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Livius Barreto

por Livius Barreto

A SOBERANIA DO CANADÁ

A Soberania do Canadá em Jogo: Do Século XVIII à atualidade

20/09/2026 às 14h03

Tradicionalmente ancorado numa relação de profunda interdependência comercial e numa aliança de segurança aparentemente inquebrantável com Washington, o Canadá passou a ser alvo de hostilidade por parte dos EUA. A Segunda Administração Trump impõe uma guerra tarifária ao vizinho, faz ameaças explícitas de anexação territorial e demonstra desdém pelas alianças multilaterais integradas, simultaneamente, pelo Canadá e pelos EUA, como a OTAN, a Five Eyes e a NORAD (Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte), impondo uma reavaliação das diretrizes de segurança nacional em Ottawa.

A doutrina externa atual de Washington baseia-se em uma mentalidade estritamente transacional e numa nostalgia deliberada pela política externa e económica do século XIX. Na perspectiva transacional da administração norte-americana, os aliados tradicionais são considerados parasitas económicos (“free-riders”), que exploram a generosidade dos Estados Unidos. No domínio da segurança e defesa, a administração norte-americana insistiu, durante anos, que o Canadá era negligente nas suas obrigações no seio da OTAN. Historicamente, o país gastava entre 1% e 1,5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em defesa, muito aquém da meta de 2% estipulada pela aliança em 2014 e do compromisso de alocar 20% do orçamento de defesa na compra de equipamentos. Embora o Canadá tenha finalmente atingido essa meta em 2025, o maior nível de investimento em defesa em relação ao tamanho da economia desde o fim da Guerra Fria, a caracterização do país pela Administração Trump como um fardo financeiro, um vizinho incómodo que se beneficia do guarda-chuva nuclear e convencional americano sem pagar a sua devida quota, já se havia consolidado e persiste independentemente do novo patamar de gastos alcançado pelo Canadá.

Na retórica da Administração Trump, a incorporação do Canadá como o “51.º Estado” é apresentada como a única solução racional para as fricções comerciais e tarifárias. Washington ofereceu proteção gratuita do Canadá pelo “Golden Dome”, o ambicioso sistema de defesa continental antimísseis norte-americano, se o Canadá abdicasse da sua soberania e se tornasse um Estado. Por outro lado, ameaçou cobrar a quantia exorbitante de 61 bilhões de dólares pela proteção, caso o país desejasse manter a sua independência.

O dilema de partilhar o continente com uma superpotência hegemónica e frequentemente imprevisível está, no entanto, profundamente enraizado na psique diplomática canadense. A dinâmica de rejeição do expansionismo norte-americano pelo Canadá não é inédita, encontrando eco em eventos históricos registrados desde o nascimento da república dos Estados Unidos.

O ponto de partida para a divisão continental entre EUA e Canadá foi o Ato de Quebeque (1774), aprovado pelo Parlamento Britânico. A lei garantiu aos colonos franco-canadenses a preservação do seu sistema de direito civil e o livre exercício da fé católica. Os revolucionários americanos interpretaram-na como um ato de tirania e uma ameaça papista às liberdades protestantes e democráticas. Já as elites e os cidadãos canadenses viam nela um pilar de tolerância religiosa e de proteção da sua cultura frente ao expansionismo norte-americano.

Convencidos de que os canadenses ansiavam pela rebelião, o Congresso Continental lançou uma invasão armada, liderada pelos generais Richard Montgomery e Benedict Arnold. Embora tenham conseguido capturar brevemente Montreal, o Exército Continental sofreu uma derrota desastrosa ao tentar tomar a cidade de Quebeque em 31/12/1775. Em 1776, uma missão diplomática liderada por Benjamin Franklin representou mais uma tentativa de cooptar o Canadá. A população canadense, profundamente católica, agrária e conservadora, rejeitou a retórica revolucionária americana, considerando-a arrogante, imbuída de protestantismo e perigosa para a diversidade cultural que o domínio britânico lhe havia garantido. Apesar das rejeições militares e diplomáticas, a elite fundadora americana manteve uma crença inabalável no seu direito de expandir a república para o Norte, consagrando no “Artigo XI” da sua primeira constituição, de 1777 (os Artigos da Confederação), um convite aberto, automático e incondicional para o Canadá aderir e ser anexado aos Estados Unidos a qualquer momento. O Canadá ignorou perpetuamente esta oferta, cimentando o seu próprio destino longe do modelo de assimilação de Washington.

A cosmovisão ancorada nos paradigmas do século XIX voltou a orientar a política externa norte-americana à aplicação de altas tarifas protecionistas, para blindar a indústria nacional, e à incessante expansão territorial. Esta postura era apoiada na ideologia do Destino Manifesto, a crença histórica de que os Estados Unidos estão predestinados pela Providência Divina a expandir o seu território, os seus valores republicanos e o seu modelo económico por todo o continente norte-americano. Foi esta ideologia que serviu de base para a conquista do Oeste e para as diversas tentativas de absorção territorial do Canadá. Aliás, foi o receio de que o exército vitorioso da União invadisse o território ao Norte dos EUA, no final da Guerra Civil Americana, que impulsionou as colónias da América do Norte Britânica a unirem-se, levando à criação da Confederação do Canadá, em 1867, como uma forma de defesa contra o expansionismo dos EUA.

No século XX, o cerco económico evidenciou novas vulnerabilidades. Em 1971, o mundo assistiu ao “Choque Nixon”, quando a administração americana suspendeu unilateralmente a convertibilidade do dólar em ouro, ditando o fim do sistema de Bretton Woods, e impôs uma sobretaxa surpresa de 10% sobre todas as importações estrangeiras. As súplicas do governo de Pierre Elliott Trudeau para obter uma isenção foram desprezadas, expondo toda a vulnerabilidade do país devido à dependência do comércio com os EUA. Como resposta direta, em 1972, o então Ministro dos Negócios Estrangeiros, Mitchell Sharp, publicou um influente documento político intitulado “Canada-U.S. Relations: Options for the Future”. Sharp analisou o dilema continental e postulou que o Canadá tinha apenas três caminhos viáveis: a) manter o status quo de subordinação gradual aos EUA; b) avançar deliberadamente para uma integração económica, política e cultural formal com os Estados Unidos, o que implicaria em aceitar a assimilação; ou c) adotar uma “Terceira Opção”, que consistia numa política concertada para reduzir a vulnerabilidade do Canadá através da diversificação agressiva do comércio e do fortalecimento de parcerias com outras nações e blocos regionais, nomeadamente a Europa e o Japão, criando assim contrapesos estratégicos.

Embora o governo de Trudeau tenha tentado implementar a Terceira Opção, inclusive assinando um acordo estrutural com a Comunidade Económica Europeia (CEE) em 1976, os resultados práticos foram anémicos. A ausência à época de um mercado único europeu verdadeiramente integrado e a inegável atração do mercado americano, dada a proximidade geográfica, fizeram com que a dependência comercial continuasse a aumentar. Este ciclo culminou no final da década de 1980 com a assinatura do Acordo de Livre Comércio entre o Canadá e os EUA sob o governo de Brian Mulroney, o que representou o triunfo fático da “segunda opção” e o sepultamento temporário da visão de Sharp.

Agora, meio século depois do Choque Nixon, a Terceira Opção ressurge como imperativo existencial da soberania canadense. As perturbações causadas pelo neoisolacionismo da Segunda Administração Trump demonstraram inequivocamente que a arquitetura económica do Canadá, em que a esmagadora maioria das exportações se destina ao mercado norte-americano, constitui um risco inaceitável à segurança nacional. A atual estratégia delineada pelo primeiro-ministro Mark Carney deve ser interpretada justamente como a reedição desta doutrina da “Terceira Opção”.

Concretamente, essa reedição materializou-se numa aproximação estratégica do governo canadense à União Europeia (UE), movimento ancorado no imperativo de soberania e nas escolhas identitárias do seu povo. Essa aproximação foi acolhida pela proposta lançada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em setembro de 2026, de tornar o Canadá o primeiro “membro associado” do bloco europeu, uma formulação jurídica e política ainda por definir, já que essa categoria não existe nos tratados da UE e exigiria a ratificação pelos Estados-membros, mas que já sinaliza a intenção de garantir a autonomia estratégica do país através de uma integração supranacional. As esferas de cooperação delineadas abrangem não apenas o comércio de bens, mas também a inteligência artificial, a exploração de minerais críticos, a segurança energética e, de forma mais premente, a integração nas cadeias de abastecimento do complexo militar-industrial europeu.

A liderança de Mark Carney compreendeu que o Canadá não pode substituir a geografia, nem suplantar inteiramente as vastas cadeias de abastecimento integradas da indústria de automóveis ou energética norte-americana. No entanto, a formulação moderna da Terceira Opção está focada em reduzir o risco associado à submissão a um único parceiro imprevisível. O objetivo é forjar um grau de autonomia através da criação de âncoras supranacionais em mercados que partilhem dos mesmos valores democráticos, compromisso com o multilateralismo e respeito pelo Estado de Direito. É neste preciso enquadramento geoestratégico que a União Europeia transcende o papel de mero parceiro comercial para se tornar no derradeiro baluarte da independência canadense no século XXI. Ao abraçar a Europa, o Canadá não apenas assegura o seu futuro económico, mas reafirma a sua determinação secular de proteger a sua soberania face ao expansionismo do vizinho do sul.

Referências bibliográficas:

Documentos Históricos e Governamentais

·           Congresso Continental dos Estados Unidos. Articles of Confederation and Perpetual Union (Artigo XI). Aprovado em 1777, ratificado em 1781.

·           Parlamento Britânico. The Quebec Act (Ato de Quebeque). Londres, 1774.

·           SHARP, Mitchell. Canada-U.S. Relations: Options for the Future. Department of External Affairs, Governo do Canadá. Ottawa, 1972. (Documento fundacional da doutrina da "Terceira Opção").

História e Ciência Política

·           FREEMAN, Joanne. The American Revolution. Curso em vídeo (Open Yale Courses / Universidade de Yale). Disponível em formato digital. (Análise sobre a eclosão da revolução, as missões continentais e a identidade americana).

·           LIPSET, Seymour Martin. Continental Divide: The Values and Institutions of the United States and Canada. Routledge, 1990. (Leitura clássica sugerida para a compreensão das diferenças institucionais e identitárias entre os dois países após a Revolução Americana).

·           SMITH, Allan. Canada: An American Nation? Essays on Continentalism, Identity, and the Canadian Frame of Mind. McGill-Queen's University Press, 1994.

Geopolítica Contemporânea

·           C DANS l'air. Repprochement EU/Canada: La colère de Trump: France Télévisions, 2026. 1 vídeo (65 minutos). Publicado pelo canal C dans l'air no YouTube. Disponível em: [https://www.youtube.com/watch?v=-PoJEh69qPM&list=WL&index=6]. Acesso em: 20 set. 2026.