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Ideias em debate

por TV O Dia

O Brasil vive um faroeste institucional

Por Jefferson Campelo - médico

09/09/2026 às 13h41

A crise do Judiciário brasileiro atingiu um novo e preocupante patamar. O afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, determinado pelo ministro André Mendonça, desencadeou uma reação institucional raramente vista no país.

E já não se trata apenas de uma decisão monocrática. Luiz Fux e Nunes Marques acompanharam Mendonça, formando maioria na Segunda Turma do Supremo para referendar os afastamentos. Gilmar Mendes pediu vista, interrompendo o julgamento. O fato é relevante, uma vez que a decisão deixou de representar apenas a posição de um ministro e passou a contar com maioria no colegiado.

Do outro lado, a Advocacia-Geral da União recorreu, sustentando que a medida atinge prerrogativa do presidente da República sobre o comando da Polícia Federal e pode provocar uma descontinuidade prejudicial à instituição. Onze dos treze diretores da PF colocaram seus cargos à disposição em solidariedade aos afastados.

Independentemente de quem tenha razão no mérito, a fotografia é assustadora.

Supremo, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e Advocacia-Geral da União aparecem envolvidos numa crise que mistura investigações, disputas entre autoridades e inevitáveis repercussões político-eleitorais. Em pleno ano de eleição presidencial, essa contaminação é especialmente perigosa. A própria dimensão política da crise e sua repercussão sobre a campanha eleitoral já ganharam destaque internacional.

É um verdadeiro faroeste institucional.

Tudo isso acontece num país que gasta muito com sua estrutura judicial, mantém remunerações elevadíssimas em suas carreiras jurídicas e, mesmo assim, apresenta resultados internacionais modestos. No Rule of Law Index 2025, do World Justice Project, o Brasil ocupa apenas a 78ª posição entre 143 países. Em Justiça Civil, estamos em 77º; em Justiça Criminal, despencamos para o 111º lugar. É um desempenho incompatível com a dimensão econômica e institucional do país.

O cidadão tem o direito de perguntar: o retorno institucional corresponde ao enorme custo do sistema?

Também é necessário fazer uma distinção essencial. Ministros individualmente considerados não são o Supremo. Criticar duramente suas decisões ou condutas não significa atacar a instituição. Ao contrário, defender o STF é exigir que seus integrantes sejam submetidos a regras transparentes, limites claros e padrões éticos compatíveis com o poder que exercem.

A reforma do Judiciário tornou-se urgente. Precisamos discutir decisões monocráticas, impedimento e suspeição, duração de inquéritos, transparência remuneratória, responsabilização, competências institucionais e limites mais claros entre Justiça e política.

O Brasil não precisa enfraquecer o Supremo, a Procuradoria ou a Polícia Federal. Precisa fortalecê-los como instituições de Estado, e não como protagonistas de disputas pessoais ou políticas.

Quando aqueles que deveriam garantir equilíbrio passam a confrontar-se entre si, acende-se o sinal vermelho.

O Brasil não pode normalizar esse faroeste. A reforma do Judiciário deixou de ser uma opção. Tornou-se uma urgência nacional.