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Livius Barreto

por Livius Barreto

O ABUSO DA HISTÓRIA

23/05/2026 às 20h49

23/05/2026 às 20h49

Na antiguidade, depois da transição da República Romana para o Império, houve um imperador, Calígula, que representou o abandono da governança sóbria em favor do governo baseado no espetáculo midiático e orientado pelo capricho individual. Adorado por parcela significativa da plebe romana como um exímio showman, como se diria atualmente, organizador de paradas militares suntuosas e entusiasta de combates em arenas de gladiadores, Calígula utilizava o deboche sistemático e a humilhação pública para neutralizar a oposição.

Temido como sendo um louco, acabou investido de poderes exorbitantes pelo Senado, que não ousava contrariá-lo. Calígula passou a erguer estátuas douradas de si mesmo, rebatizar templos sagrados em sua própria homenagem e a gastar fortunas em obras monumentais, como os Palácios Flutuantes (os navios de Nemi), o Palácio do Fórum Romano (a Domus Gai); e o estábulo de mármore para o seu cavalo favorito, Incitatus, que o imperador, numa notável demonstração de desprezo pelas instituições, formalmente ameaçou nomear Cônsul do Império.

Paralelos históricos entre a antiguidade e a atualidade não constituem leis imutáveis ou análises preditivas, mas é curioso notar as semelhanças entre os governos de Calígula e de Donald Trump. Egresso do show bussines, Trump governa pelas redes sociais, em um constante espetáculos voltado às massas, emulando o modelo de dominação baseado na distração pública, adotado por Calígula. Trump dispensa tratamento desrespeitoso aos seus desafetos, mesmo correligionários que ousam desafiá-lo, e aos seus aliados, como a Europa.

Como Calígula, Trump demonstra “húbris”, um conceito da Grécia Antiga que se refere ao orgulho excessivo, à arrogância extrema e presunção. Na mitologia grega, a húbris era o ato de um mortal desafiar os deuses ou tentar se igualar a eles. Traços de tal característica se manifestam na ação mal planejada contra o Irã, mas também na campanha de rebatismo de prédios, monumentos e instituições públicas norte-americanas com a marca "Trump", como o tradicional John F. Kennedy Center for the Performing Arts, rebatizado The Donald J. Trump and John F. Kennedy Memorial Center; o Donald J. Trump Institute of Peace e a conversão do Aeroporto Internacional de Palm Beach em President Donald J. Trump International Airport.

Trump aplica a sua marca em documentos soberanos como passaportes federais, passes de parques nacionais e portais de assistência farmacêutica (TrumpRx), subvertendo o princípio republicano da impessoalidade. Assim como o tirano romano, o presidente norte-americano preenche posições críticas do aparato de defesa e inteligência com sicofantas sem a devida qualificação para os cargos, que são preenchidos, acima de tudo, sob o critério de lealdade ao líder, e não à lei, em um processo evidente de degradação administrativa.

Todavia, as semelhanças entre o líder norte-americano e o imperador da antiguidade não estabelece um determinismo histórico linear ou uma identidade estrutural entre a Roma do século I e Washington do século XXI. O paralelo aqui traçado é estritamente heurístico, fenomenológico e tipológico: não se evoca Calígula para prever o destino dos EUA, mas para ilustrar uma patologia política — a substituição da lealdade institucional à lei pelo culto à personalidade do líder — presente de forma inédita nos EUA, na atualidade.

Tal abordagem difere fundamentalmente de um outro paralelo entre a Antiguidade e a atualidade, muito citado durante a recente visita do Donald Trump à China, aquela da evocação de Tucídides, na formulação do conceito da “Armadilha de Tucídides” pelo cientista político Graham Allison, para sustentar a teoria determinista de alta probabilidade de guerra decorrente da competição sino-americana, afirmando que a guerra é um cenário provável quando uma potência emergente desafia a potência dominante.

A teoria política de Graham Allison está no âmago da narrativa geopolítica de Washington, sob a Administração Trump, mas tal orientação estratégica, que desenha cenários militares obcecados por um choque frontal que mimetizasse o clássico confronto terrestre e naval entre espartanos e atenienses, não encontra respaldo na estratégia de Pequim, muito mais baseada nas clássicas estratagemas orientais de Sun Tzu, general, estrategista e filósofo chinês que viveu por volta do século IV a.C., em que o foco é vencer sem lutar através da enganação, do cerco e do esgotamento moral do adversário.

O historiador Luca Iori, pesquisador da Universidade de Parma, Itália, levanta-se com vigor contra o que denomina "o demônio simplificador da analogia" e o "abuso da história" promovido pela ciência política moderna, condenando a teoria da "Armadilha de Tucídides", que, segundo o historiador, transformou-se em um instrumento de manipulação narrativa que hoje orienta, de forma perigosa, a política externa norte-americana.

Xi Jinping valeu-se da obsessão da Administração Trump pela teoria política da "Armadilha de Tucídides", para formular a ameaça de que a "gestão inadequada" da questão sobre Taiwan pode levar a um cenário de extremo perigo. O objetivo estratégico de Xi Jinping não é propriamente alertar sobre um conflito iminente, mas sim deflagrar uma calculada guerra psicológica de longo prazo voltada a desgastar a estabilidade emocional e a confiança interna de Taiwan, pois a maior vulnerabilidade de Taipé não reside em um déficit de armamentos, mas sim na percepção do caráter puramente transacional de Donald Trump, que, fratura o consenso doméstico na ilha, abrindo espaço para que forças políticas locais favoráveis à submissão a Pequim capitalizem a desilusão com o Ocidente.

Contudo, conforme demonstra o rigor historiográfico e filológico de Iori, o termo "armadilha" sequer existe no texto clássico da História da Guerra do Peloponeso, escrito no século V a.C. por Tucídides. A transposição direta de um conflito entre cidades-estados gregas para a geopolítica contemporânea, ignorando a alteridade entre a Antiguidade e o nosso tempo, cria distorções, pois, diferente daquela vivida na antiga Roma, a realidade atual é moldada por armas nucleares, interdependência econômica complexa e avanço tecnológico.

Também o eminente historiador e classicista norte-americano, Donald Kagan (1932–2021), amplamente reconhecido como um dos maiores especialistas mundiais em Grécia Antiga, repudiou, em sua obra monumental de quatro volumes sobre a Guerra do Peloponeso, a visão de que a guerra entre Atenas e Esparta seria estruturalmente inevitável. Para Kagan, o conflito foi impulsionado por decisões políticas, orgulho e falhas de liderança, e não apenas pelo temor cego diante de uma potência em ascensão. Ele argumentou que a ideia de uma fatalidade histórica — cerne da expressão “Armadilha de Tucídides”, cunhado anos mais tarde pelo cientista político Graham Allison — subestima a complexidade do tema e a responsabilidade humana nas Relações Internacionais. A tragédia do cálculo ocidental repousa na assunção incorreta de que a liderança do Partido Comunista Chinês pode ser contida por mecanismos tradicionais de pressão econômica ou intimidação militar.

Conforme revelado pelo analista Alain Frachon, do jornal francês Le Monde, a verdadeira obsessão intelectual que governa as ações internas de Pequim não se encontra na Grécia Antiga de Tucídides, mas sim na França do século XIX. A elite política chinesa estuda obsessivamente a obra de Alexis de Tocqueville, particularmente O Antigo Regime e a Revolução. A tese fundamental de Tocqueville de que o momento mais perigoso para um regime autoritário é justamente quando ele começa a se reformar e a ceder às pressões populares serve de bússola para a governança de Xi Jinping. O controle social implacável, a rigidez do sistema político chinês e a imposição sufocante de conformidade não são frutos de uma paranoia irracional, mas sim de uma escolha calculada para evitar reformas graduais que poderiam desencadear um colapso sistêmico semelhante ao sofrido por Mikhail Gorbachev na União Soviética.

Fontes: Além das citações já constantes do texto, tem-se por fontes:

 Livros: > TORIGIAN, Joseph. The Party's Interests Come First. Stanford University Press. (Biografia de referência sobre o núcleo de poder chinês).

 Artigos/Ensaios: > FRACHON, Alain. "O paradoxo de Pequim e a bússola de Tocqueville". Le Monde, edição de maio de 2026.

 Palestras e Debates Acadêmicos: > IORI, Luca. "O Abuso da História e o Demônio da Analogia". Apresentação no Festival di Limes, Università di Parma.