Ferro de passar roupa à brasa, sanduicheira de ferro para fogão, lamparina, lampião a querosene, filtro de barro, cadeira de espaguete. Certamente, muitos desses objetos já fizeram parte da rotina de milhares de pessoas e marcaram gerações. Comuns nas casas dos avós e de parentes mais antigos, eles perderam espaço com a chegada de produtos mais modernos e tecnológicos. Ainda assim, continuam despertando interesse, seja pela funcionalidade, pela qualidade ou pelo valor afetivo que carregam.
Em Teresina, um dos lugares onde essa memória permanece viva é o Mercado Central São José, mais conhecido como Mercado Velho. Entre corredores repletos de histórias, comerciantes mantêm à venda itens considerados raridades para muitos consumidores, mas que continuam fazendo parte do dia a dia de outras famílias.
A comerciante Socorro Brito conhece bem essa realidade. Ela administra uma loja de utilidades herdada do pai, que iniciou o negócio em 1958. Há mais de quatro décadas à frente do estabelecimento, acompanha a procura constante por objetos que atravessaram gerações.
“Meu pai começou aqui em 1958. Ele faleceu e, quem está continuando, sou eu. Há muitos itens antigos que até hoje têm procura. Alguns, a demanda nunca diminuiu; pelo contrário, aumentou”, conta.
Entre os produtos mais procurados está o tradicional ferro de passar à brasa. Embora tenha sido substituído, na maioria das casas, pelo modelo elétrico, ele ainda desperta interesse. O mesmo acontece com peças esmaltadas, como bules, pratos e canecas, que continuam conquistando consumidores.
Outro utensílio que resiste ao tempo é a sanduicheira de ferro para fogão. Mesmo com a praticidade das versões elétricas, muitas pessoas têm voltado ao modelo tradicional. “Tem gente trocando a sanduicheira elétrica pela manual. Eu mesma troquei a minha elétrica e só uso essa. O gosto do sanduíche fica muito melhor”, comenta Socorro.
Na loja também chamam atenção as antigas frigideiras de ferro com divisórias para preparar três ou quatro ovos ao mesmo tempo. Além dos ovos, elas também podem ser utilizadas para fazer pão de queijo. Já os moedores de carne e de cereais seguem indispensáveis para quem prefere preparar alimentos frescos em casa. Segundo dona Socorro, ainda há pessoas que gostam de moer o milho e fazer o cuscuz ou a canjica.
A comerciante explica que muitos consumidores seguem utilizando esses utensílios diariamente, enquanto outros os compram para preservar lembranças da família. “Muitas pessoas têm esses itens em casa e usam no dia a dia. Outros guardam como uma forma de lembrança, porque eram do pai ou da mãe. Recentemente, um cliente veio comprar um ferro de passar à brasa. Talvez algumas pessoas utilizem esses itens hoje como forma de economizar energia elétrica”, relata.
Para Michele Xavier, filha de Socorro, os produtos vendidos na loja representam muito mais do que objetos domésticos. Psicóloga de formação, ela deixou a profissão para ajudar a mãe a dar continuidade ao negócio da família.
“Não é simplesmente a venda de um produto. Ao vender um item, estamos revivendo histórias. É impressionante. As pessoas veem um objeto e chegam a chorar, contam histórias. Muitos clientes nossos são netos dos clientes antigos que tínhamos. E, assim, vamos mantendo a história e a amizade”, afirma.
Há mais de 30 anos trabalhando no Mercado Central, o comerciante Zé Maguin também é uma testemunha dessa evolução do tempo, da memória e das mudanças no modo de consumo da população. Entre os produtos mais curiosos que vende estão a baladeira e a ratoeira.
“Hoje, a baladeira tornou-se mais um souvenir. Os pais compram para que as crianças brinquem e não fiquem muito tempo no celular. Já as escolas usam mais como figurino, quando os meninos se vestem de Pedrinho, do Sítio do Picapau Amarelo. Já as ratoeiras, essas nunca deixaram de ser comprada”, explica.
Os tradicionais filtros de barro também seguem presentes em muitas casas piauienses. A vendedora Márcia Regina conta que, na casa dela, o modelo continua sendo o preferido, especialmente por sua mãe, que não troca esse filtro clássico por outro mais moderno.
“Muitas pessoas estão deixando de usar os filtros de plástico e trocando pelo de barro. Minha mãe é uma delas. Eu comprei um de plástico e ela pediu para tirar. Disse que não troca nenhum pelo de barro. Ela diz que o de barro é mais saudável, por causa da vela de carvão. Trocamos a vela a cada três meses, para que a água fique pura”, conta.
Raimundo Nonato trabalha há mais de três décadas vendendo móveis e garante que a tradicional cadeira de espaguete continua conquistando consumidores. Embora tenha ganhado versões mais modernas, o modelo clássico ainda é o favorito.
“As pessoas ainda compram cadeiras de espaguete. Até diminuiu um pouco as vendas, mas sempre tem gente procurando. Elas são confortáveis, principalmente os modelos mais tradicionais”, afirma. Além delas, os cabideiros de madeira, tanto de parede quanto de chão, também continuam entre os itens procurados por quem prefere móveis duráveis e com um toque de nostalgia.