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Tradição de origem africana de mais de 200 anos em Oeiras pode virar Patrimônio Imaterial do Piauí

O Congos de Oeiras, manifestação cultural de origem africana com mais de dois séculos de existência na primeira capital do Piauí, pode ser reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do estado e incluído no calendário oficial de eventos piauienses. A proposta é de autoria do deputado estadual Marcus Kalume (PT) e busca preservar uma tradição mantida por moradores do bairro do Rosário, na antiga Vila da Mocha, no sul do estado.

Sesc Piauí
O Congos de Oeiras, tradição resiste há mais de dois séculos no Piauí.

A Dança dos Congos foi trazida para Oeiras no século XVIII por negros vindos do Pará, que acompanharam o então governador da Província, João Pereira Caldas. A manifestação é marcada pelo louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, santos de forte devoção entre os escravizados, e já é reconhecida como Patrimônio Vivo do Piauí. Em 2025, o grupo ganhou projeção nacional ao participar de um dos maiores festivais de folclore do país, realizado em Olímpia, no interior de São Paulo.

Apesar da longa trajetória, a tradição passou por um período de esquecimento a partir de 1942, sendo retomada apenas em 1978, quando o padre João de Deus reuniu moradores do bairro do Rosário para resgatar a manifestação cultural. Desde então, os Congos voltaram a se apresentar de forma contínua, mantendo viva uma herança transmitida entre gerações.

As apresentações ocorrem, tradicionalmente, durante as festas de Nossa Senhora do Rosário, celebrada em 31 de outubro, e de São Benedito, em 6 de janeiro. Os brincantes utilizam saias rodadas e executam danças ao som de instrumentos de percussão, com toadas que variam entre cantos de lamento e ritmos mais animados. Um dos traços singulares da manifestação é o fato de ser composta apenas por homens, que se vestem de mulheres como forma de devoção às santidades, mantendo a tradição no âmbito familiar, de pai para filho.

Thiago Amaral/Ascom Alepi
Deputado Marcus Kalume (PT), é o autor da proposta.

O uso de santos católicos na celebração está ligado ao sincretismo religioso, prática adotada durante o período imperial e escravocrata, quando expressões culturais e religiosas de origem africana eram reprimidas. Como forma de resistência, negros e negras passaram a associar suas devoções às figuras do catolicismo, garantindo a sobrevivência de seus ritos e manifestações.

Ao justificar o projeto, o deputado Marcus Kalume destacou a relevância histórica e cultural do grupo para Oeiras e para o Piauí. “Os Congos de Oeiras configuram-se como uma das mais autênticas manifestações do Patrimônio Imaterial do povo oeirense e, por conseguinte, do povo do Estado do Piauí, merecendo o devido reconhecimento por parte do Poder Público Estadual”, disse.

A medida ainda deve ser discutida nas Comissões da Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi), se aprovada pelos parlamentares, segue para a sanção do governador Rafael Fonteles (PT).


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