A Justiça Eleitoral condenou a vereadora Tatiana Teixeira Medeiros (PSB), seu companheiro Alandilson Passos e diversos familiares e colaboradores por participação em um esquema que envolvia organização criminosa, corrupção eleitoral e outros crimes nas eleições de 2024. As investigações apontaram a atuação estruturada de um grupo que utilizava uma ONG como instrumento para captação e controle de votos.
A seguir, veja os principais pontos da decisão e as penas aplicadas aos parentes da agora ex-vereadora.
Maria Odélia de Aguiar Medeiros (mãe)
- Função: articuladora política e coordenadora do Instituto Vamos Juntos
- Atuação: recrutamento de eleitores e monitoramento de votos
- Crimes:
- Organização criminosa
- Corrupção eleitoral
- Apropriação indébita
- Lavagem de dinheiro
- Pena: 14 anos, 2 meses e 5 dias de reclusão + 58 dias-multa
Stênio Ferreira Santos (padrasto)
- Função: operador financeiro da organização
- Atuação: saques, repasses, intermediações e apoio à base política
- Crimes:
- Organização criminosa
- Corrupção eleitoral
- Violação do sigilo do voto
- Apropriação indébita
- Usura
- Peculato
- Lavagem de dinheiro
- Pena:
- 13 anos, 11 meses e 26 dias de reclusão, com 6 anos, 2 meses e 5 dias de detenção e 291 dias-multa
Bianca dos Santos Teixeira Medeiros (irmã)
- Função: intermediadora de pagamentos
- Atuação: apoio na operacionalização financeira das atividades ilícitas
- Crimes:
- Organização criminosa
- Corrupção eleitoral
- Pena: 7 anos, 9 meses e 26 dias de reclusão + 70 dias-multa
Emanuelly Pinho de Melo (assessora)
- Função: assessora parlamentar e colaboradora da ONG
- Atuação:
- Cadastro de famílias
- Intermediação de pagamentos por votos
- Organização de agenda e controle eleitoral
- Crimes:
- Organização criminosa
- Corrupção eleitoral
- Pena: 7 anos, 9 meses e 26 dias de reclusão + 202 dias-multa
Bruna Raquel Lima Sousa (funcionária da ONG)
- Função: gestão administrativa e cadastro de beneficiários
- Atuação: controle de votos vinculados à ONG
- Crimes:
- Organização criminosa
- Corrupção eleitoral
- Pena: 6 anos, 11 meses e 30 dias de reclusão + 22 dias-multa
Sávio de Carvalho França (funcionário da ONG)
- Função: controle administrativo e eleitoral
- Atuação: cadastro de famílias e controle de votos
- Crimes:
- Organização criminosa
- Corrupção eleitoral
- Pena: 9 anos, 5 meses e 27 dias de reclusão + 30 dias-multa
Ao todo, nove réus foram julgados no processo. Tatiana Teixeira Medeiros (PSB) terá que cumprir uma pena de 19 anos, 10 meses e 7 dias de prisão, além de 492 dias-multa, a parlamentar ainda terá a obrigação de pagamento solidário de R$ 1 milhão por danos à coletividade. Já o namorado da vereadora, Alandilson Cardoso Passos, foi condenado pela Justiça Eleitoral a 17 anos, nove meses e cinco dias de reclusão, com início da pena em regime fechado.
Apontado como um dos líderes do esquema, ao lado da parlamentar, ele responde pelos crimes de organização criminosa, corrupção eleitoral, usura, violação de sigilo de voto e lavagem de dinheiro. A decisão ainda prevê sete anos, dois meses e 23 dias de detenção, mais 471 dias-multa.
A origem das investigações e o início das prisões
Tudo começou em novembro de 2024, menos de um mês depois de Tatiana ser eleita vereadora de Teresina com 2.925 votos, pelo quociente partidário do PSB. No dia 14 daquele mês, Alandilson Cardoso Passos foi preso em Belo Horizonte, durante operação conjunta da Polícia Civil do Piauí e da Polícia Federal, a Operação DENARC 64. A prisão aconteceu em um hotel na capital mineira, e Tatiana estava no mesmo local. À época, ela disse que acompanhava o namorado em uma viagem de descanso após a campanha eleitoral.
Alandilson já acumulava passagens por tráfico de drogas e roubo qualificado. Apesar de não ter vínculo formal de emprego registrado, ele mantinha um padrão de vida elevado. A investigação apontava seu envolvimento direto no braço financeiro do Bonde dos 40, facção que teria movimentado cerca de R$ 2 bilhões por meio de empresas de fachada, como revendas de veículos.
Em dezembro de 2024, a PF deflagrou a primeira fase da Operação Escudo Eleitoral e realizou buscas na sede do Instituto Vamos Juntos, ONG fundada pela então vereadora, voltada para ações sociais em comunidades da zona Norte de Teresina. Na ocasião, foram apreendidos R$ 100 mil em espécie. A investigação passou a apurar se o instituto havia sido usado para lavar recursos da facção e financiar a campanha de Tatiana. Havia indícios, segundo a PF, de que integrantes do Bonde dos 40 coagiriam eleitores em comunidades dominadas pelo grupo, como o bairro Olaria, onde a ONG estava instalada.
Em março de 2025, antes mesmo da prisão, o PSB já havia afastado Tatiana da função de secretária-geral do partido em Teresina. A vereadora reagiu afirmando publicamente que estava sendo perseguida.
Na manhã de 3 de abril de 2025, agentes da PF chegaram em um condomínio, no bairro Jóquei Clube, zona leste de Teresina, e prenderam Tatiana Medeiros. Era a segunda fase da Operação Escudo Eleitoral. Ao todo, foram cumpridos oito mandados judiciais, sendo três de afastamento de função pública, incluindo o cargo de vereadora e cargos em comissão na Câmara Municipal, na Assembleia Legislativa e na Secretaria de Saúde do Estado.
No dia 4 de abril, a prisão cautelar foi confirmada pelo juiz Luís Henrique Moreira Rego em audiência de custódia no plenário do TRE-PI. Tatiana foi encaminhada para uma sala especial no Quartel do Comando-Geral da Polícia Militar do Piauí, onde permaneceu presa em regime fechado. O TRE-PI posteriormente negou o pedido de habeas corpus impetrado pela defesa e manteve a prisão preventiva por maioria de votos.
Nos meses seguintes no quartel a Polícia Federal apurou que, durante o período de detenção, Tatiana fez ligações para Alandilson, que estava preso, e chegou a pesquisar passagens aéreas. Um tablet foi encontrado com ela durante uma vistoria, e a mãe da vereadora admitiu ter levado um celular para a filha na unidade. O suplente Leônidas Júnior (PSB) assumiu a vaga na Câmara Municipal de Teresina. A Câmara, após consulta ao Tribunal de Contas do Estado, decidiu manter o pagamento do salário de R$ 24 mil mensais mesmo com a vereadora afastada do cargo, entendendo que não havia condenação transitada em julgado.
Tatiana chegou a passar mal dentro do quartel e precisou ser internada no Hospital de Urgência de Teresina e no Hospital da Polícia Militar. Em junho de 2025, laudo médico atestou quadro psiquiátrico que motivou a conversão da prisão preventiva em domiciliar. A juíza Júnia Feitosa, que havia assumido o caso após o afastamento da juíza anterior por motivos de foro íntimo, autorizou a medida em 3 de junho, impondo também o uso de tornozeleira eletrônica, o afastamento do mandato e a proibição de acesso às dependências da Câmara e de contato com servidores da Casa.
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