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Teresina 174 anos: a cidade pelos olhos de quem corre

Talvez seja um privilégio de poucos conhecer Teresina por meio dos próprios passos. Acordar quando o sol ainda dorme e vê-lo subindo lentamente, aquecendo o rosto enquanto corre pelas ruas da cidade ainda deserta. Ter a sensibilidade de notar paisagens que muitas vezes passam despercebidas devido ao movimento dos carros e à rotina diária, fotografar mentalmente casarões, pássaros, pontes e cenas triviais é, certamente, uma das mais belas formas de enxergar para além do que as vistas alcançam. Em cada ponto percorrido na cidade, um novo olhar sobre a Teresa Cristina que completa 174 anos neste 16 de agosto.

Enquanto a cidade amanhece vagarosa, outros já estão enérgicos, calçando seus tênis para desbravar novos trechos e novas metas. Há ainda aqueles que preferem correr no entardecer do dia. Tem quem diga que o pôr do sol de Teresina é um dos mais bonitos do país. O alaranjado tinge o céu e contrasta com o azul celeste. Os raios criam infinitas nuances e marcam um horizonte.

Carla Machado
Os prédios antigos de Teresina contam as histórias de famílias que por aqui viveram no século passado.

Teresina tornou-se a cidade dos corredores. Daqueles que veem nas longas pistas que cortam a capital uma forma de se conectar com o local que escolheram para morar. A capital e a corrida estão diretamente ligadas à rotina do atleta e estudante Igor Marques. O jovem incorporou a prática como mais um esporte realizado por ele em 2023. Sua preparação para as competições nacionais acontece nas ruas da capital, nos mais variados trechos, e começa bem cedo. Não à toa, são nesses horários que Igor coleciona as melhores lembranças e memórias de Teresina.

“Comecei a correr em um projeto de extensão chamado ‘UFPI em Movimento’, e os treinos aconteciam no fim da tarde, por volta das 17h30. E o pôr do sol, especificamente do ponto de vista da pista de atletismo da UFPI, são memórias que tenho e geraram várias fotografias que passam na minha cabeça”, conta o atleta.

E são essas imagens que constantemente passam em sua mente, além das que vivencia diariamente, que tornam o treino leve e satisfatório. Para o jovem, essas imagens o transportam para o momento em que iniciou a prática da corrida de rua, dando energia e disposição para que continue seguindo seus objetivos.

Conhecer Teresina vai além de visitar pontos turísticos em horários determinados durante uma programação cultural. Conectar-se com a cidade é integrar-se a ela no dia a dia, nas coisas corriqueiras, no ‘bom dia’ dado ao desconhecido e no desbravar de ruas antes nunca percorridas.

Gosto muito de fazer treinos saindo de casa já correndo, de passear pela minha vizinhança. Às vezes, durante um trote mais leve ou um treino regenerativo, gosto de conhecer e de dar bom dia para as pessoas na rua. Considero isso uma experiência cultural de vivência do nosso ambiente urbano

Igor Marquescorredor

Essa relação entre o corredor e a cidade, no entanto, ainda encontra alguns obstáculos. Segundo Igor Marques, para que as ruas sejam também espaços de prática esportiva, é preciso que elas ofereçam condições para que diferentes formas de ocupação possam coexistir. Calçadas, vias, sinalização e segurança fazem parte dessa experiência e ajudam a transformar o caminho em um espaço possível para quem escolhe correr.

“E aqui na nossa cidade nós temos progressivamente visto um aumento dessa capacidade e possibilidade que o corredor tem de vivenciar esses espaços, de vivenciar nossas ruas. Ainda temos alguns déficits, mas que vão sendo sobrepostos, vão sendo cobertos”, explica.

Para ele, não é necessariamente preciso criar novos espaços exclusivos para a corrida, mas permitir que os que já existem sejam utilizados de maneira adequada. A Nova Potycabana, as avenidas Raul Lopes e Marechal Castelo Branco são alguns dos pontos que, pela estrutura que possuem, apresentam potencial para receber cada vez mais corredores.

Arquivo pessoal
Conectar-se com Teresina é integrar-se a ela no dia a dia, nas coisas corriqueiras

A experiência de quem viaja para competir em outras cidades também ajuda a perceber o que pode ser aprimorado por aqui. Em locais como Fortaleza, Salvador, Aracaju e Porto Alegre, o esporte aparece integrado à própria dinâmica urbana, com estabelecimentos e serviços próximos aos espaços de treino, criando uma espécie de pequena comunidade em torno da corrida.

“Todas essas nuances, quando bem atendidas, são o que proporcionam o melhor espaço e fazem com que a cidade seja mais acolhedora e propicie mais a prática da corrida de rua no seu ambiente”, destaca.

Um novo olhar pelas ruas da capital

Alguns percursos e estruturas da cidade são bem conhecidos dos corredores, como as avenidas Raul Lopes e Marechal Castelo Branco. As duas se conectam por um dos símbolos de Teresina, a Ponte Estaiada, cortando um dos importantes rios da capital, o Poti.

Os trechos já foram cenários para diversas provas de corrida de rua que acontecem em Teresina, mas um novo olhar tem surgido para a capital: a busca pela valorização da memória e da história. Ruas do centro da cidade, comumente ocupadas pelo comércio, agora servem como pista para corredores profissionais, amadores e amantes do esporte.

A região central, onde a cidade começou, ainda preserva casarões e monumentos únicos de Teresina. As praças guardam árvores centenárias. As igrejas, os sinos que marcam o tilintar das horas. Os prédios antigos, as histórias de famílias que por aqui viveram no século passado.

Carla Machado
Aos poucos, as tradicionais pistas de corrida vão ganhando novos cenários, permitindo que os corredores ocupem espaços, ora esquecidos, ora desconhecidos pelos teresinenses

Aos poucos, as tradicionais pistas de corrida vão ganhando novos cenários, permitindo que os corredores ocupem espaços, ora esquecidos, ora desconhecidos pelos teresinenses. Atletas têm a oportunidade de apreciar com mais atenção monumentos históricos, como o relógio da Praça Rio Branco; o Marco Zero localizado na Igreja Nossa Senhora do Amparo, em frente à Praça da Bandeira (Marechal Deodoro da Fonseca), fundada em 1852, e a mais antiga da capital.

As curvas arquitetônicas do teto do Troca-Troca, fundado em 1980 e um dos principais pontos de referência do Centro de Teresina, ganham novas cores e possibilidades no imaginário dos corredores. As portas dos casarões antigos transformam-se em molduras, enquanto os gigantes prédios localizados na região central, invisíveis no dia a dia, saltam aos olhos, majestosamente.

De Norte a Sul, corredores fazem de Teresina seu percurso

Aos 80 anos, João Cordeiro esbanja disposição. Antes mesmo de o sol nascer, ele já está de tênis, pronto para cumprir os 10 quilômetros diários pelas ruas e avenidas de Teresina. A corrida entrou em sua vida há pouco mais de duas décadas, motivada inicialmente por uma necessidade de saúde. Desde então, o que começou como cuidado com o próprio corpo transformou-se também em uma maneira de conhecer a cidade.

Ao longo dos anos, foram mais de 400 troféus e medalhas conquistados em competições. Entre uma prova e outra, João percorreu diferentes regiões da capital e colecionou histórias que se misturam às próprias memórias de Teresina. “Posso dizer que do Parque Piauí à Santa Maria da Codipi, da Avenida Zequinha Freire até a Avenida Piauí em Timon, já corri”, conta.

Entre tantas lembranças, uma ocupa lugar especial: a inauguração da pista de atletismo da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Na ocasião, João foi convidado a participar do momento e dar duas voltas pela pista. “Foi uma coisa marcante, porque eu fui chamado para fazer duas voltas, ali estava tocando o tema da vitória do nosso Ayrton Senna, e depois eu fui falar sobre responsabilidade de exercício com os estudantes”, recorda.

Reprodução/Instagram
João Cordeiro é conhecido entre os atletas pela disposição, disciplina e desempenho nas provas

Para Gutierry Gomes, corredor amador, a cidade também se revela a cada quilômetro percorrido. Todos os dias, ele transforma as ruas de Teresina em pista de treino e já passou por bairros das quatro zonas da capital. Mais do que cumprir uma rotina esportiva, correr tornou-se uma maneira de observar diferentes paisagens e descobrir como a cidade se movimenta em cada região.

“Já corri em todos os lugares de Teresina, zona Norte, Sul, Sudeste, Centro. Em todas as regiões aqui de Teresina já corri, já participei de várias provas em vários lugares aqui em Teresina”, conta.

Para ele, essa experiência permite conhecer não apenas novos caminhos, mas também as pessoas e as características de cada bairro. “Aquela interação de conhecer novos bairros, de saber como é que é o pessoal de cada bairro. Isso é muito interessante, pois muita gente vê a corrida como incentivo e acaba incentivando a conhecer novos lugares, novos bairros e mostrar que a nossa cidade é muito bonita”, ressalta.

Entre os lugares preferidos, a Avenida Marechal Castelo Branco aparece quase como um ponto de encontro natural dos corredores. Mas Gutierry acredita que Teresina ainda pode ampliar os espaços destinados à prática esportiva.

Carla Machado
As curvas arquitetônicas do teto do Troca-Troca, fundado em 1980 e um dos principais pontos de referência do Centro de Teresina

“Mais lugares, parques, estrutura também para os corredores, tanto ali na Marechal, fechar mais avenidas durante o fim de semana para a nossa prática esportiva. Aos sábados a Marechal é fechada em certo ponto, mas também poderia ter abrir para outros lugares, na zona Norte, na zona Sul, na zona Sudeste, em outros lugares também seria uma ideia válida”, disse.

Para quem passa pelas ruas correndo, a cidade deixa de ser apenas cenário e passa a ser parte do próprio percurso. E, para Gutierry, entre tantos quilômetros percorridos, há ainda uma característica de Teresina que permanece como uma das mais bonitas: “O verde da nossa cidade que é muito bonito”, complementa.

Teresina tem potencial, mas ainda carece de estrutura para corredores

Apesar de Teresina ser conhecida como a “cidade da corrida”, a capital ainda precisa avançar na estrutura oferecida aos corredores. Para Gerardo Fonseca, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Piauí (CAU-PI), o principal problema está na pouca quantidade de espaços adequados para a prática esportiva, especialmente fora das regiões mais centrais.

Atualmente, as principais vias utilizadas pelos corredores são as avenidas Marechal Castelo Branco, na zona Norte, e Raul Lopes, na zona Leste, ambas às margens do Rio Poti. A primeira oferece sombra durante a manhã, enquanto a segunda apresenta melhores condições no fim da tarde. Outras avenidas, como a Professor Arimateia Santos e a Padre Humberto Pietrogrande, possuem boa extensão e pavimentação, mas ainda carecem de estrutura, como iluminação, segurança e arborização.

“O problema de Teresina é a incidência solar. A Avenida Arimateia Santos é uma avenida perfeita para corredores, mas é insuportavelmente quente, pois não tem vegetação, e à noite continua quente pelo calor que pegou ao longo de todo o dia. As únicas que têm sombreamento são a Marechal e Raul Lopes”, afirma.

Assis Fernandes/ODIA
Gerardo Fonseca, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Piauí (CAU-PI)

Para Gerardo, além de criar novos espaços, é necessário aproveitar melhor os que já existem. Desde 2021, a Avenida Raul Lopes é interditada aos domingos para atividades de lazer. Na Marechal Castelo Branco, uma faixa passou a ser fechada aos sábados pela manhã desde 2024, das 5h às 7h30. O presidente do CAU-PI defende, porém, que o horário seja ampliado.

“A Avenida Marechal Castelo Branco é o único espaço que nós temos uma sombra até umas 10 horas da manhã. Então, a população, a cidade tem a obrigação de ceder esse espaço pra população. Aqui deveria ser fechado até às 11 horas da manhã”, defende.

Segundo ele, a medida poderia beneficiar não apenas corredores, mas também famílias, idosos e praticantes de outras atividades físicas, como ciclismo, caminhada e yoga. A ampliação dos espaços de lazer, especialmente em áreas arborizadas, também contribuiria para tornar a cidade mais preparada para a chamada mobilidade ativa.

“Teresina é uma cidade pensada para o carro, para o automóvel e para a moto, não é pensada para a mobilidade ativa, por exemplo. Nós vemos outras cidades quentes no mundo inteiro que são preparadas para a mobilidade ativa. Teresina não é”, critica o presidente do CAU.

Teresina não tem mapeamento de vias usadas por corredores

Apesar do número de praticantes da corrida de rua ter crescido nos últimos anos, especialmente após a pandemia da covid-19, Teresina não tem acompanhado o ritmo dos corredores. Poucas vias são, de fato, adequadas para a prática da corrida, não somente com relação ao asfaltamento, sinalização e iluminação, mas à própria criação e manutenção desses espaços.

Atualmente, as principais vias utilizadas pelos corredores de Teresina concentram-se na zona Leste (avenidas Raul Lopes, Cajuína, Professor Arimateia Santos), além de alguns atletas que se arriscam em pistas como a Avenida Presidente Kennedy. Porém, que mora nas áreas mais extremas da cidade, sofre com a falta de espaços adequados.

Segundo a Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (Semel), Teresina não possui nenhum levantamento das principais vias utilizadas pelos corredores. Conforme informado à reportagem, o órgão tem pretensões de coletar essas informações, a fim de desenvolver estudos e projetos.

O ODIA ta mbém entrou em contato com as Superintendências de Desenvolvimento Urbano (SDU’s), mas apenas o órgão que atende à região do Centro informou que tem ações voltadas ao aprimoramento dos espaços. A SDU Centro, destacou que os serviços de revitalização na Avenida Marechal Castelo Branco segue avançando, que as intervenções contemplam a recuperação do calçamento, a manutenção dos sistemas de drenagem pluvial e a pintura dos bancos, garantindo mais segurança, conforto e melhor mobilidade para atletas e para toda a população que utiliza a via.