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Sob tarifas de Trump, exportações do Piauí aos EUA caem 42,4% no primeiro semestre, aponta estudo

No próximo domingo (23), completa-se um mês desde que o governo de Donald Trump anunciou a sobretaxa de 12,5% às exportações brasileiras para os Estados Unidos. A medida se soma a outra tarifa de 25% já em vigor, aplicada sob a justificativa de que o Brasil adotava práticas que oneram o governo americano. Juntas, as sobretaxas podem chegar a 37,5%.

Reprodução/Porto Piauí
Risco das exportações do Pìaui foi classificado em "Alto Impacto" por estudo do Banco do Nordeste.

O Piauí já sente o impacto desse cenário. No primeiro semestre de 2026, o estado enviou US$ 11,6 milhões em produtos aos Estados Unidos, uma retração de 42,4% nas vendas externas ao país em comparação ao mesmo período do ano anterior. A queda pode ter relação com as tarifas de 50% impostas pelos americanos ainda no ano passado.

Os dados são de um estudo do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (ETENE), do Banco do Nordeste, divulgado no mês passado, que classificou o Piauí em "Alto Impacto" diante das novas tarifas alfandegárias dos Estados Unidos. Hoje, o mercado americano responde por 2,4% de tudo o que o Piauí vende ao exterior.

Cinco produtos concentram as exportações

A vulnerabilidade do Piauí diante da política comercial de Washington vem da alta concentração da pauta exportadora em poucos produtos e da dependência que esses itens têm do mercado americano. Levantamento do primeiro semestre de 2026 mostra que cinco produtos respondem por praticamente toda a exportação do estado aos EUA.

Divulgação / CCOM
Mel piauiense foi um dos mais afetados com a redução das exportações do estado aos EUA.

As ceras vegetais lideram a lista e representam 46,7% do total enviado ao país, o equivalente a US$ 5,4 milhões no período. O mercado americano absorve 23,6% de tudo o que o Piauí exporta desse produto para o mundo. O mel natural, do qual municípios piauienses são os principais produtores, vem em seguida, com US$ 4,3 milhões em vendas, uma fatia de 36,8% das exportações do estado aos EUA. A dependência do mercado americano é ainda maior nesse produto, já que 68,7% de todo o mel exportado pelo Piauí tem os Estados Unidos como destino.

Os peixes somaram US$ 0,8 milhão em exportações (6,6% de participação), com dependência de 90,7% do mercado americano. Já os compostos heterocíclicos de heteroátomos de oxigênio geraram US$ 0,7 milhão (6,4% da pauta) e têm dependência absoluta com 100% das exportações globais deste item pelo Piauí vão para os EUA. As ceras de abelhas e de outros insetos somaram US$ 0,3 milhão (2,9% de participação) e também dependem inteiramente do mercado americano. Os demais produtos exportados pelo Piauí aos EUA somaram menos de US$ 0,1 milhão, apenas 0,7% do total.

Ceará, Maranhão e Bahia são os mais afetados no Nordeste

Em entrevista ao O Dia, o economista-chefe do Banco do Nordeste, Rogério Sobreira, afirmou que os estados nordestinos mais afetados pelas sobretaxas são Ceará, Maranhão e Bahia. Na região, os produtos mais prejudicados são etanol, máquinas agrícolas, vestuário, maquinário mecânico, calçados, ferramentas, além de açúcar orgânico e bens industriais em geral.

Ascom BNB
Economista-chefe do Banco do Nordeste, Rogério Sobreira apontou Ceará, Maranhão e Bahia como os estados mais afetados na região.

Segundo o economista, os estados com pauta industrial e de metalurgia mais forte, caso dos três citados, lideram o volume total de exportações ao mercado americano e sentem com mais força o impacto sobre as indústrias pesadas. Já a dinâmica do agronegócio e das indústrias leves na região segue um caminho distinto. Para Sobreira, as novas tarifas expõem uma divisão setorial nos efeitos sobre as exportações nordestinas.

"As exportações do agronegócio nordestino elas não tendem a ser fortemente impactadas pelas sobretaxas porque os produtos dessa pauta de exportação eles já estão isentos, mas por outro lado o setor industrial do nordeste é o setor que vai ser mais fortemente afetado pelas sobretaxas, particularmente pelo fato de que os produtos do setor industrial como vimos, produtos é ligados ao complexo petroquímico. Produto alumínio, aço, ferro, eles vão ser diretamente e fortemente impactados pelas sobretaxas."

O economista-chefe do BNB resume o cenário setorial da região. "A grosso modo, portanto, o impacto das sobretaxas sobre as exportações da região não vai ser significativo em termos do setor agropecuário, mas vai ser significativo em termos do setor industrial.", concluiu.