Portal O Dia - Notícias do Piauí, Teresina, Brasil e mundo

WhatsApp Facebook x Telegram Messenger LinkedIn E-mail Gmail

Livius Barreto

por Livius Barreto

A DOUTRINA TRUMP

Publicado no Substack em abril de 2025, o artigo faz uma análise preditiva sobre as transformações em curso na geopolítica global, devido à profunda reorientação da política externa norte-americana imposta pela segunda Administração Trump.

01/06/2026 às 14h30

Bem observada, a completa reorientação da política externa norte-Americana permite vislumbrar o surgimento de uma nova doutrina, a qual se baseia em três pilares.

 O primeiro deles é o Realismo, implicando no abandono de princípios que orientavam a política externa Norte-Americana, como a defesa da Democracia e do Império da Lei (Rulle of Low), em favor da busca da satisfação do interesse nacional com o emprego do poder econômico e militar ou da ameaça de uso de tais recursos, para forçar uma solução transacional favorável aos EUA, como visto em relação ao Canal do Panamá, ao Canadá e à Groelândia.

Note-se a mudança de posição dos EUA em relação à guerra na Ucrânia. Enquanto a Administração Biden dizia que nenhuma nação poderia estar verdadeiramente segura no mundo se o ocidente não se mantivesse firme na defesa da liberdade e da integridade territorial da Ucrânia, face à brutalidade da agressão Russa; Trump ignora a violação da ordem internacional pela Rússia e busca a paz às custas dos interesses Ucranianos, para que os EUA possam se concentrar na questão em face da China, e busca ainda participar do botim de guerra, havendo para os EUA acesso privilegiado às reservas de Terra Raras da Ucrânia.

Enquanto a Administração Biden via os EUA como o líder de uma ordem internacional baseada no Estado de Direito, num quadro de luta entre democracias e autocracias; Trump acha que a ordem internacional existe em detrimento dos EUA, ameaçando abandonar os aliados à sua própria sorte, colocando a Europa diante do dilema entre tentar manter-se sob a proteção dos EUA, enquanto se rearma tão rapidamente quanto possível, ou promover o apaziguamento com a Rússia, apesar do risco de assim fomentar as ambições expansionistas de Putin.  

A colocação dos interesses norte-americanos em primeiro lugar é uma longa tradição da política externa dos EUA, não é uma novidade trazida pela MAGA (Make America Great Again), mas isto se dava de forma velada. Críticos do governo Biden diziam que os EUA prologaram deliberadamente a guerra da Ucrânia, com o objetivo de enfraquecer o inimigo Russos, em vez de promover um fim breve do conflito, com a vitória da Ucrânia, preservando a sua democracia e seu sistema de governo baseado no Estado de Direito, em face da Rússia autocrata. Já a nova administração, com o slogan America first, coloca o intento às claras, declarando que a Ucrânia deve pagar pelo apoio militar com a concessão da exploração de seus recursos naturais.

O segundo pilar da nova política externa dos EUA é percebido como uma variação da bem sucedida estratégia adotada pelo então Secretário de Estado Norte-Americano, Henry Kissinger, durante o governo Nixon, na década de 70 do século passado, quando os EUA buscaram se aproximar da China para subtraí-la da influência da União Soviética (URSS). Desta vez, a ideia é aproximar-se da Rússia, para afasta-la da influência chinesa, sendo esta mais uma razão para a mudança de lado dos EUA no conflito russo-ucraniano, em relação ao qual os EUA passaram a entoar a retórica russa.

O terceiro pilar se inspira na Doutrina Monroe, de 1823, também conhecida como “A América para os Americanos”, que vedava a influência europeia no continente americano, enquanto os EUA se furtavam de interferir nos assuntos ultramarinos, delimitando assim zonas de influência. A Doutrina Trump, por seu turno, defende o estabelecimento de esferas de influência para as três grandes potências: EUA, China e Rússia. Sob dita concepção os EUA podem reduzir sua resistência à tomada de Taiwan pela China continental, abandonar a Índia e outros países menores da porção austral da Ásia à influência chinesa; e permitir que a Rússia avance sobre a Ucrânia e provavelmente sobre os países bálticos: Estônia, Letônia e Lituânia, enquanto os EUA buscam se impor sobre o Panamá, o Canadá e a Groelândia.

A adoção da Doutrina Trump, com o consequente abandono de princípio tão caros aos aliados, a busca de vantagens econômicas a qualquer preço e a aproximação dos EUA com as autocracias incute nos seus aliados históricos uma grande desconfiança em relação ao país, ameaçando a rede global de alianças norte-americana, que representa uma enorme vantagem estratégica para os EUA.

A perda da confiança traz consequências militares e econômicas gravosas para os EUA, como a busca da independência da Europa em matéria de Defesa, visível no abandono do projeto do caça F-35 por vários países europeus e nas manifestações de desconforto com a circunstancia de que o emprego das armas adquiridas dos norte-americanos pelo Europeus depende do consentimento dos EUA, incômodo nunca antes mencionado.

Também a perda de interesse do mercado internacional nos títulos do Tesouro norte-americano é um reflexo da desconfiança. Historicamente considerados tão sólidos quanto o ouro e mais vantajosos do que o metal precioso, porque pagam juros, além de constituir-se em reserva de valor, os título da dívida norte-americana enfrentam uma forte tendência de venda, com notável diminuição do volume dos mesmos nas reservas chinesas e japonesas, em especial, mas também em economias europeias, como a britânica e Alemã. Com a instauração da desconfiança, a Alemanha cogita mesmo de retirar as suas reservas de ouro mantidas nos EUA.

Foi justamente a dificuldade de refinanciar a dívida pública norte-americana, expressa em títulos do Tesouro, que forçou o Presidente Trump a recuar, quando, para acalmar os mercados, adiou por 90 dias a aplicação da nova fase de seu plano de imposição de tarifas de importação sobre vários países.

Todo o sistema de Defesa, assim como o econômico, construído pelos aliados nos pós-guerra, se baseia na confiança inspirada pelos EUA. Sem a confiança dos aliados e da comunidade internacional, os EUA podem se tornar um gigante com pés-de-barro, ameaçado de colapsar pela dificuldade de financiar o seu enorme déficit orçamentário.

O novo governo Trump foca no combate ao desequilíbrio da balança comercial e no déficit orçamentário dos EUA, mas, com o Realismo da sua doutrina, não pode olvidar da importância que a confiança internacional no país representa.

* Texto publicado no Substack, em 28/04/2025.