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Malhar Judas, não pegar em dinheiro... Por que tradições da Semana Santa estão desaparecendo?

A Semana Santa é considerada o momento mais importante do calendário litúrgico para milhões de cristãos católicos ao redor do mundo. Mais do que um período religioso, a data reúne história, simbolismo e práticas culturais que atravessaram gerações e ajudaram a moldar costumes em países como o Brasil.

Na tradição oficial da igreja, a programação religiosa começa com a Missa de Ramos, que abre oficialmente a Semana Santa, seguida por celebrações como a Missa dos Santos Óleos, a Missa do Lava-pés e o Tríduo Pascal — período que relembra a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Na Sexta-feira Santa, o jejum e a abstinência de carne vermelha marcam o dia de silêncio e reflexão, enquanto a Vigília Pascal, no sábado, celebra a vitória da vida sobre a morte. Culminando com o Domingo de Páscoa.

Divulgação/Arquidiocese de Teresina

Paralelamente às celebrações litúrgicas do calendário da igreja, o Brasil incorporou ao longo dos séculos uma série de tradições populares. Entre elas, a malhação do Judas, o costume de não varrer a casa ou pegar em dinheiro na Sexta-feira Santa e até restrições mais rígidas, como evitar banho, barulhos ou qualquer atividade considerada “mundana”.

Divulgação
Programação da Semana Santa começa com o Domingo de Ramos

No entanto, práticas que já foram amplamente difundidas hoje parecem cada vez mais raras. Em muitas cidades, especialmente nos centros urbanos, esses costumes vêm desaparecendo — o que levanta uma pergunta: por que essas tradições estão se perdendo?

Tradições que marcaram gerações

A Malhação de Judas, realizada no Sábado de Aleluia, é um dos exemplos mais emblemáticos. A prática consistia na confecção de um boneco que representa Judas Iscariotes, símbolo da traição a Jesus. O boneco é pendurado, espancado e, em alguns casos, queimado, representando uma espécie de “justiça popular”. Trazida pelos portugueses no período colonial, a tradição ainda resiste em algumas regiões, principalmente no Nordeste e em áreas suburbanas. Mas já não é mais tão popular quanto em décadas passadas.

Arquivo / O DIA
Malhar o Judas, uma tradição da Semana Santa que diminuiu com o tempo.

Já na Sexta-feira Santa, diversas crenças orientavam o comportamento dos fiéis. Evitar varrer a casa, lavar roupas ou lidar com dinheiro eram formas simbólicas de respeitar o luto pela morte de Cristo. Havia ainda recomendações como evitar barulho, festas e até banhos em rios. Para muitos, essas práticas iam além da religião e faziam parte de um modo de vida. Hoje em dia, até comércios já abrem na Sexta-feira Santa!

José Cruz/Agência Brasi
Costume da Sexta-feira Santa era de não pegar em dinheiro.

Dona Maria das Mercês, natural de Amarante, relembra com saudade desse período e questiona o enfraquecimento dessas tradições. "Eu sou de Amarante. Meus pais moram lá no interior. No meu tempo, a Semana Santa era uma semana mesmo! De silêncio, de respeito. Trabalhávamos antes para trazer toda a alimentação para aqueles dias. E, principalmente na sexta-feira, você não podia nem sequer tomar banho. Não podia fazer nada! Só finalizava a comida que já deixávamos pronto de um dia para o outro. Não tinha nada de som, era só aquele silêncio mesmo. Bebidas alcoólicas, nem pensar".

Ela conta que tenta manter os costumes vivos dentro da família, apesar das mudanças nas novas gerações.

"Ajeite seu cabelo de noite, porque de manhã só a mãozinha ali ajeitando. E isso, eu conservo ensinei a transmitir para meus filhos tudo o que eu aprendi. Hoje tem deles que colocam em prática, outros não. A tecnologia vai modificando e muita gente se deixa levar por isso, mas eu continuo com os meus propósitos que eu aprendi quando criança: respeitar esse período da Semana Santa".

Assis Fernandes / O DIA
Dona Maria das Mercês busca viver o real sentido da Semana Santa.

Para Dona Maria, o sentido da data também se transformou com o tempo. "Muita gente sai da sua comunidade vai parao interior, mas vai mesmo numa igreja? Muito deles não vão".

Só que, Dona Mercês segue respeitando a Semana Santa e o seu real sentido. "Meu filho perguntou: 'mãe, a senhora vai viajar na Semana Santa. Eu disse: 'vou nada, eu vou ficar na minha comunidade'."

Assis Fernandes / O DIA

Mudança no comportamento e novas tecnologias explicam "perda" das tradições

Para o padre Robert Araújo, o desaparecimento dessas práticas está ligado a transformações profundas na forma como a fé é vivida e transmitida.

"A Igreja respeita, obviamente, porque são práticas da piedade popular. Ou seja, são das pessoas simples, que viram nestas práticas uma forma de se associar ao sacrifício e ao mistério de Cristo. Embora não faça parte do ordinário da Igreja, a igreja vê a sinceridade dessas práticas e acompanha no sentido de que, de algum modo, elas se direcionem para o que é maior que isso: que é o Sacrifício Redentor de Cristo".

Assis Fernandes / O DIA
Padre Robert Araújo

Segundo ele, mudanças culturais observadas nas últimas décadas impactaram diretamente a relação das pessoas com a religião. "A Igreja no Brasil e na América Latina desde uns 20 anos atrás, quando se celebrou a Conferência do Episcopado, ficou mais atenta e tratava sobre isso: sobre a mudança de época, do jeito das pessoas viverem e de viverem e transmitirem a fé. A fé hoje não é mais transmitida como antigamente, ninguém nasce mais como propriamente católico. Não se tem uma cristandade como antigamente".

Nesse contexto, o padre destaca que o enfraquecimento de certas tradições não necessariamente representa perda de fé, mas sim uma transformação na forma de vivê-la.

"Hoje com uma consciência maior, há aqueles que vivendo em comunidade vivendo a fé, vivem esse mistério com mais profundidade mais do que a 'tradição pela tradição' sem um sentido do que vivem".

Assis Fernandes / O DIA
Igreja cobre imagens durante a Semana Santa

"Podemos entender como uma mudança no comportamento humano e por isso, talvez, algumas coisas vão se perdendo. Por exemplo: a malhação do Judas, não pegar em dinheiro, ou não varrer a casa, ficou como uma coisa dos mais antigos. E as novas gerações enxergam isso de um forma diferente, talvez não faça sentido para elas. O que não significa dizer que essas tradições não sendo cumpridas, não significa falta de fé. Talvez estejam descobrindo novos jeitos de viver a fé".

Entre memória, tradição e transformação, a Semana Santa segue como um dos períodos mais simbólicos do calendário cristão — ainda que, para muitos, seus significados estejam sendo ressignificados com o passar do tempo.


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