Guerra. Capítulo VII (Manobras Estratégicas): O princípio da "Ponte de Ouro" (pont d'or / a máxima de deixar uma rota de saída honrosa ao adversário para evitar o combate existencial desesperado).
Link para o artigo O Complexo Conflito EUA versus Irã, publicado no Substack, em 01/02/2026: https://open.substack.com/pub/liviusbarretovasconcelos/p/o-complexo-conflito-eua-versus-ira?r=5khek0&utm_campaign=post-expanded-share&utm_medium=web