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Ideas em debate

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Entre a retórica e a responsabilidade de Estado

A política externa não pode ser instrumento de militância. Ela existe para proteger o Estado, independentemente de quem ocupe temporariamente o poder - Por Jefferson Campelo

28/07/2026 às 10h50

28/07/2026 às 10h50

A visita do presidente argentino Javier Milei ao Brasil ficará marcada menos pelo diálogo entre duas nações irmãs e mais pela quebra deliberada das regras elementares da convivência diplomática. Ao optar pela provocação em vez do respeito institucional, Milei desperdiçou uma oportunidade de fortalecer uma relação estratégica e preferiu importar para o plano internacional a lógica da polarização que domina parte da política contemporânea.

Chefes de Estado não representam apenas suas convicções pessoais ou eleitorais, representam seus países. Por isso, espera-se deles prudência, respeito aos protocolos diplomáticos e compromisso com os interesses permanentes de suas nações. Milei fez a escolha oposta. Em vez de prestigiar a agenda bilateral, utilizou sua presença em território brasileiro para emitir declarações hostis, alimentar antagonismos e afrontar instituições nacionais. Não se trata de uma questão ideológica, mas de comportamento diplomático.

O episódio é ainda mais incompreensível quando observado sob a ótica dos interesses argentinos. O Brasil é, de longe, o principal parceiro comercial da Argentina, à frente, inclusive, dos Estados Unidos. Em 2025, a corrente de comércio entre os dois países alcançou cerca de US$ 31 bilhões, sustentando milhares de empresas, empregos e investimentos dos dois lados da fronteira. Além disso, Brasil e Argentina são os pilares do Mercosul, projeto que consolidou a integração econômica sul-americana e ampliou a capacidade de negociação internacional da região.

É precisamente por isso que o comportamento do presidente argentino preocupa. Quando um chefe de Estado transforma divergências políticas em confrontos diplomáticos, transmite insegurança aos investidores, enfraquece a confiança mútua e coloca em segundo plano interesses nacionais que deveriam ser permanentes. A política externa não pode ser instrumento de militância. Ela existe para proteger o Estado, independentemente de quem ocupe temporariamente o poder.

O mundo atravessa um dos momentos mais delicados das últimas décadas. Guerras, tensões comerciais, rearranjos geopolíticos e a fragmentação da ordem internacional exigem serenidade, pragmatismo e capacidade de diálogo. A polarização, quando exportada para as relações entre países, deixa de ser apenas um problema político e passa a representar um risco econômico e institucional.

A crítica a Javier Milei, portanto, não decorre de suas ideias liberais ou conservadoras. Em democracias maduras, divergências ideológicas são naturais e legítimas. O que merece reprovação é a opção pela hostilidade como método de atuação internacional. A diplomacia não exige concordância; exige respeito. E respeito é o primeiro requisito para preservar uma parceria estratégica construída ao longo de décadas.

A História demonstra que discursos inflamados costumam render aplausos passageiros. Já a boa diplomacia produz resultados permanentes: confiança, investimentos, empregos e prosperidade. Em um mundo dividido por extremismos, talvez a maior demonstração de liderança seja justamente preservar as pontes quando tantos insistem em construir muros.