Assim como na mitologia grega, em que Midas, rei de Frígia, famoso por sua ganância, recebeu do Deus Dionísio o dom de transformar tudo o que tocasse em ouro, o setor tecnológico viveu um período em que a simples menção ao termo "IA" era garantia de riqueza futura, fazendo o preço das ações de empresas dispararem. O Rei Midas percebeu o erro quando tentou comer e viu sua refeição se transformar em metal duro e indigesto. Empresas que tocaram a IA ganharam valor nominal, mas podem morrer à mingua por falta de fluxo de caixa. Aquelas que investiram bilhões em Capex (infraestrutura), sem demonstrar um aumento correspondente no fluxo de caixa, perdem valor de mercado, como a Microsoft e a Oracle.
O mercado parou de investir mirando no potencial da tecnologia e passou a exigir resultados. No ano passado, as ações de IA se valorizaram indistintamente, a correlação entre ações de IA era de 80%, todas subiam juntas. Hoje, tal correlação caiu para 20%, o que indica que o mercado está separando quem realmente lucra, como a Meta (Facebook/Instagram) e Amazon AWS (plataforma de nuvem), de quem apenas gasta, como Microsoft, com seus investimentos na OpenAI, e a Oracle.
De fato, a Meta conseguiu transformar a IA em lucro líquido imediato, sem depender da venda de um "novo produto". A IA da Meta é usada internamente para otimizar o target (direcionamento) de anúncios, o que resultou em um aumento de 18% nas impressões e 6% no preço médio dos anúncios. A AWS, por seu turno, fornece a infraestrutura (capacidade de nuvem) para que outras empresas desenvolvam suas IAs, convertendo o Capex imediatamente em receita de hospedagem e processamento de dados (serviço de nuvem) para terceiros, confirmando a máxima de que, durante a corrida do ouro, quem mais lucra é quem vende pás e picaretas.
Resta, no entanto, o temor de que o estouro da bolha cause um pânico que derrube indistintamente as ações de todas as empresas do setor. Mesmo assim, é certo que a tecnologia da IA veio para ficar e muitas empresas sobreviverão, como ocorreu com a Amazon na bolha das dotcom (pontocom), mas outras ficarão pelo caminho. O perigo não é que a IA falhe, mas que o custo de tentar vencer a corrida quebre o caixa da empresa antes da linha de chegada. Em artigo de 08/02/2026, intitulado "How to hedge a bubble, AI edition" (como proteger uma bolha, edição IA), a revista The Economist traça um paralelo entre o anúncio do chatbot Claude, no Super Bowl de 2026, e a saturação de anúncios de empresas dotcom no Super Bowl de 2000, evento que antecedeu o estouro da bolha da Internet. Chatbots são software baseados em Inteligência Artificial projetados para simular conversas humanas, via texto ou voz.
O artigo da prestigiada revista inglesa analisa as dificuldades de proteger investimentos diante de uma bolha no setor de inteligência artificial. Muitos fundos de investimento são obrigados por contrato a manter o capital em ações, não podendo simplesmente migrar para cash (dinheiro vivo) ou para outros ativos, mesmo quando os preços das ações parecem irracionais. Ademais, ativos com o ouro tem apresentado volatilidade e o entusiasmo pelo bitcoin está diminuindo, dificultando a busca por alternativas. Os título do Tesouro dos EUA costumavam representar refúgio seguro contra quedas acionárias, como se deu na bolha dotcom, mas, no atual cenário de inflação persistente e incerteza fiscal nos EUA, ações e títulos podem cair simultaneamente, como ocorreu em 2022, o que pode tornar a bolha da IA ainda mais destrutiva do que a dotcom, de 2000.
Mencionado artigo conclui que, dada a falta de alternativas seguras, a melhor forma de se proteger contra o risco das ações de tecnologia pode ser investir em ações de baixa volatilidade, de setores que não dependem do ciclo de inovação tecnológica atual, como empresas que fornecem produtos alimentícios, de higiene, saúde e utilidade pública (energia e saneamento, por exemplo), que possuem receitas previsíveis ou reguladas. O contraponto à sugestão da The Economist reside no custo de oportunidade, o risco de sair cedo demais de uma tendência secular. O dilema é que, ao buscar proteção em setores defensivos, de baixa volatilidade, o investidor renuncia aos ganhos exponenciais que a IA ainda pode oferecer antes de um colapso definitivo.
Nos cinco anos que antecederam o estouro da bolha dotcom, em março de 2000, o índice NASDAQ sofreu pelo menos 12 grandes desvalorizações, de 10% ou mais. Um investidor que, em 1996, tivesse seguido a lógica de proteção, ao notar que as ações estavam caras, teria perdido a maior parte da valorização. Apesar das doze quedas assustadoras, o índice subiu quase 1.200% em todo o período. As Bolhas costumam ter sua fase mais lucrativa justamente no final (o "blow-off top") e os gestores de fundos não podem simplesmente trocar a chance de um ganho de 500% pela segurança de um ganho de 5%, sob pena de perderem clientes por subperformance, enquanto a IA continua subindo. Todavia, considerando que Michael Burry e Warren Buffett já escolheram a prudência, é provável que o mercado não contenha a ansiedade gerada por várias correções em torno de 10% antes do fim, o que pode causar o pânico que precipite o estouro da bolha.
Por enquanto, as falhas na bolha se mostram em forma de reprecificação de ativos, como é o caso das empresas de SaaS (Softwares as a Service), que prestam serviço através de aplicativos disponibilizados nas nuvens, acessíveis pela Internet, dispensando a instalação no computador do usuário. Muitas empresas de SaaS cobram por usuário ou "assento". Se a IA aumenta a produtividade de um funcionário a ponto de ele realizar o trabalho de três, por exemplo, o cliente reduz o número de usuários, diminuindo a receita da SaaS. O investidor percebeu que, neste modelo, quanto melhor a IA da empresa de software, menos ela tende a faturar no longo prazo, se mantiver a cobrança por assento. Por conseguinte, várias gigantes do setor sofreram retrações significativas no preço de suas ações, mesmo apresentando balanços saudáveis, como foram os casos da Salesforce (queda de 40%); da ServiceNow (50%); da Adobe (queda de 34%); e da Docsign, que apresenta dificuldades claras, com seus clientes gastando cada vez menos com a plataforma.
SaaS do setor de Dados e Análise como Serviço (DaaS e AaaS), como as London Stock Exchange Group (LSEG), S&P Global, MSCI e FactSet, também sofreram um impacto acentuado com a disrupção dos seus modelos de negócio, devido ao lançamento da Cowork pela Anthropic (criadora do Claude). Tais SaaS, que vendem dados financeiros por dezenas de milhares de dólares por ano, agora enfrentam chatbots que, por US$ 30 a US$ 90 mensais, realizam 80% do mesmo trabalho. O mercado percebeu que o valor cobrado pelos serviços tradicionais ofertados pelo setor se tornou insustentável diante da eficiência da IA, o que derrubou o valor das ações de tais empresas.
Expostas à IA, as SaaS só terão resiliência o seu software não se limitar apenas a processar informações disponíveis ao público, pois um chatbot pode fazer isso por menor custo. Se, de outra forma, a SaaS for proprietária dos dados, o chatbot não terá acesso aos mesmos para processá-los e a IA, nestes casos, se converte apenas em uma ferramenta dentro da SaaS, como se dá, por exemplo, com uma SaaS de gestão hospitalar, que possui o histórico clínico detalhado de 10 anos de dado paciente. O ChatGPT pode informar como tratar uma doença, mas ele não sabe qual o medicamento que foi administrado ao paciente específico em determinado período, não sendo apto, portanto, a substituir aquela SaaS. Outro modelo de resiliência é o de SaaS que prestam serviços complexos como é o caso daqueles que gerenciam impostos, folha de pagamento ou conformidade ambiental, por exemplo, os quais são difíceis de substituir porque o custo jurídico e financeiro do erro é muito alto.
O seguimento da IA iniciou o seu processo de seleção natural. O investidor deverá estar atento à análise de múltiplos, uma ferramenta de avaliação (valuation) que permite comparar o valor de mercado de uma empresa com os seus indicadores financeiros fundamentais (lucro, receita, valor patrimonial), para identificar se a desvalorização no preço das ações se dá por pânico – o que abre oportunidades – ou por obsolescência do modelo de negócio - o que representa uma armadilha.