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Teresina é a Chapada do Corisco? Título da capital piauiense é mais cultural do que científico

Quem vive em Teresina em algum momento já ouviu a expressão “Chapada do Corisco” e há quem jure “de pés juntos” que a capital tem tanta incidência de raio que “andar descoberto numa tempestade” é pedir para ser atingido por relâmpago. Mas a despeito da crendice popular, a ciência é clara: Teresina não é a Chapada do Corisco. Ao menos não como as pessoas pensam que é.

Reprodução
Teresina é a Chapada do Corisco? Título da capital piauiense é mais cultural do que científico

Apesar de o Brasil ter a maior incidência de raios do planeta, com mais 70 milhões de descargas elétricas por ano, não é Teresina quem puxa este índice. Na verdade, são os Estados do Amazonas e do Pará. Ao menos é o que indica o Grupo de Estudos em Eletricidade Atmosférica (Elat), vinculado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O Piauí aparece apenas em 15º lugar no ranking nacional de ocorrência de descargas elétricas em tempestades (raios). Considerando a dimensão espacial, ou seja, a incidência de raios por quilômetro quadrado, o estado desce para a 16ª posição. Entre as capitais do Nordeste, Teresina perde para São Luís no posto de cidade com a maior quantidade de raios registrada, ou seja, a capital piauiense é a segunda em número de relâmpagos.

Elat/Inpe/Nímbus
Ranking dos estados brasileiros em incidência de raios

O conceito de Chapada do Corisco é mais cultural do que científico. O climatologista Werton Costa explica que ele aparece mais nos livros de História do que nos livros de ciência. A expressão se refere ao retrato dos cronistas, viajantes, tropeiros e vaqueiros que transitavam na faixa Meio Norte entre o Piauí e o Maranhão, na antiga Vila do Poti e que, nos períodos chuvosos, se deparavam com uma grande quantidade de raios e trovões sobre a região onde hoje se situa Teresina

Isso se tornou uma referência histórica entre os núcleos de povoamento, principalmente quando a Vila do Poti passou a ser a capital da província, com o nome de Teresina. Essa marca da concentração de descargas elétricas se ampliava. Ficou na história, no imaginário e na visão das pessoas que Teresina era a cidade dos raios. Com o tempo e a ciência, essa ideia foi um tanto quanto desmistificada. Tem outros pontos não só no Piauí, mas também no Nordeste, com elevada concentração de raios.

Werton CostaClimatologista

A fama de Chapada do Corisco que Teresina carrega tem fundamento, mas não exclusividade. Mas por que a capital piauiense registra tantos raios? Primeiro, é preciso entender que a incidência varia ao longo do ano, influenciada por fatores climáticos e ambientais. A explicação está na combinação destes fatores naturais e urbanos.

Teresina está localizada na zona intertropical, com altas temperaturas, fica situada em um planalto, ou seja, uma forma de relevo que canaliza fluxos de ar, tem a presença de dois rios que favorecem a umidade e tem formação de ilhas de calor urbanas devido ao crescimento da cidade.

Werton Costa explica que o calor é um dos principais motores para o fenômeno dos raios. Quanto maior a temperatura, maior a instabilidade atmosférica e, consequentemente, maior a chance de formação de nuvens carregadas e de descargas elétricas.

Wellington Oliveira/O Dia
Werton Costa, Climatologista

“O processo físico gerador de uma nuvem é o transporte de umidade da superfície para o alto. Essa umidade, na forma de vapor, que é invisível aos nossos olhos, vai se condensar e virar nuvem, que é a estrutura visível. E o crescimento das nuvens, seja horizontal ou vertical, ele ocorre por constantes aportes de umidade, que também ocorrem por constantes aportes de energia térmica. Esse processo a gente chama de instabilidade e ele é intensificado pelo excesso de calor”, diz o climatologista.

Mas como se forma exatamente um raio? O processo todo se dá no interior das nuvens, onde há um movimento acelerado das partículas que a compõem e que são basicamente moléculas de água. Se estas moléculas sobem e passam por mudanças de temperatura, elas congelam e então há colisão de partículas sólidas. Nesta colisão, gera-se descarga elétrica. Como existe uma diferença de polaridade, principalmente entre a nuvem e a superfície, as cargas tendem a naturalmente sair do interior da nuvem, adquirindo por ionização o fenômeno visual chamado de raio.

Os raios são um fenômeno elétrico, ótico e sonoro, quando chegam a ser trovão. Alguns deles ficam apenas entre as nuvens e outros atingem o solo. Isso vai depender de onde está a diferença de potencial elétrico mais intensa. É o que explica o físico Antônio Lima. “Temos os raios nuvem-solo, que acontecem quando tem forte diferença de carga entre a base da nuvem e o solo; os raios intra-nuvem, que ocorrem dentro da própria nuvem com cargas opostas; e os raios entre nuvens, que conectam nuvens diferentes”.

Imagem gerada por IA
Os raios são um fenômeno elétrico, ótico e sonoro

Tensão altíssima e enorme potencial de dano

Um raio típico tem uma tensão de 100 milhões de volts, segundo o Elat. A corrente pode chegar a 30 mil amperes e a energia acumulada é da ordem de 1 bilhão de joules. Na prática, isso equivale a abastecer uma casa média por vários dias, acender uma lâmpada de 100 watts por meses e é comparável à energia liberada por uma pequena explosão.

“Um raio aquece o ar ao seu redor a mais de 30 mil °C. Imagine uma torradeira. Um raio, sozinho, tem energia concentrada suficiente para torrar 100 mil fatias de pão. Pode derreter metais, fritar componentes eletrônicos. É como se você tivesse milhões de carregadores de celular trabalhando ao mesmo tempo quando a descarga ocorre, o que causa um choque instantâneo, podendo ser fatal”, diz o físico Antônio Lima.

Agência Gov
Um raio típico tem uma tensão de 100 milhões de volts

Em termos práticos, ser atingido por um raio equivale a levar um choque de mil chuveiros elétricos ao mesmo tempo. O potencial de destruição é absurdamente alto, mas a chance de isso acontecer é de aproximadamente uma em um milhão. O Inpe revela que o Brasil registrou 835 mortes por raios na última década. Em média, raios matam de 120 a 130 pessoas por ano no país.

Algumas circunstâncias facilitam essas ocorrências. O Elat revela que atividades da agropecuária respondem por 66% dos acidentes com raios registrados no Brasil. Isso, porque em geral são serviços executados em áreas abertas e descampadas, que facilitam a incidência de raios. Somente em 21% dos casos, os acidentes ocorrem dentro de casa.

O Piauí teve dois registros recentes. Em 06 de fevereiro, um jovem ficou ferido ao sofrer uma descarga elétrica após a casa em que ele mora ser atingida por um raio em Buriti dos Lopes. Dez dias depois, uma criança de sete anos morreu após um raio atingir sua residência em Joaquim Pires. O menino usava o celular no momento da descarga elétrica durante a chuva.

Usar aparelhos eletrônicos ligados na tomada é um dos erros mais comuns que aumentam as chances de uma descarga elétrica durante tempestades. Quem faz o alerta é o Corpo de Bombeiros.

Numa chuva, você pode usar o celular tranquilamente, desde que ele não esteja conectado a uma fonte de condução de energia. Todo eletrodoméstico deve estar desligado da tomada, porque se tiver uma descarga atmosférica na rede elétrica, essa energia vai ser conduzida até você e você vai ser eletrocutado.

Najra Nunescoronel do Corpo de Bombeiros do Piauí
Assis Fernandes/O Dia
Coronel Najra Nunes, do Corpo de Bombeiros do Piauí

Ela recomenda também que as pessoas evitem andar descalças durante uma chuva com raios, porque se a descarga atingir o chão, a energia se dissipa por alguns quilômetros ao redor e a pessoa pode sofrer um choque. O ideal é usar calçados de borracha, que são isolantes, durante uma tempestade.

Em caso de um acidente com raio, o Corpo de Bombeiros orienta a se aproximar da vítima calçada com solados de borracha e checar os sinais vitais dela. Em seguida, ligar imediatamente para o 193 dos Bombeiros ou o 192 do SAMU. Enquanto o atendimento não chega, o ideal é fazer hiperextensão do pescoço da pessoa para abrir as vias aéreas e, se ela tiver uma parada, observar os batimentos e fazer a reanimação cardiopulmonar. É fundamental manter a vítima aquecida, porque ela pode ter uma hipotermia.

E em hipótese alguma, deve-se dar algo para a vítima ingerir, seja água ou qualquer outro alimento.

Para-raios funcionam?

Para-raios são itens obrigatório em instalações multifamiliares, ou seja, residenciais e condomínios. Quem fiscaliza isso é o Corpo de Bombeiros. De acordo com a coronel Najra Nunes, são equipamentos eficientes e que garantem mais segurança em períodos chuvosos. Um para-raio é composto por um captor, um condutor e um aterramento. Ele não impede o raio, mas dá um caminho seguro para a corrente se espalhar.

O físico Antônio Lima explica o princípio. “Numa tempestade, a nuvem fica eletricamente carregada e o solo reponde com cargas opostas. O campo elétrico aumenta até romper o ar. O para-raios é pontiagudo e instalado em locais altos para aumentar o campo elétrico ao redor e facilitar a conexão com a descarga. Quando um raio cai, a corrente procura o caminho mais fácil para se dissipar e o para-raios oferece isso”, diz.

A descarga atinge o captor, a corrente percorre os cabos condutores e a energia é dissipada no solo. São equipamentos que reduzem os danos estruturais e humanos durante tempestades.


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