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Tatiana Medeiros é condenada a 19 anos de prisão e perde o mandato como vereadora

A Justiça Eleitoral condenou a vereadora Tatiana Teixeira Medeiros (PSB) a uma pena de 19 anos, 10 meses e 7 dias de prisão, além de 492 dias-multa, a parlamentar ainda terá a obrigação de pagamento solidário de R$ 1 milhão por danos à coletividade. A sentença vem pouco mais de um ano após a prisão da parlamentar, ocorrida em 3 de abril de 2025, durante a segunda fase da Operação Escudo Eleitoral, da Polícia Federal. Com a sentença Tatiana Medeiros perde o mandato e está proibida de exercer qualquer função pública. A defesa da vereadora, o Adv. Edson Araújo confirmou ao Portal O Dia que irá recorrer da decisão.

Reprodução
A parlamentar está presa desde o dia 3 de abril de 2025 após operação Escudo Eleitoral II, deflagrada pela Polícia Federal..

A sentença aponta que Tatiana liderou uma organização criminosa voltada à captação ilícita de votos nas eleições municipais de 2024, utilizando o Instituto Vamos Juntos como fachada para o cadastramento irregular de eleitores, aliciamento e controle de votos mediante distribuição sistemática de vantagens indevidas, como transferências via Pix, promessas de emprego e cestas básicas.

A juíza identificou grave irregularidade financeira na ONG, que registrou crescimento de 1.180,39% na emissão de notas fiscais no ano eleitoral. Dos R$ 411.753,71 que ingressaram nas contas da entidade entre 2023 e 2024, apenas R$ 71.115,03 possuíam lastro fiscal. Durante buscas na sede da ONG e na residência da mãe de Tatiana, foram encontradas fichas com dados de eleitores, anotações de quantidade de votos e chaves Pix.

A decisão reconheceu que Tatiana detinha o domínio do fato, coordenando uma rede com divisão clara de tarefas. As transferências via Pix ocorriam mediante autorização, comando ou envio prévio de listas de nomes pela candidata, com listas elaboradas com a participação de Bruna, Sávio e Emanuelly. A vereadora foi condenada pela prática de 95 vezes o crime de corrupção eleitoral, em continuidade delitiva.

A origem do caso

Tudo começou em novembro de 2024, menos de um mês depois de Tatiana ser eleita vereadora de Teresina com 2.925 votos, pelo quociente partidário do PSB. No dia 14 daquele mês, Alandilson Cardoso Passos foi preso em Belo Horizonte, durante operação conjunta da Polícia Civil do Piauí e da Polícia Federal, a Operação DENARC 64. A prisão aconteceu em um hotel na capital mineira, e Tatiana estava no mesmo local. À época, ela disse que acompanhava o namorado em uma viagem de descanso após a campanha eleitoral.

Alandilson já acumulava passagens por tráfico de drogas e roubo qualificado. Apesar de não ter vínculo formal de emprego registrado, ele mantinha um padrão de vida elevado. A investigação apontava seu envolvimento direto no braço financeiro do Bonde dos 40, facção que teria movimentado cerca de R$ 2 bilhões por meio de empresas de fachada, como revendas de veículos.

Em dezembro de 2024, a PF deflagrou a primeira fase da Operação Escudo Eleitoral e realizou buscas na sede do Instituto Vamos Juntos, ONG fundada pela então vereadora, voltada para ações sociais em comunidades da zona Norte de Teresina. Na ocasião, foram apreendidos R$ 100 mil em espécie. A investigação passou a apurar se o instituto havia sido usado para lavar recursos da facção e financiar a campanha de Tatiana. Havia indícios, segundo a PF, de que integrantes do Bonde dos 40 coagiriam eleitores em comunidades dominadas pelo grupo, como o bairro Olaria, onde a ONG estava instalada.

Em março de 2025, antes mesmo da prisão, o PSB já havia afastado Tatiana da função de secretária-geral do partido em Teresina. A vereadora reagiu afirmando publicamente que estava sendo perseguida.

A prisão no quartel da Polícia Militar

Na manhã de 3 de abril de 2025, agentes da PF chegaram em um condomínio, no bairro Jóquei Clube, zona leste de Teresina, e prenderam Tatiana Medeiros. Era a segunda fase da Operação Escudo Eleitoral. Ao todo, foram cumpridos oito mandados judiciais, sendo três de afastamento de função pública, incluindo o cargo de vereadora e cargos em comissão na Câmara Municipal, na Assembleia Legislativa e na Secretaria de Saúde do Estado.

No dia 4 de abril, a prisão cautelar foi confirmada pelo juiz Luís Henrique Moreira Rego em audiência de custódia no plenário do TRE-PI. Tatiana foi encaminhada para uma sala especial no Quartel do Comando-Geral da Polícia Militar do Piauí, onde permaneceu presa em regime fechado. O TRE-PI posteriormente negou o pedido de habeas corpus impetrado pela defesa e manteve a prisão preventiva por maioria de votos.

Nos meses seguintes no quartel a Polícia Federal apurou que, durante o período de detenção, Tatiana fez ligações para Alandilson, que estava preso, e chegou a pesquisar passagens aéreas. Um tablet foi encontrado com ela durante uma vistoria, e a mãe da vereadora admitiu ter levado um celular para a filha na unidade. O suplente Leônidas Júnior (PSB) assumiu a vaga na Câmara Municipal de Teresina. A Câmara, após consulta ao Tribunal de Contas do Estado, decidiu manter o pagamento do salário de R$ 24 mil mensais mesmo com a vereadora afastada do cargo, entendendo que não havia condenação transitada em julgado.

Tatiana chegou a passar mal dentro do quartel e precisou ser internada no Hospital de Urgência de Teresina e no Hospital da Polícia Militar. Em junho de 2025, laudo médico atestou quadro psiquiátrico que motivou a conversão da prisão preventiva em domiciliar. A juíza Júnia Feitosa, que havia assumido o caso após o afastamento da juíza anterior por motivos de foro íntimo, autorizou a medida em 3 de junho, impondo também o uso de tornozeleira eletrônica, o afastamento do mandato e a proibição de acesso às dependências da Câmara e de contato com servidores da Casa.

Reviravoltas e o julgamento

Em outubro de 2025, o desembargador Pedro Macêdo, do TJ-PI, anulou o Relatório de Inteligência Financeira (RIF) compartilhado entre a PF e o DENARC, peça considerada central na denúncia. A decisão levou à suspensão das audiências de instrução, previstas para aquele mês, e abriu espaço para que a defesa pedisse a revogação das prisões. Por meio de uma liminar, Tatiana chegou a ser solta brevemente. O TRE-PI, no entanto, cassou a liminar e determinou o retorno à prisão domiciliar. A questão da validade dos RIFs chegou ao STJ e ao STF. O Ministério Público Eleitoral sustentou, ao longo de todo o processo, que as demais provas eram suficientes e independentes do relatório financeiro questionado.

As audiências de instrução e julgamento foram realizadas entre os dias 24 e 28 de novembro de 2025, no auditório do Fórum Eleitoral de Teresina. Em cinco dias, foram ouvidas 112 testemunhas, um dos maiores processos eleitorais já conduzidos pela Justiça Eleitoral do Piauí.

O julgamento mobilizou cerca de 30 policiais militares e alterou o trânsito no entorno do fórum. A delegada Adília Klein, do Denarc, responsável pela investigação afirmou na ocasião que não havia dúvidas sobre o envolvimento de Alandilson Passos com o Bonde dos 40. O próprio namorado de Tatiana disse, ao sair do depoimento, que estava sendo "pego para cristo". Tatiana manteve silêncio e, ao término do último dia de audiência, mandou recado à imprensa desejando feliz Natal.

O processo seguiu para a fase de alegações finais no início de 2026. A sentença, inicialmente prevista para março, foi adiada após três dos nove réus, assistidos pela Defensoria Pública da União, não apresentarem suas manifestações no prazo. Em abril, nova decisão do ministro Alexandre de Moraes sobre o uso de RIFs levou a defesa a pedir nova manifestação do MPE, que reafirmou a validade de todas as provas. A sentença foi proferida nesta segunda-feira (27).


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