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Falta de espaços de lazer limita opções para crianças em Teresina

Teresina tem mais de 270 praças espalhadas por seus 123 bairros. Espaços que poderiam ser utilizados para a prática de esportes e atividades de lazer, mas que, em muitos casos, estão abandonados e pouco oferecem recursos para a diversão, especialmente das crianças. Os poucos equipamentos que ainda resistem ao tempo e à falta de manutenção servem apenas para mostrar que, ali, já existiu um espaço destinado à brincadeira e à ludicidade.

Na capital, são mais de 77 mil crianças com idade entre 0 e 6 anos. O número representa 8,52% da população total de Teresina, estimada em 905.692 habitantes, segundo dados do Comitê de Gestão de Indicadores (CGI) Demográfico de 2025. São milhares de crianças que poderiam aproveitar áreas verdes e espaços públicos para brincar, praticar esportes e interagir com outras crianças, caso esses locais oferecessem estrutura adequada.

Uma dessas áreas é a Praça da Integração, localizada no Complexo de Esporte e Lazer do Parque Piauí, na zona Sul de Teresina. Apesar de ser um espaço destinado à convivência da comunidade, o local atualmente não oferece estrutura adequada para as crianças do bairro.

Pais, mães e responsáveis precisam se desdobrar para oferecer alguma diversão aos pequenos. As famílias que levam filhos e netos para brincar no Complexo do Parque Piauí precisam redobrar a atenção durante as brincadeiras para evitar acidentes.

“As crianças querem brincar, mas não têm onde, pois não têm playground. O piso está todo danificado, então as crianças não podem correr. Além disso, é muito quente, pois faltam árvores, que morreram e precisaram ser cortadas, e as poucas que ainda resistem estão com pragas, cupins ou secando, pois não são regadas. Quer dizer, é um espaço de esporte e lazer que não dá para ser utilizado, pois não tem estrutura”, explica a moradora Elenilda Ferreira, que vive no bairro Parque Piauí há 30 anos.

Assis Fernandes/ODIA
No Complexo de esporte e lazer do Parque Piauí, zona Sul, os espaços estão depredados e não há playground para as crianças do bairro

A situação encontrada no Parque Piauí se repete em outras praças e parques da capital. Na zona Norte, um dos espaços conhecidos pela população é a Praça da Telemar, no bairro Mocambinho. No local, há um playground construído com pneus, uma alternativa sustentável e ecológica que, atualmente, apresenta sinais de deterioração e pode representar riscos para as crianças.

Muitos pneus estão velhos e precisam ser substituídos. Dagmar Sousa, que trabalha em uma banca de registro no local há mais de 30 anos, conta que a praça passou por uma ampla reforma em 2024, quando o playground foi entregue. Segundo ela, porém, os brinquedos nunca receberam manutenção desde a inauguração.

“O play foi entregue e nunca teve manutenção da Prefeitura. Nunca teve mais nada. Aquilo lá está tudo destruído. O mesmo acontece na Lagoa do Mocambinho. Os brinquedos lá também estão todos quebrados, e os de lá são feitos de madeira, o que necessita de mais atenção”, comenta.

Para a moradora, além da criação de novos espaços, é necessário preservar aqueles que já existem. Ela destaca que o brincar é fundamental para estimular a criatividade, a ludicidade e a interação social das crianças.

“A Prefeitura tem que cuidar dos espaços para as crianças, pois as mães levam as crianças para os parques e, se não tem brinquedos, elas vão brincar com o quê? Os brinquedos precisam ser totalmente retirados, não tem com o que fazer. Todos os espaços públicos onde havia algum playground para criança não existem mais. Se a criança não tiver sua própria bicicleta, um patinete ou outra coisa, ela não brinca. As crianças estão ficando cada vez mais na frente das telas porque não têm opção de lugar para brincar”, enfatiza.

Reprodução
Os brinquedos localizado na Praça da Telemar, no Mocambinho, estão todos quebrados

A comerciante Deusa Barbosa trabalha em um quiosque na praça há 12 anos. Ela comenta que a falta de manutenção dos brinquedos é fundamental, mas também responsabiliza a população pelo mau-uso.

“As próprias crianças quebram os brinquedos e as mães não orientam para que as crianças brinquem sem quebrar. A população não cuida, por isso que não tem brinquedo. A prefeitura precisa fazer a parte dela, que é a manutenção, mas as pessoas também precisam cuidar e não quebrar”, enfatiza a moradora.

Lazer precisa ser prioridade para crianças e para a população

Para o advogado Zorbba Igreja, a falta de manutenção dos espaços públicos de lazer também acaba afastando as famílias. Pai de um menino de seis anos, ele costumava levar o filho ao Parque da Criança, na zona Leste de Teresina, mas deixou de frequentar o local após encontrar brinquedos quebrados, falta de segurança e sinais de abandono.

“Eu tenho um filho de seis anos de idade e a gente sempre busca fazer atividades, em parques e outras atividades que são destinadas à criança nos espaços públicos da cidade. E, dentre eles, eu levava costumeiramente no Parque das Crianças. Só que, na última vez que eu fui ao Parque das Crianças, encontrei uma situação de falta de manutenção, brinquedos quebrados, alguns que põem em risco a própria segurança da criança e falta de segurança também. A impressão que dava é que realmente o parque estava abandonado”, relata.

Segundo Zorbba, anteriormente o espaço oferecia brinquedos de madeira, trilhas, limpeza e segurança, mas a realidade encontrada recentemente foi diferente. Em sua última ida, o local está com bastante lixo, banheiros sujos e sem segurança.

O advogado cita que um dos parques mais centrais de Teresina, e muito utilizado pelas famílias, é o Parque da Cidadania, localizado na Avenida Frei Serafim. Entretanto, o local também tem deixado a desejar, pois tem enfrentado problemas de manutenção. Segundo ele, “os brinquedos também foram retirados do Parque da Cidadania. Não há mais os brinquedos de madeira no meio, que as crianças podiam brincar, uma casinha para subir, um balanço. Não há mais. Agora é só o espaço de andar mesmo e sentar na grama”, comenta.

Assis Fernandes/ODIA
O Parque das Crianças, na zona Leste de Teresina, está sem estrutura e segurança para receber as famílias

A falta de espaços públicos estruturados dificulta, inclusive, um dos temas mais abordados e recomendados da atualidade: a redução do tempo que as crianças permanecem diante das telas e mais estímulos para a prática de atividades ao ar livre.

“A gente não tem um projeto urbanístico de ocupação dessas áreas. A gente teve há alguns anos uma criação de parques, como do Lourival Parente, que chamou as pessoas para a rua, a revitalização da Nova Potycabana. Mas, desde esse momento para cá, não tivemos novos espaços sendo criados. E a manutenção desses espaços tem sido cada vez mais precária”, avalia, acrescentando que o lazer deveria ser tratado como uma política pública essencial e distribuída pelos diferentes bairros da capital, especialmente nas regiões mais afastadas.

Na avaliação de Zorbba Igreja, investir em esporte, cultura e lazer também significa investir em saúde e segurança e critica a concentração dos espaços de lazer em determinadas regiões da cidade.

“O investimento que eu faço no esporte, na cultura, no lazer, ele retorna lá na frente, tanto em saúde, não vai virar uma criança ansiosa, e de segurança, porque essa criança está direcionada, não vai ser vulnerável para ser captada pelo crime, por exemplo, porque ela tem uma atividade. Somos uma cidade com 900 mil habitantes e temos basicamente três lugares de lazer para todos esses habitantes, e que são praticamente inacessíveis para 90% da população por conta da distância. Então, é bem complicado”, conclui.

Contato com o ar livre é fundamental para o desenvolvimento infantil

Muito além da diversão, os espaços destinados ao lazer infantil desempenham um papel importante no desenvolvimento das crianças. É nesses ambientes que elas podem correr, pular, explorar, interagir e experimentar situações que contribuem para diferentes áreas da aprendizagem.

Segundo a psicopedagoga Wall Alves, o contato com ambientes ao ar livre é fundamental para o desenvolvimento infantil, especialmente através das funções que envolvem o contexto emocional e criativo da criança. Ao explorar um parque ou uma praça, a criança movimenta o corpo e desenvolve habilidades que ultrapassam o aspecto físico.

Quando a criança corre, por exemplo, pula, sobe, equilibra-se, ela explora esse ambiente. E, a partir desse explorar, ela também vai desenvolver as funções cognitivas, como a coordenação motora, a percepção espacial, a atenção, a autonomia

Wall Alvespsicopedagoga

O brincar também permite que a criança enfrente pequenos desafios e encontre maneiras de solucioná-los. As brincadeiras tendem a proporcionar experiências que vão ajudar essa criança a aprender sobre o seu próprio corpo e também enfrentar os desafios. A partir desse enfrentamento, ela aprenderá como resolver resoluções, desenvolvendo as funções que envolvem o raciocínio cognitivo.

A psicopedagoga explica ainda que habilidades desenvolvidas durante as brincadeiras podem contribuir posteriormente para processos como leitura e escrita. Ela reforça que parques e praças também são espaços de socialização e que, ao brincar com outras crianças, os pequenos aprendem a compartilhar, esperar a vez e estabelecer relações.

“São funções que vão contribuir para a leitura, para a escrita, porque quando a criança vai desenvolver os movimentos, por exemplo, para entender o que é direita, o que é esquerda, onde ela vai compreender, onde a imagem se finaliza, esses movimentos iniciais começam a partir do brincar. Quando a gente pensa em uma praça ou um parque, não é apenas um lugar de lazer, eles também são um ambiente de desenvolvimento”, afirma.

Democratização do acesso ao lazer

Para a psicopedagoga Wall Alves, garantir esses espaços públicos também significa democratizar o acesso ao lazer, já que nem todas as famílias têm condições financeiras de frequentar ambientes particulares. Ela destaca que os benefícios não se limitam às crianças e cita que, quando pais e filhos compartilham momentos de lazer, fortalecem os vínculos e constroem memórias afetivas.

“Teresina precisa mais desses espaços públicos para as crianças, porque, a partir desses espaços, ela vai também permitindo que a criança tenha esse acesso, pois muitas famílias que não têm condição de ir para lugares onde precisa pagar. E, a partir do momento que a nossa cidade dispõe desses espaços, isso se torna também um ambiente democrático. A família passa a ter um tempo de qualidade com os filhos, e podemos denominar esse tempo como o momento de gerar memórias afetivas, onde essa família gera suas memórias nos seus filhos. Então são memórias essas que vão favorecer esse vínculo, esse reconhecimento de tempo de qualidade dos seus pais”, conclui.

O que diz a Semel

A Prefeitura de Teresina, por meio da SEMEL, vem trabalhando para recuperar e melhorar os equipamentos esportivos que estão sob responsabilidade da Secretaria. Existe uma preocupação da gestão do prefeito Dr. Silvio Mendes em devolver esses espaços à população com melhores condições de uso, segurança e estrutura para as famílias.

Hoje temos algumas frentes importantes. O Complexo Esportivo Parentão já possui projeto de revitalização e está na fase de pesquisa de preços para posterior licitação. O mesmo ocorre com o Planalto Uruguai, cujo projeto também está avançando nos procedimentos necessários para licitação.

No Parque Piauí, nossa equipe já realizou visita técnica e vistoria para identificar as necessidades de reforma. No Bela Vista, temos um projeto de complexo esportivo em fase de reajuste, com previsão de execução por meio de emenda parlamentar. Temos ainda o Complexo Esportivo do São Joaquim entre os equipamentos acompanhados pela Secretaria.

Já o Complexo próximo ao Escolão do Mocambinho está passando por reforma, demonstrando, na prática, o compromisso da Prefeitura com a recuperação dos espaços esportivos da cidade.

É um trabalho que exige planejamento, levantamento técnico e o cumprimento de todas as etapas administrativas, mas a orientação da gestão é avançar na recuperação desses equipamentos e proporcionar espaços cada vez melhores para a prática esportiva, o lazer e a convivência das famílias teresinenses.

Também é importante esclarecer que nem todas as áreas de lazer e playgrounds de Teresina são de responsabilidade da SEMEL. No que compete à Secretaria, estamos trabalhando para identificar as necessidades e buscar as soluções necessárias.