Enquanto o Irã prova sua capacidade de interromper o fluxo vital de parte expressiva do comércio global, através do fechamento do Estreito de Ormuz, o mundo observa um contraste gritante na postura das duas maiores potências do planeta. De um lado, os Estados Unidos, presos na armadilha da intervenção militar que eles mesmos criaram, oscilam entre ameaças existenciais contra o Irã e a consideração de termos de um acordo que representam verdadeira capitulação. Do outro lado, a China, que adota um silêncio estratégico quase absoluto. Para os observadores apressados, o silêncio de Pequim parece omissão; para os mais cautos é o exercício de A Arte da Guerra, que ensina como vencer sem precisar lutar.
A Arte da Guerra é uma das obras mais influentes da história sobre estratégia, tática e liderança, escrita pelo lendário general, estrategista militar e filósofo chinês Sun Tzu, do século VI a.C.. Seus ensinamentos transcendem o campo de batalha, sendo aplicados hoje em áreas como negócios, diplomacia e política internacional.
A China, embora seja a maior interessada na estabilidade do fluxo de petróleo através de Ormuz, passagem da qual dependem cerca de 50% das importações chinesas, é também a nação que melhor se preparou para o caos provocado pelo conflito. O paradoxo é fascinante: o país mais vulnerável aos efeitos do conflito, em teoria, tornou-se o mais resiliente, na prática.
A resiliência chinesa se baseia, primeiramente, na preparação prévia para o conflito. Desde 2012, a China vem acumulando reservas estratégicas de petróleo com uma disciplina espartana, estocando até um milhão de barris excedentes por dia. Em 2026, enquanto as Reservas Estratégicas de Petróleo (Strategic Petroleum Reserve) dos EUA minguaram com o seu emprego na tentativas de conter a inflação interna, acelerada pela crise do Golfo, Pequim ostenta estoques que garantem a operação total do país por pelo menos 120 dias, ainda que nem mesmo uma única gota adicional de petróleo seja importada pelo país. E note-se que os navios chineses estão entre os poucos que passam pelo Estreito durante a crise. Além do que, mesmo durante o conflito, Pequim mantem a importação de 90% do petróleo produzido no Irã, o que representa 15% das importações normais da China, operações estas inteiramente liquidadas em Yuan.
Some-se à meticulosa preparação estratégica chinesa para o enfrentamento da crise o modelo de economia controlada pelo Estado, adotado na China, que possibilita ao governo determinar que as refinarias estatais absorvam as variações do preço internacional da commodity, impedindo que a crise energética externa se traduza em instabilidade interna.
Outro ponto crucial que separa a China do Ocidente é a natureza de sua matriz energética. Ao contrário da Europa e dos EUA, que migraram quase totalmente do carvão mineral, a mais poluente das fontes fósseis, para o petróleo e o gás, no século XX, Pequim manteve o carvão mineral na sua matriz energética, o qual representa 60% da geração elétrica na China, atualmente, ao tempo em que acelerou freneticamente a produção de energias renováveis, que chegam a representar 25% da matriz energética do país em 2026, saltando a fase da adoção do petróleo e gás, observada no Ocidente. O uso do carvão mineral é para a China um mal necessário enquanto o país avança na transição total para a energia verde.
A escolha estratégica chinesa de manter o carvão mineral em sua matriz energética, apesar do mesmo liberar muito mais CO2 na atmosfera, contribuindo acentuadamente para o aquecimento global, e de liberar fuligem e cinzas responsáveis por doenças respiratórias e cardiovasculares graves na sua população e pela contaminação do solo e dos lençóis freáticos, se deve ao propósito de reduzir a sua dependência de rotas comerciais instáveis, como o Estreito de Ormuz. Pequim aceita o custo ambiental e à saúde de sua população para garantir que sua indústria não apague sobre pressão estrangeira.
Isso significa que, embora o petróleo seja vital para seu transporte e petroquímica, a infraestrutura básica da China não é comprometida pelo fechamento temporário de Ormuz. Pelo contrário: a crise do petróleo acelera a transição global para veículos elétricos e tecnologias verdes, áreas onde a China é preponderante. Cada dólar de alta no preço do barril é, na verdade, um subsídio indireto para a indústria automobilística, de baterias, de turbinas eólicas e de painéis solares chinesa.
Todavia, embora a China tenha se preparado para o fechamento temporário do Estreito de Ormuz, a mesma não é imune à dependência do petróleo do Golfo e do Irã, de forma que o sucesso da paciência estratégica da China depende da preservação da integridade física dos poços de petróleo iranianos e da reabertura em tempo razoável da rota marítima através do Estreito de Ormuz.
No tabuleiro geopolítico, Pequim observa os EUA gastarem recursos finitos em uma guerra regional equivocada, deixando de investir tais recursos onde realmente importa para a disputa de longo prazo com a China, enquanto esta investe seus recursos na ampliação de sua influência no Indo-Pacífico e em tecnologias estratégicas, em busca da conquista futura da hegemonia global. A posição da China é a de quem adota a estratégia de Napoleão Bonaparte, a qual recomenda não interromper o seu adversário enquanto ele está a cometer um erro, como sugere a capa da edição de 04 de abril da revista The Economist.
Para Pequim, cada trilhão de dólares que Washington gasta em um pantanoso conflito no Golfo Pérsico é um trilhão que não é investido em inteligência artificial, semicondutores ou na disputa de influência no Indo-Pacífico, mas não se deve subestimar a capacidade de regeneração dos EUA. Embora as suas Reservas Estratégicas estejam baixas, os EUA continuam sendo o maior produtor de petróleo e gás do mundo; e apesar de toda a falha de planejamento para o conflito, o poderio norte-americano ainda pode manter a sua relevância na região, evitando que a mesma seja dominada inteiramente pela China, o que selaria o fim do dólar muito antes do esperado. A intervenção americana pode forçar o retorno do Irã ao sistema do dólar, através do controle de pontos chave, como a Ilha de Kharg.
No entanto, é inegável que o conflito no Golfo compromete o sistema do Petrodólar, que se baseia na premissa de que os países do Golfo, produtores de energia, aceitam exclusivamente dólares em pagamento das suas commodities e reinvestem os excedentes das suas vendas ao exterior em títulos do Tesouro dos EUA, em troca de uma "garantia de segurança". O conflito atual rompe esse pacto devido à falha na garantia de segurança, dada a incapacidade demonstrada por Washington de neutralizar a ameaça iraniana contra as monarquias do Golfo, sinalizando ainda que a aliança com os EUA, em lugar de proteção, é agora um fator de risco, pois atrai os ataques iranianos para o território dos Estados do Golfo que abrigam as bases militares norte-americanas.
Assim como Petrodólar é um sistema baseado na moeda adotada para o comércio internacional de petróleo e gás, o dólar, o conceito de Eletro-Yuan surge da premissa de que o Yuan será a moeda que dominará o comércio internacional de tecnologias renováveis, painéis solares, turbinas eólicas e baterias de lítio, no século XXI, um seguimento em que a China domina entre 70% e 90% da cadeia de suprimentos. Cada vez que o petróleo sobe, devido à tensão no Golfo, a transição para veículos elétricos e energia solar e eólica torna-se economicamente mais urgente. Assim, o conflito empurra o mundo para os braços da China. O mundo está trocando a dependência do "petróleo do Golfo" pela dependência da "tecnologia chinesa". Nasce assim o "Eletro-Yuan": uma moeda lastreada não em força militar, mas no controle total da infraestrutura de eletrificação global.
A China está vencendo a disputa global com os EUA através da dominância tecnológica na área de energia, enquanto os EUA se desgastam militarmente. Pequim adota as lições do general Sun Tzu, que dizia: “aquele que é prudente e espera um inimigo que não o é, será vitorioso”.