Seis meses após a morte do motociclista Edson Barbosa Dias, de 46 anos, a família ainda tenta lidar com a ausência deixada dentro de casa. A viúva, Genilda Alves Viana, afirma que recebeu com surpresa e indignação a notícia da soltura, na última quarta-feira (16), do engenheiro Carlos Eduardo Marques Ângelo, acusado de causar o acidente que matou Edson.
A decisão do Tribunal de Justiça do Piauí (TJ-PI) revogou a prisão preventiva de Carlos Eduardo, que estava preso desde março. O acusado deverá cumprir medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica por 180 dias, recolhimento domiciliar noturno e suspensão do direito de dirigir.
Genilda estava trabalhando quando recebeu uma ligação da filha, lhe informando sobre a decisão. “Eu estava na escola, no trabalho, quando minha filha me ligou. Ela disse ‘ o advogado falou que o rapaz que matou o pai está solto’. Eu falei ‘está não’. Eu sentei, porque eu não acreditei”, relatou.
Segundo ela, a notícia trouxe novamente a dor e a sensação de perda. “É aquela sensação de impunidade, de injustiça. Como é que uma pessoa mata outro homem, um trabalhador, um cidadão, e seis meses depois ele está solto?”, questionou.
Edson morreu em 15 de março, após ser atingido pelo carro dirigido por Carlos Eduardo Marques Ângelo. A vítima estava com a motocicleta parada em um semáforo na Avenida Frei Serafim, no cruzamento com a Avenida Miguel Rosa, em Teresina, quando o carro lhe atingiu em alta velocidade.
Para Genilda, uma das lembranças mais difíceis está relacionada à presença constante do marido na rotina das duas filhas. “Ele era aquele pai presente, toda hora, todo dia”, contou. A filha mais nova, de oito anos, segundo ela, ainda procura maneiras de manter o pai por perto, usando os perfumes que pertenciam a Edson para manter o cheiro do pai dentro de casa. “Ela diz que passou porque está com saudade dele”, relatou Genilda.
A família também mantém pequenos rituais ligados à memória de Edson. Na data de aniversário do pai, por exemplo, a filha levou flores ao cemitério, nas cores que ele gostava. Genilda conta que foram 25 anos de história com Edson, entre namoro e casamento.
“Foi uma vida, um casamento que Deus me deu. E agora, cada vez que estou com tristeza, às vezes eu pergunto, ‘Senhor, por quê’?”, afirmou.
Genilda afirma que não mantém contato com a família do acusado e diz que não recebeu apoio financeiro. Segundo ela, a motocicleta de Edson ficou sem condições de uso e ainda gera despesas. “Eu até agora não recebi nada. Nenhum apoio, nenhum auxílio”, afirmou.
A viúva também informou que a defesa da família pretende recorrer da decisão. “A gente espera que ele volte a ser preso, que ele pague”, declarou. Enquanto aguarda os próximos passos do processo, Genilda diz que continua trabalhando, sozinha, para sustentar a casa e cuidar das filhas.
Acusado responde ao processo em liberdade
Conforme a decisão judicial, Carlos Eduardo é réu primário, possui residência fixa e não tem registros criminais anteriores. O processo aponta que ele conduzia um carro de passeio quando atingiu a motocicleta de Edson.
Ainda segundo os autos, a perícia indicou sinais de embriaguez no motorista. No veículo, foram encontrados um recipiente parcialmente consumido de bebida alcoólica e uma porção de substância semelhante à maconha.
Com a soltura, o engenheiro deverá comparecer quinzenalmente em juízo, não poderá frequentar bares, restaurantes ou festejos e deverá manter distância mínima de 200 metros da família da vítima e das testemunhas. Também está proibido de deixar Teresina sem autorização judicial.
O Ministério Público do Piauí denunciou Carlos Eduardo por homicídio qualificado. O processo tramita na 3ª Vara do Tribunal Popular do Júri de Teresina. A defesa havia pedido que ele respondesse à ação em liberdade, alegando, entre outros pontos, condições pessoais favoráveis.