Pelo segundo ano consecutivo participei do Congresso Internacional de Compliance, realizado pela Faculdade LEC – Legal, Ethics and Compliance, em São Paulo, no período de 5 a 7 de maio. É um evento que recomendo pela atualidade dos temas abordados, pela relevância dos debates, pela qualidade dos palestrantes e, claro, pelo nível dos participantes. Sobre esse público, posso dizer: ninguém estava ali para brincadeira. O debate sobre compliance, ética e integridade é sério, necessário e urgente. E engana-se quem pensa que essa discussão é nova. Não é.
O Congresso apenas evidenciou uma transformação que já vem sendo percebida no papel do compliance, da governança corporativa e da gestão de riscos dentro das organizações públicas e privadas. Não estamos mais falando de compliance como um suporte, uma função predominantemente normativa e reativa, mas de uma área que assume posição estratégica, integrada às decisões de negócio, à cultura organizacional e à sustentabilidade institucional.
Esse olhar esteve presente em todos os painéis e oficinas. Discutiu-se o uso da inteligência artificial para além do aspecto operacional, sua atuação como elemento estruturante da tomada de decisão e sua integração à cultura organizacional. Também foram abordados temas como escândalos corporativos e políticos, NR-1 e riscos psicossociais, soberania de dados, proteção de dados, auditoria, papel da liderança, riscos comportamentais, integridade esportiva, assédio eleitoral, investigações internas e evidência digital, cenário regulatório, due diligence e gestão de terceiros, coragem organizacional, comunicação e treinamento. Enfim, foram três dias de provocações que nos levam a refletir sobre os cenários e a sociedade em que vivemos, a democracia que defendemos, os valores que reproduzimos e o ser humano que somos e/ou que estamos nos tornando.
A verdade, para concluir o texto, porque a divagação aqui é longa: os debates reforçaram a importância de organizações mais conscientes, tecnicamente preparadas, sim, mas também institucionalmente responsáveis e coerentes, capazes de integrar ética, tecnologia, comportamento, incentivos, responsabilidade institucional e social, gestão de riscos e tomada de decisão em cenários cada vez mais dinâmicos e complexos. E mais: que tudo isso saia do discurso institucional para a prática real. Essa é a contribuição do compliance para além dos sistemas de controle.
As palestras também reforçaram que crises corporativas não decorrem apenas da ausência de regras. Em muitos casos, elas surgem de fatores humanos e culturais: silêncio institucional, pressão por resultados, medo organizacional, conflitos de interesse, insegurança psicológica e incapacidade da liderança de transformar princípios em decisões consistentes. Isso evidencia que o fator humano continua sendo um dos maiores riscos organizacionais. Mas é também, uma das maiores oportunidades de transformação.
E falando em ser humano, não podemos banalizar o termo “humanização”. Essa palavrinha se tornou imperativa nos dias atuais, especialmente no contexto pós-pandemia; e mais ainda agora, com o avanço da inteligência artificial generativa. Mas ela também não deve ser um discurso conveniente, um roteiro de palestra motivacional. Precisa ser prática, decisão, cultura e responsabilidade. Por isso, de novo a reflexão: que tipo de ser humano estamos formando e/ou nos tornando em um cenário de transformações tão rápidas, pressões por resultados e comparações cada vez mais performáticas?
Fica o lembrete de Charles Chaplin: “Não sois máquina! Homens é que sois”, ou a mensagem do professor Clóvis de Barros, em sua palestra: “Máquinas não amam seus filhos”. Lembremo-nos disso.