A Polícia Civil do Piauí concluiu que a técnica de enfermagem Auricélia de Sousa Rocha, de 42 anos, premeditou uma falsa gravidez com o objetivo de raptar um recém-nascido na Maternidade Dona Evangelina Rosa, em Teresina. A investigação foi concluída pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), que indiciou a suspeita pelo crime de subtração de criança, previsto no artigo 237 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Segundo o delegado-geral da Polícia Civil, Luccy Keiko, as provas reunidas demonstram de forma inequívoca a autoria da tentativa de subtração da bebê. “Ela, provavelmente, simulou essa gravidez com a intenção de raptar uma criança”, afirmou.
De acordo com o delegado, mais de 20 pessoas foram ouvidas durante a investigação. Além disso, equipes da Polícia Civil realizaram diligências na residência da investigada e encontraram um quarto preparado para receber um bebê do sexo feminino, o mesmo sexo da criança que ela tentou levar. Imagens da maternidade e relatórios de investigação também foram anexados ao inquérito.
“Não há nenhuma dúvida acerca da autoria. A Polícia Civil agiu rapidamente, representou pela prisão preventiva dela e conseguimos efetuar a prisão, impedindo qualquer possibilidade de fuga”, disse.
LEIA TAMBÉM
Falsa gravidez teria começado no final de 2025
Segundo Hugo Alcântara, a investigação aponta que Auricélia iniciou a farsa da gravidez entre os meses de outubro e novembro do ano passado. Ela teria informado familiares, colegas de trabalho e o namorado de que estava grávida e chegou a preparar toda a estrutura para receber a criança.
O delegado explicou que o planejamento ocorreu em duas etapas: primeiro, a simulação da gestação e, depois, a escolha da vítima. “Quando você planeja uma gestação, automaticamente estabelece um prazo máximo. À medida que esse tempo foi passando, chegou o ‘deadline’ dela para executar o plano”, afirmou.
Ainda conforme a investigação, por trabalhar na maternidade, Auricélia tinha acesso ao setor onde nascem diariamente entre 18 e 30 bebês, mas não teria escolhido previamente qual criança seria alvo. “No dia em que estava de plantão, ela subiu até a enfermaria, circulou pelo setor e, naquele momento, decidiu quem seria a vítima. Todo esse contexto indica, de fato, uma premeditação”, destacou.
O delegado também afirmou que a investigada dizia aos colegas que em breve entraria em licença-maternidade e buscava informações sobre o benefício, reforçando a versão de que estava grávida.
Polícia descarta participação de outras pessoas
Questionado sobre a possibilidade de outras pessoas terem participado da ação, Hugo Alcântara afirmou que nenhuma prova aponta para a existência de comparsas. “Nada no inquérito indica a participação de qualquer outra pessoa. A Polícia Civil trabalha com provas e técnica, e não houve qualquer indício, por menor que fosse, da participação de outra pessoa”, declarou.
Motivo do crime permanece desconhecido
Apesar das evidências de planejamento, a motivação do crime ainda não foi esclarecida. Isso porque Auricélia exerceu o direito de permanecer em silêncio durante o interrogatório. “O motivo do crime fica muito na mente do infrator. Como ela optou pelo direito ao silêncio, não conseguimos aprofundar esse aspecto. Qualquer resposta seria mera especulação”, explicou o delegado.
Segundo ele, o namorado da investigada afirmou que ficou feliz ao receber a notícia da suposta gravidez e acreditava que seria o pai da criança.
Polícia afasta hipótese de gravidez psicológica
Durante a coletiva, Hugo Alcântara também descartou que a suspeita tenha agido em razão de uma gravidez psicológica. Segundo ele, embora esse quadro possa provocar sintomas semelhantes aos de uma gestação, a condição costuma ser descartada após exames médicos.
“Ela é técnica de enfermagem, trabalha em um hospital e tem acesso a médicos. O fato de mentir para colegas e familiares sobre onde fazia o pré-natal não é compatível com uma gravidez psicológica. É compatível, sim, com uma premeditação e com a intenção de induzir a família a acreditar na falsa gravidez até o momento em que executasse o crime”, concluiu.
O delegado acrescentou que, diante dos elementos reunidos, a Polícia Civil não pretende solicitar incidente de insanidade mental, uma vez que a investigada exercia normalmente uma função de alta complexidade na UTI infantil e, na avaliação da investigação, demonstrou planejamento e capacidade para executar o crime.