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Ideias em debate

por TV O Dia

Na ONU, dois caminhos para um mundo em crise

Ao final do primeiro dia, ficou a impressão de que a ONU continua sendo indispensável justamente quando parece mais fragilizada. Por: Jefferson Campelo - médico

23/09/2026 às 09h39

23/09/2026 às 09h39

A abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas confirmou nesta terça-feira, 22, muito do que já se anunciava: o mundo atravessa uma crise que vai além das guerras em curso. É uma crise do próprio sistema internacional, da capacidade de diálogo entre as potências e, sobretudo, das instituições criadas para impedir que a força substitua a diplomacia.

Foi António Guterres quem talvez melhor sintetizou esse momento. Em seu último discurso de abertura como secretário-geral da ONU, apresentou quatro grandes testes de poder que desafiam a humanidade: guerra e paz, desigualdade, mudança climática e inteligência artificial. Sua advertência de que as divisões do mundo se aprofundaram e de que a tecnologia avança mais rapidamente do que nossa capacidade de governá-la deu ao discurso a dimensão de uma despedida, mas também de um alerta. Guterres defendeu reformas nas instituições internacionais e lembrou que o perigo não está apenas na tecnologia, mas no poder exercido sem responsabilidade.

Na sequência, Lula fez um dos discursos mais duros de suas participações na ONU. Disse que a credibilidade da organização nunca esteve tão baixa e responsabilizou o imobilismo do Conselho de Segurança pela incapacidade de responder às guerras. Defendeu o multilateralismo, a soberania e a democracia, criticou ingerências externas em processos eleitorais e afirmou que o Brasil não pertence ao “quintal” de nenhuma potência.

Lula também falou de Gaza, condenando tanto os atos terroristas do Hamas quanto as ações do governo Netanyahu contra os palestinos. Tratou ainda da Ucrânia, das mudanças climáticas, da inteligência artificial, das big techs e da necessidade de uma ordem internacional menos submetida à vontade das grandes potências.

No artigo que publiquei neste portal antes da Assembleia, chamei atenção justamente para o simbolismo de Lula falar imediatamente antes de Donald Trump. Escrevi que mais importante do que antecipar as palavras do presidente americano seria observar o contraste entre duas concepções sobre o exercício do poder internacional. Os discursos acabaram oferecendo elementos concretos para esse contraponto.

Leia também: ONU diante de um mundo em disputa

Trump subiu à mesma tribuna exaltando a força econômica, tecnológica e militar dos Estados Unidos e repetindo que, enquanto outros falam, ele age. Defendeu sua política para o Irã e chegou a apresentar como alternativas um acordo ou a possibilidade de “aniquilar” a República Islâmica. Criticou o Tribunal Penal Internacional, pediu que países abandonassem a instituição e reafirmou que os Estados Unidos poderão usar seu poder militar para defender seus interesses no Hemisfério Ocidental.

Está aí uma das grandes contradições expostas pela Assembleia: reivindica-se soberania para si enquanto se reserva o direito de interferir quando interesses nacionais são considerados ameaçados. O contraste com a defesa do multilateralismo feita por Lula e Guterres dificilmente poderia ter sido mais evidente.

Outros líderes reforçaram a percepção de esgotamento da atual arquitetura internacional. Emmanuel Macron, em seu último discurso na Assembleia como presidente francês, contestou a narrativa de sucesso da política americana para Gaza e chamou atenção para a persistência da tragédia humanitária.

Ao final do primeiro dia, ficou a impressão de que a ONU continua sendo indispensável justamente quando parece mais fragilizada. Guterres deixou uma pergunta que deveria permanecer depois que os discursos terminarem: quem controla o poder em um mundo cada vez mais fragmentado?

A resposta ainda não existe. Mas a Assembleia mostrou duas possibilidades muito claras; uma ordem baseada na negociação, em instituições e regras compartilhadas, ou outra em que cada potência procura impor sua vontade na medida da força que possui. Entre essas duas visões talvez esteja não apenas o futuro da ONU, mas a própria possibilidade de construirmos uma paz duradoura.

Porque, quando a diplomacia perde a voz, é a força que passa a escrever a história.