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Ideias em debate

por TV O Dia

ONU diante de um mundo em disputa

Por: Jefferson Campelo - médico

22/09/2026 às 09h23

22/09/2026 às 09h23

A Assembleia Geral das Nações Unidas, que começa hoje em Nova York, encontra um mundo atravessado por guerras, tensões comerciais, crises humanitárias e uma crescente disputa entre grandes potências. Mais do que uma sucessão de discursos, a reunião será um retrato de uma ordem internacional em transformação e da dificuldade de construir consensos em tempos de fragmentação.

O Brasil chega a esse cenário em posição de destaque. Pela tradição diplomática, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abre o Debate Geral, seguido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para Lula, a tribuna da ONU representa uma oportunidade de reafirmar temas recorrentes da diplomacia brasileira como multilateralismo, soberania, combate à fome, desenvolvimento sustentável e maior participação dos países emergentes nas decisões globais.

Há, porém, um componente doméstico impossível de ignorar. A participação de Lula acontece a poucos dias das eleições de 4 de outubro. Assim, embora o discurso seja dirigido à comunidade internacional, suas palavras inevitavelmente terão repercussão no debate político brasileiro. Política externa e política interna se encontram em Nova York.

Outro personagem a observar é Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela. Sua presença ocorre em um momento de aproximação e negociação com os Estados Unidos envolvendo dívida, petróleo, mineração e reconstrução econômica. O caso venezuelano mostra como interesses econômicos e geopolíticos podem reabrir canais de diálogo mesmo depois de profundas rupturas políticas.

Por trás desses movimentos está uma questão ainda maior: a disputa entre Estados Unidos e China. Pequim se consolidou como contraponto à liderança norte-americana em comércio, tecnologia, inteligência artificial, infraestrutura e influência sobre o Sul Global. Para países como o Brasil, o desafio é manter relações relevantes com as duas potências sem transformar essa aproximação em alinhamento automático com qualquer dos lados.

A Assembleia também terá diante de si guerras, crise climática, inteligência artificial, desenvolvimento e o questionamento sobre a própria capacidade da ONU de produzir respostas efetivas.

É justamente aí que está o principal significado do encontro. Em um mundo no qual a força volta a disputar espaço com a diplomacia, a ONU precisa demonstrar que ainda pode ser mais do que uma grande tribuna. E haverá uma circunstância particularmente simbólica; Lula falará antes de Donald Trump. Se o presidente brasileiro confirmar a defesa da soberania, do multilateralismo e da não ingerência nos assuntos internos dos países, caberá observar como Trump reagirá poucos minutos depois. Poderá ignorar os recados, responder indiretamente ou reafirmar a política externa de Washington em seus próprios termos. Mais importante do que antecipar suas palavras será perceber o contraste entre duas visões sobre o exercício do poder internacional. Nesse intervalo entre os discursos de Brasil e Estados Unidos talvez esteja uma das imagens mais reveladoras desta Assembleia. De um lado, a tentativa brasileira de ampliar o espaço da negociação e do multilateralismo; de outro, uma potência que, sob Trump, tem privilegiado uma política externa mais unilateral. O tom adotado pelos dois presidentes ajudará a mostrar se ainda existe espaço para aproximação ou se as divergências entre Brasília e Washington continuarão marcando a relação bilateral.