Tendo começado a rivalizar com a libra esterlina (a moeda britânica) logo após a Primeira Guerra Mundial (em 1920), o dólar teve o seu triunfo oficial como moeda de reserva global com o Acordo de Bretton Woods, no pós-segunda-guerra, em 22/07/1944, há 82 anos. Naquela ocasião a moeda norte-americana foi atrelada ao ouro, à razão de US$ 35/onça, mantendo-se assim até 1971, quando, por um decisão unilateral dos EUA, restou suspensa a conversibilidade da moeda em ouro, tonando o dólar uma moeda puramente fiduciária.
Moeda de Reserva é aquela que os bancos centrais de todo o mundo mantêm em seus cofres, como reserva de valor, a qual é usada para precificar e negociar as principais commodities, como petróleo, ouro e grãos. Deter a prerrogativa de emissão da moeda de reserva fiduciária concede ao país o privilégio de imprimir moeda e exportá-la em troca de bens reais, sem que o aumento da base monetária, decorrente da impressão de mais moeda, gere inflação interna na mesma proporção, uma vez que boa parte dos dólares impressos não são injetados na economia do país emitente, mas acabam constituindo reservas nos cofres dos bancos centrais mundo a fora, sendo este o Privilégio Exorbitante concedidos aos EUA, mencionados pelos franceses.
Todavia, a hegemonia do dólar repousa sobre um paradoxo técnico conhecido como Dilema de Triffin. Para que o mundo utilize o dólar como reserva de valor e meio de troca nas transações internacionais, os demais países precisão ter excedentes nas relações comerciais com os EUA. De fato, como as demais nações adquirem os dólares através do comércio exterior - uma vez que apenas os EUA podem emitir tal moeda - elas precisam receber mais dólares pelas vendas feitas aos EUA do que despendem importando produtos e serviços norte-americanos, de forma que possam utilizar os excedentes para constituir suas reservas em dólares, que usarão, por exemplo, para adquirir petróleo do Oriente Médio, bem como outras commodities de diversos países. Assim são gerados déficits comerciais persistentes da balança comercial norte-americana.
Durante décadas, os déficits comerciais dos EUA foram compensados pela necessidade de formação de reservas de valor em dólar por todo o resto do mundo. Contudo, como se dá com qualquer moeda fiduciária, o interesse dos demais países em manter reservas em dólares depende da confiança na capacidade de Washington de honrar o valor real da moeda, e não apenas o valor nominal da mesma.
Verificam-se, todavia, diversos fatores, de natureza fiscal, mecânica e geopolítica, que contribuem para a quebra da confiança na manutenção do valor real da moeda fiduciária norte-americana. O enorme endividamento dos EUA (fator fiscal) obriga o país a emitir mais títulos da dívida americana do que o mercado é capaz de absorver, o que constrange o Banco Central a monetizar o déficit público, emitindo moeda (fator mecânico) para adquirir os títulos da dívida não absorvido pelo mercado, dólares estes injetados na economia doméstica, gerando pressão inflacionária nos EUA. Os mesmos dólares emitidos com tal finalidade diluem o poder de compra de todos os dólares existentes, inclusive aqueles mantidos nas reservas dos demais países, que, diante deste fenômeno, tendem a substituir o dólar por outras reservas, como o ouro físico, fazendo com que, cada vez mais, os dólares antes mantidos nos bancos centrais estrangeiros retornem para os EUA. Desta forma, a inflação, que antes era exportada, agora retorna ao emissor.
Outrossim, sem o lastro em ouro, o qual foi abandonado em 1971, como dito, o valor do dólar é garantido pela capacidade americana de manter em funcionamento o comércio internacional, pois é ao comércio que se destinam as reservas em dólar, mantidas nos diversos bancos centrais. A incapacidade dos EUA de manter o fluxo no Estreito de Ormuz (fator geopolítico) funciona como uma inadimplência de serviço. Se os EUA não garantem a segurança das rotas, o "prêmio " que o mundo paga, aceitando dólares inflacionados, em troca da estabilidade no comércio exterior, deixa de fazer sentido. A moeda perde sua utilidade como garantia de acesso a recursos físicos, as commodities.
Ademais, a confiança no ativo de reserva exige a neutralidade política da moeda. O uso amiúde do sistema SWIFT e do congelamento de reservas soberanas como ferramentas de sanção transforma o dólar de um bem público global em um instrumento de coerção. Países com superávits comerciais, como China e as monarquias do Golfo, percebem que seus ativos em dólares podem ser bloqueados ou anulados por decisão política, o que os leva a buscar alternativas ao dólar, como a adoção do ouro físico como reserva de valor e a criação de infraestrutura paralelas de transações internacionais, como as moedas digitais soberanas e o CIPS (Cross-Border Interbank Paymento System), uma alternativa ao SWIFT.
O valor do dólar depende ainda do seu Efeito de Rede (Network Effect). O sistema do dólar, incluído o SWIFT, ainda conta com o maior número de países adeptos, o que o torna mais atraente do que as alternativas existentes no mercado, mas à medida em que grandes economias, como a dos BRICS+, criam mencionadas infraestruturas paralelas (CIPS e moedas digitais soberanas) o mundo se torna menos dependente do dólares para transacionar energia e outras commodities - notadamente depois do recente fiasco do Petrodólar, comentado no artigo “O Ocaso Americano” - diminuindo na mesma medida a demanda marginal pela moeda norte-americana. Menor demanda global por uma moeda cuja oferta é infinita - porque pode ser emitida livremente, uma vez que não está mais atrelada às reservas de ouro mantida pelo emissor - resulta inevitavelmente na sua desvalorização real.
Desta forma, a estabilidade do sistema financeiro mundial baseado no dólar não está ameaçada por um calote nominal — os EUA sempre terão prensas para imprimir notas —, mas por uma insolvência de valor. O mundo está despertando para o fato de que deter dólares no cenário atual significa manter no portifólio um papel cujo poder de compra é sacrificado no altar da sobrevivência política de Washington.
A dominância de cada uma das Moedas de Reserva nos últimos cinco séculos revela um movimento cíclico de aproximadamente um século, embora a transição de uma moeda de reserva para outra não se faça abruptamente, mas num processo gradual ao longo de uma a três décadas. Todas as superpotências precedentes, Portugal (1450-1580), Espanha (1550-1648), Holanda (1640-1784) e Grã-Bretanha (1815-1944), seguiram um padrão idêntico em sete fases, desde a ascensão até o colapso de suas moedas de reserva:
a) a Fase da Dominância Militar, que começa com o controle das rotas comerciais por armas (Portugal no séc. XV, Holanda no XVII, Grã-Bretanha no XIX e EUA pós-1945);
b) a Fase dos Superávits Comerciais, em que o controle das rotas gera acúmulo massivo de riqueza;
c) a Fase da Formalização (para o dólar, o acordo de Bretton Woods, em 1944);
d) a Fase do Déficit e do Luxo, em que o país para de produzir e começa a importar tudo dado o Dilema de Triffin;
e) a Fase da Impressão Descontrolada, quando se torna impossível financiar o déficit público através do mercado e se adota a monetização do déficit, imprimindo-se moeda imoderadamente (os EUA entraram nesta fase em 2008 e aceleraram na Covid, imprimindo 40% de todos os dólares da história em apenas 12 meses);
f) a Fase da Perda de Confiança, quando o mundo passa a buscar alternativas; e
g) a Fase do Colapso, quando o mercado adota uma nova moeda.
A toda evidência, o dólar se encontra na Fase 6 do ciclo, a da Perda de Confiança, sinalizada pela queda da participação do dólar nas reservas globais (de 72% em 2000 para 58% em 2024), a qual se seguiu à expansão descontrolada da base monetária (Fase 5), verificada especialmente em decorrência da crise imobiliária de 2008 e da Covid. Todavia, o colapso não será imediato, mas deve se dar gradualmente ao logo ao mais de uma década, confirmando a periodicidade do ciclo vital das moedas de reserva: ascensão, dominância e exaustão em aproximadamente cem anos.