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Trump e Xi em Washington: os limites do poder entre as duas maiores potências

Tecnologia, indústria, terras raras e poder militar mostram que Estados Unidos e China possuem vantagens distintas e que nenhum deles consegue impor sozinho as regras da disputa.

Donald Trump recebeu Xi Jinping em Washington com o cerimonial reservado às grandes visitas de Estado. A mensagem era de prestígio e poder. Mas o aspecto mais importante do encontro aconteceu longe do espetáculo.

Trump e Xi chegaram à mesa sabendo que possuem instrumentos capazes de impor custos consideráveis ao outro e que utilizá-los indiscriminadamente poderia produzir consequências igualmente sérias para suas próprias economias.

O encontro manteve aberto o caminho da negociação comercial, sem eliminar as divergências. Washington quer reduzir vulnerabilidades estratégicas e preservar sua vantagem tecnológica. Pequim procura limitar o impacto das restrições americanas e proteger sua expansão industrial.

Os dois países descobriram que podem pressionar um ao outro, e descobriram também o preço dessa pressão. Tecnologia americana, indústria chinesa.

Os Estados Unidos conservam vantagens importantes em semicondutores avançados, equipamentos para sua fabricação, inteligência artificial e software. Washington utiliza controles de exportação para restringir o acesso chinês a determinadas tecnologias estratégicas, enquanto Pequim investe para construir uma cadeia tecnológica menos dependente do Ocidente.

A China, porém, possui seus próprios instrumentos de pressão. Segundo a Agência Internacional de Energia, em 2024 o país respondeu por cerca de 60% da mineração das terras raras utilizadas em ímãs, 91% do refino e 94% da fabricação de ímãs permanentes sinterizados. Esses materiais são essenciais para setores que vão de eletrônicos e veículos à indústria aeroespacial e equipamentos de defesa.

Surge daí um dos grandes paradoxos dessa disputa: os Estados Unidos controlam importantes gargalos tecnológicos; a China, gargalos industriais e minerais. Pequim também transformou sua extraordinária capacidade manufatureira em poder geopolítico. Baterias, painéis solares, veículos elétricos, minerais críticos e uma vasta cadeia de produtos industriais dão à China uma escala difícil de reproduzir.

Os números revelam dois modelos distintos de poder. Pelo PIB nominal, os Estados Unidos continuam maiores; pela paridade de poder de compra, a China está à frente. Na área militar, a diferença permanece significativa: segundo o SIPRI, os EUA gastaram cerca de US$ 954 bilhões em 2025, contra aproximadamente US$ 336 bilhões da China.

Washington preserva vantagens em tecnologia avançada, finanças, poder militar e alianças. Pequim possui enorme escala industrial e posições dominantes em cadeias produtivas estratégicas. Taiwan: o limite da negociação. Existe, entretanto, uma questão muito mais perigosa que tarifas, chips ou minerais. Taiwan.

Xi colocou o tema diretamente diante de Trump e, segundo o comunicado chinês, pediu aos Estados Unidos prudência na questão. Pequim considera Taiwan parte de seu território. Washington reconhece diplomaticamente a República Popular da China, mas mantém relações não oficiais com a ilha e fornece meios para sua autodefesa.

Tarifas podem ser retiradas. Restrições comerciais podem ser renegociadas. Uma crise militar no estreito de Taiwan teria consequências muito mais difíceis de controlar.

A inteligência artificial também entrou nas conversas. Os dois países competem pela liderança nessa tecnologia, mas começam a reconhecer que determinados riscos podem exigir canais de comunicação mesmo entre adversários. Afinal, quem está à frente?

Depende do terreno observado. Procurar um vencedor absoluto obscurece a principal transformação revelada por Washington. A disputa passou a ser também sobre qual dos dois países conseguirá reduzir suas vulnerabilidades mais rapidamente sem destruir os benefícios econômicos que ainda obtém da relação com o outro.

Trump recebeu Xi procurando demonstrar a força americana. Xi chegou mostrando que a China também possui instrumentos que Washington não pode ignorar. Essa talvez seja a principal conclusão do encontro. Os Estados Unidos ainda possuem extraordinária capacidade tecnológica, financeira e militar. A China construiu.