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Livius Barreto

por Livius Barreto

O ERRO CRASSO DE TRUMP

Mais de 2 mil anos depois, Trump repete os erros do general romano que imortalizou o conceito de "Erro Crasso" na consciência coletiva ocidental, como sinônimo de uma falha grosseira e evitável.

07/05/2026 às 23h15

A história militar é marcada por momentos em que a esmagadora disparidade de poder entre os beligerantes é neutralizada por falhas fundamentais de percepção estratégica, liderança e compreensão do terreno. O conceito de "Erro Crasso", imortalizado na consciência coletiva ocidental como sinônimo de uma falha grosseira e evitável, tem sua origem na desastrosa campanha de 53 a.C, liderada pelo general romano Marco Licínio Crasso contra o Império Parta, na Batalha de Carras. Milênios depois, é possível encontrar paralelos perturbadores entre o colapso das legiões romanas no deserto mesopotâmico e o fiasco estratégico da administração de Donald Trump no Oriente Médio, no âmbito da Operação Epic Fury, contra a República Islâmica do Irã, em 2026, que culminou no impasse militar do Estreito de Ormuz. Ambas as campanhas, embora separadas por vastos horizontes temporais e tecnológicos, compartilham erros comuns como a subestimação da resiliência adversária, o desprezo pela subordinação da estratégia militar a objetivos políticos e a aceitação da falácia de que a superioridade tecnológica ou numérica garante, por si só, a submissão do oponente.   

Para compreender o desastre de Crasso, em Carras, é necessário analisar o contexto político da República Romana no primeiro século a.C.. Roma era governada por uma aliança informal e secreta conhecida como o Primeiro Triumvirato, composta por Júlio César; Pompeu, o Grande; e Marco Licínio Crasso. Crasso era, indiscutivelmente, o homem mais rico de seu tempo, tendo acumulado uma fortuna vasta através de métodos predatórios, incluindo a compra de propriedades confiscadas durante as proscrições de Sila e a operação de brigadas de incêndio privadas que apenas salvavam edifícios se os proprietários concordassem em vendê-los por preços irrisórios enquanto as chamas ainda ardiam. No entanto, Crasso sofria de uma carência profunda de prestígio militar, o que os romanos chamavam de gloria. Enquanto Pompeu havia pacificado o Oriente e César conquistava as Gálias, Crasso era visto principalmente como um financista e um político de bastidores.   

A campanha contra a Pártia não foi motivada por uma ameaça direta a Roma, mas pela necessidade de Crasso em validar sua posição no Triumvirato, através de uma vitória militar que eclipsasse seus rivais. Ele buscou no Oriente não apenas território, mas o tesouro das grandes cidades mesopotâmicas e a fama de conquistador de um império que havia surgido das cinzas do antigo domínio persa. Esta "guerra de escolha" foi lançada sem o consentimento formal do Senado romano, marcando um desvio perigoso das normas constitucionais da República romana em favor da ambição pessoal de um líder populista e imensamente rico, assim como a guerra de Trump se fez sem consulta à ONU, violando o artigo 2 da Carta das Nações Unidas, o que torna a iniciativa norte-americana ilegal perante o Direito Internacional.   

A abordagem da administração Trump em relação ao Irã foi moldada por uma ruptura deliberada com a ortodoxia diplomática. A retirada unilateral dos EUA, em 2018, do acordo nuclear iraniano, denominado Plano de Ação Integral Conjunto (JCPOA), não foi baseada em violações iranianas, mas no desejo de Trump de desmantelar o legado de seu antecessor, Barack Obama, substituindo o acordo multilateral alcançado em 2015 por uma campanha de "Pressão Máxima", para subjugar o Irã. A teoria subjacente era que o sofrimento econômico extremo forçaria Teerã a uma rendição estratégica ou provocaria uma mudança de regime. Assim como Crasso via a Pártia como uma presa fácil e uma fonte de prestígio, a administração Trump viu o Irã como o alvo ideal para uma demonstração de força que reafirmasse a Diplomacia do Martelo (Hammer Diplomacy), que representou o abandono da diplomacia em favor de ações cinéticas abruptas e devastadoras, em busca da Submissão Estratégica do adversário, mediante o uso do capital econômico e militar dos EUA.   

A ausência de um projeto político pós-conflito é um outro traço comum em ambos os casos. Crasso não tinha um plano para governar a Pártia, seu objetivo era puramente a pilhagem e a glória pessoal. Da mesma forma, a administração Trump não possui uma "teoria da vitória" credível para o Irã. Quando questionados sobre o estado final desejado, oficiais de Washington alternavam entre a exigência de "rendição incondicional", "mudança de regime" e a simples "negociação de um acordo melhor". A vitória militar tática dos EUA, com a destruição da marinha iraniana, tornou-se irrelevante diante da derrota política estratégica representada pela crise econômica global provocada conflito e pela demonstração da capacidade do Irã de se utilizar do fechamento do Estreito de Ormuz como uma arma geopolítica de importância ainda maior que aquela buscada pelo programa nuclear iraniano, a bomba atômica.   

O erro fundamental de Crasso em sua marcha para o Oriente foi o desprezo sistemático pela inteligência local e pelos conselhos táticos de seus aliados. O rei armênio Artavasdes II ofereceu a Crasso uma rota alternativa através das montanhas da Armênia, prometendo o apoio de 46.000 soldados, incluindo cavalaria pesada. Esta rota teria fornecido às legiões romanas, compostas principalmente por infantaria pesada, proteção natural contra a temível cavalaria parta e linhas de suprimento seguras. No entanto, Crasso, movido por uma pressa arrogante de capturar as cidades mesopotâmicas e por uma desconfiança dos motivos do rei armênio, escolheu a rota direta através dos desertos áridos da Mesopotâmia.   

Para agravar o erro geográfico, Crasso confiou cegamente em Ariamnes, um chefe local que já havia servido a Pompeu, mas que no momento era um agente duplo a serviço do rei parta Orodes I. Ariamnes deliberadamente guiou o exército romano para terrenos planos onde a mobilidade dos arqueiros a cavalo partas poderia ser maximizada, enquanto convencia Crasso de que o inimigo estava desorganizado e em fuga. As legiões, exaustas pelo calor e pela falta de água, foram conduzidas para uma armadilha onde o terreno era o maior inimigo.   

Com a Operação Epic Fury, Trump repetiu, em 2026, os erros de Crasso, ao iniciar uma campanha apressada e mal planejada, ignorar as características geográficas do cenário do conflito e desprezar as recomendações do então Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo (NCTC) norte-americano, Joe Kent, que afirmava não existir uma solução militar para os objetivos políticos da Operação Epic Fury, tendo o mesmo renunciado ao seu posto, em 17/03/2026, em protesto contra a guerra com o Irã. A administração Trump adotou a premissa de que a superioridade tecnológica aérea e naval dos EUA e de Israel poderia, através da decapitação da liderança iraniana, neutralizar suas capacidades de retaliação, obtendo uma vitória rápida em uma guerra de quatro a seis semanas, subestimando drasticamente a resiliência do comando e controle iraniano e a disposição de Teerã em expandir o conflito para além de suas fronteiras.   

Nos mais de dois milênios desde a Batalha de Carras o conflito patrocinado por Crasso representou um dos exemplos mais eloquentes da história militar sobre como uma enorme força convencional pode ser vencida por uma força inúmeras vezes menor, que utiliza táticas assimétricas superiores. Ao buscar fama e fortuna, Crasso protagonizou uma das maiores e mais humilhantes derrotas militares de toda a história romana. Ao empregar o enorme poderio militar norte-americano para garantir vantagens comerciais, sem alcançar sequer um de seus objetivos políticos; desencadeando a maior disrupção no fornecimento de petróleo desde a crise de 1970; além de fornecer ao Irã uma inédita autoridade incontestável sobre o Estreito de Ormuz, Trump está a caminho de cometer o seu próprio Erro Crasso.