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Árvores centenárias de Teresina cumprem funções ambientais e ajudam a contar a história da capital

Por muitas décadas, Teresina ostentou o título de cidade verde, nomenclatura dada pelo poeta maranhense Coelho Neto, ainda em 1899. Porém, com o avançar dos anos, crescimento populacional, urbanização e outros elementos urbanísticos, as imensas áreas arborizadas foram sendo gradativamente desmatadas. Hoje, a capital piauiense não ostenta mais esse título, em contrapartida, segue liderando entre as capitais mais quentes do país.

Teresina cresceu partindo do centro, onde se concentram as principais praças com maiores áreas verdes da cidade. As ruas ao redor também carregam um pouco dessa extensão arbórea, com árvores frondosas podendo ser vistas a metros de distância. Há poucos dias, três importantes personagens foram cortadas. Oitizeiros centenários foram retirados após solicitação do proprietário do imóvel. Segundo a Secretaria Municipal de Defesa Civil (Semdef), a medida foi adotada devido ao risco que as árvores representavam para moradores, pedestres e edificações próximas.

Assis Fernandes/ODIA
Árvores centenárias de Teresina cumprem funções ambientais e ajudam a contar a história da capital

Mas a supressão dessas árvores vai além do corte. Ela chama atenção para o cuidado e a preservação das áreas centenárias de Teresina. Ainda que uma nova planta seja colocada no local, ela pode levar até 30 anos para oferecer o mesmo potencial que a anterior, além de precisar resistir às intempéries como poluição, crescimento urbanístico, depredação, entre outras condições adversas.

Para o ambientalista Ribamar Rocha, as árvores de grande porte exercem funções que vão muito além da ornamentação. Em uma cidade marcada pelas altas temperaturas, como Teresina, elas contribuem diretamente para o conforto térmico.

“Uma árvore dessa, geralmente, tem um grande porte. Ela tem papel ecoambiental muito grande em relação ao clima, ao conforto térmico. Uma árvore dessas diminui a temperatura em até 4ºC. Além disso, elas também combatem a poluição sonora, especialmente quando tem muito trânsito e também estão relacionadas com a qualidade do ar, pois ajuda a despoluirr”, afirma.

Assis Fernandes/ODIA
Árvores centenárias de Teresina cumprem funções ambientais e ajudam a contar a história da capital

O ambientalista destaca ainda que a arborização contribui para a umidificação do ambiente e para a biodiversidade, já que árvores de grande porte servem de abrigo para pássaros e outros animais. Mas os benefícios ambientais não são os únicos motivos para preservar exemplares centenários.

Para Ribamar, essas árvores também funcionam como testemunhas da transformação da capital. Por isso, a retirada de um exemplar centenário representa uma perda que não pode ser recuperada.

“Elas contam a história da cidade. Estão ali há muito tempo, houve transformações locais e elas estão testemunhando essas transformações. Então, constituem uma parte do sentido natural da cidade. Cortando-se essa árvore, vai ter todo o prejuízo ambiental do serviço que ela fazia. O testemunho histórico que foi tirado não se recupera mais. A identidade daquela região, que aquela árvore trazia, também vai ser perdida”, afirma, acrescentando que muitas dessas árvores também carregam memórias afetivas de moradores que convivem com elas há décadas.

Diante dos prejuízos, segundo Ribamar Rocha, reforça a necessidade de políticas específicas para proteger e manejar árvores centenárias. Ele destaca que Teresina ainda não possui uma legislação própria voltada exclusivamente para esses exemplares e defende que o planejamento da arborização urbana contemple medidas de preservação, manutenção e reposição imediata quando uma árvore precisar ser retirada.

É importante que elas sejam cuidadas para que não ocorra esse tipo de situação, como infestação de cupim e galhos apodrecidos. E, quando uma árvore dessas for retirada, que seja reposta imediatamente. Essa outra árvore vai enfrentar todas as condições adversas e, até atingir os serviços ambientais que a árvore anterior fornecia para aquele local, vai levar em torno de 40 anos. Isso se ela sobreviver

Ribamar Rochaambientalista

Para o ambientalista, a população também tem papel importante nesse processo. Cuidar das mudas, garantir irrigação, evitar podas sem autorização e denunciar supressões irregulares são algumas das formas de contribuir para a preservação.

Monitoramento busca preservar árvores e evitar cortes irregulares

O poder público também mantém ações de monitoramento para identificar árvores que apresentam problemas fitossanitários, risco de queda ou conflitos com a infraestrutura urbana. Segundo Anderson Costa, analista ambiental da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semam), o corte só deve ocorrer após avaliação técnica que identifique a necessidade da supressão.

“Nós fazemos um levantamento das árvores que estão com problemas fitossanitários, com brocas, cupins e algumas pragas. Primeiro é feita a identificação do tipo de problema e, depois, as tratativas para tentar mitigar ou remediar essas condições. No último caso, quando a árvore já está bastante comprometida ou até morta, é feita a supressão”, explica.

Assis Fernandes/ODIA
Anderson Costa, analista ambiental da Semam

O trabalho também envolve árvores consideradas patrimônio da cidade. Segundo Anderson, cerca de 90% desses exemplares estão concentrados na região central, especialmente em praças e na Avenida Frei Serafim. Ele enfatiza que qualquer intervenção que houver nelas é preciso ter uma anuência ou uma manifestação prévia da Semam.

Em caso de uma árvore localizada em calçada ou terreno que apresente risco ou conflito com a infraestrutura, o proprietário deve solicitar uma avaliação da secretaria. Após a vistoria, são analisadas evidências objetivas de risco e definido o procedimento adequado, que pode incluir poda de adequação, limpeza fitossanitária, levantamento ou, em casos mais graves, a supressão.

Assis Fernandes/ODIA
Árvores centenárias de Teresina cumprem funções ambientais e ajudam a contar a história da capital

O analista reforça que cortes e podas realizados sem autorização podem gerar sanções. “Corte de árvores sem autorização, corte irregular ou inadequado, como podas drásticas, quando você compromete acima de 30% da copa da árvore, é crime ambiental, passível de sanções”, afirma.

Atualmente, um projeto de lei que institui o Plano Diretor de Arborização Urbana tramita na Câmara Municipal de Teresina. A proposta prevê regras para corte, poda e supressão de árvores, além de multas que podem variar de R$ 500 a R$ 5 mil, conforme a gravidade e a intencionalidade da infração.

Assis Fernandes/ODIA
Árvores centenárias de Teresina cumprem funções ambientais e ajudam a contar a história da capital

Para Anderson, preservar as árvores centenárias significa proteger não apenas o meio ambiente, mas também a memória da capital. “É de fundamental importância a preservação dessas árvores. Não só pelas funções ecossistêmicas que a árvore oferece, sombra, purificação do ar e ajuda a filtrar o solo, mas também pelo histórico”, conclui o analista ambiental da Semam.