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30 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás -

Por: Jefferson Campelo - médico

24/04/2026 às 11h01

24/04/2026 às 11h01

Em 17 de abril de 1996, o Brasil foi palco de um dos episódios mais violentos da sua história recente no campo: o Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no município de Eldorado dos Carajás, no sudeste do Pará. Trinta anos depois, o episódio continua sendo símbolo da desigualdade agrária, da violência no campo e da luta por justiça social.

A marcha dos trabalhadores rurais naquele abril de 1996 não foi um ato isolado, mas resultado de décadas de concentração fundiária no Brasil. Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) protestavam contra a lentidão do governo em desapropriar terras improdutivas para assentamento.

Os agricultores viviam em condições precárias, sem acesso à terra, crédito ou infraestrutura. A Constituição de 1988 já previa a função social da terra, mas sua aplicação era limitada. A caminhada, que bloqueou a rodovia PA-150, tinha como objetivo pressionar o governo federal a acelerar a reforma agrária e garantir dignidade para milhares de famílias.

A repressão policial ocorreu após ordem para desobstruir a rodovia. Tropas da Polícia Militar do Pará cercaram os manifestantes. O que se seguiu foi uma ação marcada por violência extrema: 19 trabalhadores foram mortos e dezenas ficaram feridos.

Investigações posteriores apontaram uso de munição letal, execuções à queima-roupa e ausência de protocolos adequados de negociação. A força empregada foi amplamente considerada desproporcional, refletindo uma cultura institucional de criminalização dos movimentos sociais rurais. Além disso, houve falhas de comando e decisões políticas que contribuíram para a escalada da violência. O episódio evidenciou a falta de preparo das forças de segurança para lidar com protestos sociais complexos.

O massacre gerou forte indignação dentro e fora do Brasil. Organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional, denunciaram o caso como grave violação de direitos humanos.

A data, 17 de abril, passou a ser reconhecida internacionalmente como o Dia de Luta Camponesa, reforçando o caráter simbólico do episódio. O Brasil sofreu pressão diplomática e críticas por sua incapacidade de proteger populações vulneráveis no campo. Internamente, o massacre ampliou o debate público sobre reforma agrária, violência rural e impunidade. Para os familiares das vítimas, as consequências foram profundas e duradouras. Muitas famílias perderam seus principais provedores, enfrentando dificuldades econômicas e emocionais.

A busca por justiça foi longa. Apenas anos depois, alguns comandantes da operação foram condenados, mas a sensação de impunidade ainda persiste entre os familiares. O trauma coletivo permanece vivo nas comunidades afetadas. Por outro lado, a memória dos mortos fortaleceu a organização social. Assentamentos criados posteriormente carregam os nomes das vítimas, mantendo viva a luta por direitos.

Após o massacre, houve uma intensificação pontual das políticas de assentamento no final da década de 1990. O governo federal buscou responder à pressão social ampliando programas de reforma agrária.

No entanto, os avanços foram irregulares. Ao longo das décadas seguintes, a reforma agrária perdeu prioridade em diferentes governos, e a concentração de terras continuou sendo um problema estrutural.

O massacre, portanto, não resolveu a questão agrária, mas se tornou um marco que expôs suas contradições. Ele também consolidou o MST como um dos principais atores sociais do país.

Trinta anos depois, o Massacre de Eldorado dos Carajás permanece como um lembrete doloroso das desigualdades no campo brasileiro. Mais do que um episódio histórico, ele simboliza a urgência de políticas públicas eficazes, respeito aos direitos humanos e justiça social. A memória das vítimas segue impulsionando debates e mobilizações, reafirmando que a luta pela terra no Brasil ainda está longe de terminar.

Foto: Fiocruz / Acervo João Roberto Ripper