A história geopolítica do Oriente Médio é pródiga em demonstrar que operações militares desenhadas para impor soluções definitivas costumam produzir exatamente o oposto de seus objetivos declarados. A recente e mal-sucedida intervenção militar conjunta executada por Israel e pelos Estados Unidos contra o Irã faz parte dessa categoria. Concebida sob a promessa de derrubar o regime de Teerã e erradicar a ameaça assimétrica na região, o fracasso da campanha expôs os limites do poder aéreo ocidental e acelerou a transição para um novo equilíbrio de poder policêntrico, rompendo os arranjos de segurança vigentes em benefício de atores regionais.
Para conter as ameaças regionais sem depender exclusivamente do engajamento direto de infantaria, a diplomacia israelense havia articulado a chamada "Arquitetura do Eságono". Tratava-se de um conceito geoestratégico voltado a cercar o Oriente Médio por meio de um perímetro de forças não árabes ou de Estados muçulmanos pragmáticos e ocidentalizados. O modelo interligava seis vértices fundamentais: Israel, como centro tecnológico e militar; Grécia e Chipre, para contenção da expansão marítima e controle do gás no Mediterrâneo Oriental; Índia, como parceiro comercial e contraponto no Oceano Índico; Emirados Árabes Unidos (EAU), como esteio financeiro e base avançada no Golfo; e Somalilândia, enclave estratégico no Chifre da África apto a garantir apoio logístico frente ao Mar Vermelho e contra os Houthis no Iêmen.
A premissa do Eságono era a de que a superioridade em inteligência, cobertura aérea e tecnologia de interceptação balística sufocaria os adversários regionais. Contudo, a prova de fogo contra o Irã demonstrou a fragilidade do modelo: quando submetida a uma guerra de saturação por mísseis balísticos e drones de baixo custo, a arquitetura provou-se incapaz de oferecer uma blindagem real, revelando-se vulnerável ao atrito assimétrico das forças locais.
Dentro dessa engrenagem, os Emirados Árabes Unidos haviam assumido uma aposta audaciosa. Sob a liderança do presidente Mohamed bin Zayed, Abu Dhabi aproximou-se defensivamente de Israel — culminando na discussão de um fundo de defesa militar conjunto — sob a crença de que o escudo tecnológico de Tel Aviv e a presença de bases americanas garantiriam uma "imunidade estratégica" contra a agressividade iraniana.
O conflito destruiu essa premissa. Ao sofrerem o impacto de mais de 2.000 drones e 500 mísseis balísticos disparados a partir de Teerã, os Emirados perceberam que o alinhamento ostensivo não atuou como dissuasão, mas como atrativo para ataques que converteram sua infraestrutura comercial e financeira em alvo prioritário de retaliação. A consequência direta foi o rápido reposicionamento estratégico de Abu Dhabi, que buscou refúgio na neutralidade pragmática, reatou canais com o Irã e arrefeceu a cooperação militar com Tel Aviv. Ademais, a saída histórica dos EAU da OPEP reflete a necessidade urgente de maximizar a extração e venda de petróleo para financiar sua própria defesa de modo autônomo.
A condução da política externa de Israel sob o governo de Binyamin Netanyahu baseou-se na doutrina do confronto maximalista: a busca por uma "vitória total" e a aniquilação do "Eixo do Mal". No entanto, ao abrir frentes simultâneas em Gaza, Líbano, Síria e no próprio Irã, Tel Aviv violou o postulado basilar de monarquias como a Arábia Saudita, que condicionam seu futuro à estabilidade regional e à atração de capital. A beligerância contínua implode o ambiente de negócios, ameaça rotas marítimas e atua como catalisador de radicalização política interna nos países vizinhos, colocando em risco a própria estabilidade de regimes moderados como os do Egito e da Jordânia.
Se o fracasso militar expôs as vulnerabilidades de Israel, o custo operacional imposto aos Estados Unidos derrubou o mito da invulnerabilidade de suas forças armadas. Investigação da CNN revelou que os ataques de saturação iranianos atingiram e danificaram ao menos 16 instalações militares norte-americanas em oito países, tornando algumas bases temporariamente inoperantes. Auxiliado por imagens de alta resolução do satélite chinês TE-01B, Teerã realizou ataques cirúrgicos contra alvos caros e de difícil reposição: destruiu aeronaves de vigilância Boeing E-3 Sentry (avaliadas em meio bilhão de dólares), cúpulas de comunicação satelital (radomes) e complexos de radares de defesa aérea — o recurso mais escasso e oneroso do Pentágono na região.
O conflito expôs uma assimetria letal: mesmo com uma taxa de interceptação de 95%, os 5% restantes — compostos essencialmente por drones Shahed — bastaram para infligir danos estruturais devastadores às instalações dos EUA. Essa dinâmica resultou na perigosa exaustão dos estoques norte-americanos de interceptadores defensivos e mísseis de precisão de longo alcance (Tomahawks, JASSMs e LRASMs), acendendo um alerta crítico sobre a capacidade de dissuasão de Washington no teatro do Indo-Pacífico frente à Força de Foguetes da China. Enquanto o Pentágono evacuava tropas de bases transformadas em alvos vulneráveis, o Irã preservou cerca de 40% de sua frota de drones e 60% de seus lançadores em abrigos subterrâneos, mantendo apoio tecnológico sino-russo e demonstrando que a aliança com os EUA já não é garantia suficiente de proteção para potências como a Arábia Saudita.
Essa quebra na dissuasão ocidental acelerou a ascensão do 'Diamante Sunita' — bloco formado por Arábia Saudita, Turquia, Egito e Paquistão. Longe de constituir uma aliança monolítica ou isenta de atritos históricos e disputas pela liderança do mundo islâmico, a coalizão opera como um arranjo eminentemente pragmático e defensivo contra o vácuo de segurança deixado pelas potências ocidentais. Nesse novo arranjo, a Turquia de Recep Tayyip Erdogan consolida-se como a principal vencedora geopolítica. Ao apadrinhar o novo governo sírio de Ahmed al-Sharaa, Ancara estabeleceu uma zona de influência direta no flanco norte de Israel, neutralizando pretensões de autonomia curda — encaradas como ameaça existencial à integridade territorial turca — e preservando a unidade síria contra a preferência israelense por um vizinho fraco e fragmentado.
Simultaneamente, a habilidade diplomática turca em mediar negociações entre Washington e Teerã obrigou os EUA a concessões pragmáticas, como a reavaliação do fornecimento dos caças stealth F-35 a Ancara. Esse movimento consagrou a Turquia como a principal rival estratégica de Israel, a ponto de a inteligência israelense enquadrar figuras como o chanceler Hakan Fidan como vetores de risco superiores aos antigos generais iranianos. Em paralelo, China e Rússia colheram dividendos expressivos como parceiras comerciais neutras e confiáveis para o bloco sunita, sem despender recursos militares diretos.
O fracasso da intervenção conjunta encerrou a ilusão de que o mapa regional pode ser redesenhado a partir de Washington ou Tel Aviv. A campanha desarticulou o Eságono, abalou os pilares do Petrodólar — a troca histórica de proteção militar dos EUA pela prevalência do dólar nas transações comerciais e energéticas do Golfo — e empurrou o Irã para uma postura resiliente de atrito assimétrico. O Oriente Médio que emerge desse processo é policêntrico e desprovido de hegemonias absolutas. O centro de gravidade da estabilidade regional deslocou-se do eixo hegemônico Washington–Tel Aviv para o eixo Riad-Ancara, cabendo a essa ordem sunita administrar a perigosa rivalidade entre uma Turquia em expansão e um Israel isolado e em estado de sobre-extensão estratégica — enredado em compromissos bélicos e territoriais que excedem sua capacidade demográfica, econômica e logística de sustentação no longo prazo.
Fontes e Leituras Complementares
1. The Economist. The next great Middle East rivalry: Turkey and Israel are natural allies and yet they are increasingly at odds. Istambul e Jerusalém, julho de 2026.
2. The Economist (The World Ahead). A new balance of power will emerge in the Middle East: America will still be an important part of it. Por Gregg Carlstrom, novembro de 2023.
3. CNN International. How is a depleted Iran damaging so many US bases? A CNN investigation. Reportagem investigativa por Tom Kablawi e análise de Seth Jones (CSIS), maio de 2026.
4. Nova Lectio. La mappa del “Nuovo Medio Oriente” dopo la guerra in Iran. Análise geopolítica documental, 2026.