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Terreiros do Piauí manifestam repúdio após anúncio de Cláudia Leitte em pré-carnaval

Representantes dos povos de terreiro do Piauí manifestaram repúdio à contratação da cantora Cláudia Leitte para o pré-carnaval de Teresina. A manifestação foi divulgada por meio de uma nota pública assinada pelo Pai Rondinele Santos, uma das principais lideranças do Movimento de Terreiro do Estado do Piauí, e publicada em suas redes sociais nesta terça-feira (30).

Reprodução / Redes Sociais
Cantora foi confirmada como atração do pré-carnaval de Teresina

No documento, o movimento critica a decisão da Secretaria de Cultura do Estado do Piauí, destacando que a artista construiu sua carreira no axé music, gênero diretamente ligado às culturas, espiritualidades e tradições dos povos de matriz africana. Segundo a nota, ao longo dos anos, Cláudia Leitte teria adotado posicionamentos públicos considerados desrespeitosos, como a retirada de referências explícitas ao Axé, a Iemanjá e a outros elementos sagrados das religiões afro-brasileiras em suas músicas.

Para o Movimento de Terreiro, essas atitudes contribuem para o apagamento simbólico das tradições afro-brasileiras. A nota ressalta ainda que o Piauí abriga quase sete mil terreiros e ocupa a quarta posição entre os estados com mais registros de violência contra comunidades tradicionais de matriz africana, o que tornaria, segundo o grupo, ainda mais grave a escolha do poder público.

Assis Fernandes / O DIA
Pai Rondinele

“É inadmissível que, em um estado com essa realidade, o poder público escolha prestigiar uma artista associada a práticas que reforçam esse apagamento histórico e religioso”, afirma o texto. O movimento também critica o que considera uma utilização seletiva da cultura afro-brasileira, denunciando que símbolos sagrados seriam explorados quando geram retorno financeiro e descartados posteriormente.

A cantora é alvo de uma ação civil pública do Ministério Público da Bahia por ter alterado um trecho da letra de “Caranguejo”, música que fazia referência a religiões de matriz africana. A loira é acusada de “discriminação religiosa” e, caso seja condenada, poderá pagar R$ 2 milhões de indenização por dano moral coletivo. As informações são do jornal Folha de S. Paulo.

Na ocasião, Claudia, que é evangélica, mudou um verso que dizia "saudando a rainha Iemanjá" para "eu canto meu rei Yeshua", versão em hebraico do nome de Jesus Cristo. Segundo o processo, a alteração teria se dado após a cantora se converter e se filiar "a denominações neopentecostais cuja tônica discursiva se assenta na conhecida desqualificação, difamação e satanização das religiões afro-brasileiras".

Ainda de acordo com o documento, a mudança não teria motivação artística, mas caráter discriminatório contra religiões de matriz africana. "Não decorreria de criação artística ou de um genuíno sentimento pessoal dos autores, mas sim de uma motivação discriminatória, explícita e improvisada, traduzida em desprezo, repulsa e hostilidade em relação às religiões afro-brasileiras", destacou o Ministério Público da Bahia.

Na nota, o Movimento de Terreiro exige da Secretaria de Cultura respeito, coerência e compromisso com a diversidade religiosa, com o combate à intolerância e com a valorização de artistas, mestres, sacerdotes e sacerdotisas que mantêm vivas as tradições afro-brasileiras no estado.

Outro lado

O Portal O Dia entrou em contato com a Secult para buscar um posicionamento sobre os questionamentos levantados pelo Movimento de Terreiro do Piauí. Mas até o momento não obtivemos retorno. O espaço segue aberto para esclarecimentos.

Confira a nota na íntegra:

NOTA DE REPÚDIO

O Movimento de Terreiro do Estado do Piauí vem a público repudiar veementemente a contratação da cantora Cláudia Leitte pela Secretaria de Cultura do Estado do Piauí.

A referida artista construiu sua carreira e acumulou reconhecimento nacional a partir do axé music, um gênero profundamente enraizado nas culturas, espiritualidades e tradições dos povos de matriz africana. No entanto, ao longo dos anos, tem adotado posicionamentos públicos considerados desrespeitosos, como a retirada de referências explícitas ao Axé, a Iemanjá e a elementos sagrados das religiões afro-brasileiras em suas músicas, contribuindo para o apagamento simbólico dessas tradições.

É inadmissível que, em um estado que abriga quase 7 mil terreiros e que figura como o quarto estado com mais registros de violência contra comunidades tradicionais de matriz africana, o poder público escolha prestigiar uma artista associada a práticas que reforçam esse apagamento histórico e religioso.

A cultura afro-brasileira não é mercadoria para lucro e descarte. Não aceitaremos que símbolos sagrados sejam utilizados apenas quando geram retorno financeiro e, depois, negados por conveniência.

Exigimos da Secretaria de Cultura do Estado do Piauí respeito, coerência e compromisso com a diversidade religiosa, com a luta contra a intolerância e com a valorização dos artistas, mestres, sacerdotes e sacerdotisas que mantêm viva a ancestralidade afro-brasileira todos os dias.

Axé não se apaga.

Iemanjá não se silencia.

Os povos de terreiro resistem.

Pelo respeito às religiões de matriz africana.

Contra toda forma de intolerância religiosa.


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