O mês de junho ainda nem começou oficialmente, mas o São João já toma conta do Piauí há meses. Em quadras de escolas, ginásios comunitários, bairros periféricos e povoados rurais, centenas de artistas (profissionais e amadores) atravessam noites inteiras de ensaio para colocar de pé uma das maiores engrenagens culturais e econômicas do Nordeste.
As quadrilhas juninas são uma das maiores expressões da cultura nordestina, e também uma das mais importantes indústrias criativas do Piauí. Entre figurinos bordados à mão, cenários monumentais, maquiagens, trilhas, coreografias e rifas improvisadas, as quadrilhas juninas do estado vivem a reta final de preparação para uma temporada que movimenta toda uma cadeia produtiva, do marceneiro ao motorista de aplicativo. E tudo isso começa muito antes do forró tocar.
A tradição da festa junina em si tem raízes europeias, trazida pelos colonizadores portugueses para celebrar São João, São Pedro e Santo Antônio. No Nordeste, ela ganhou novas camadas, com influências indígenas e africanas, a conexão com a colheita do milho e a fogueira de Xangô relacionada aos santos católicos. O resultado dessa junção é uma celebração única, profundamente local e ao mesmo tempo nacional.
E as quadrilhas juninas são o coração dessa festa. Reconhecidas como manifestação cultural nacional em 2024, elas reúnem dança, música, artes cênicas, memória e resistência numa só arena. No Piauí como na maior parte dos estados nordestinos, essa arte não é apenas o dia da festa, mas sim uma indústria criativa que se estende durante quase todo o ano. Atualmente, a Federação das Quadrilhas Juninas do Piauí (Fequajupi) reúne 94 grupos filiados, espalhados do norte ao sul do estado.
No estado, o São João não é apenas o dia de festa. É trabalho coletivo, memória afetiva, indústria criativa e sobrevivência cultural. A Federação das Quadrilhas Juninas do Piauí (Fequajupi) reúne, atualmente, 94 grupos filiados espalhados do litoral ao sul do estado.
De acordo com João Rodrigues, presidente da Fequajupi, 31 dos mais de 90 grupos estão inativos no ano de 2026, pelos mais diferentes motivos. “Alguns grupos não vão sair por fatores diversos, mas principalmente pela fragilidade financeira do movimento”, explica o líder da Federação. Segundo ele, os preparativos começam muito antes do público ocupar as arquibancadas. “Os grandes grupos já pensam no próximo espetáculo quando o atual ainda nem terminou. Tem quadrilha que trabalha dez meses antes da temporada".
A dimensão financeira também é algo que impressiona. Segundo a Federação, existem grupos que gastam cerca de R$ 50 mil por temporada, enquanto outros ultrapassam R$ 1 milhão em investimentos. Há equipes com mais de 60 casais em cena, figurinos avaliados em milhares de reais e cenários transportados em carretas de outros estados.
“O custo hoje para manter uma quadrilha em quadra é muito alto. Tem grupo que traz cenário pronto do Rio de Janeiro. É muita gente envolvida”, afirma João Rodrigues. O dinheiro vem de várias frentes, como editais públicos, patrocínios privados, rifas, bingos e eventos de arrecadação próprios. Em 2026, por exemplo, de acordo com a Federação, o apoio público chegou mais tarde do que o esperado, por atrasos nos editais, deixando grupos em situação delicada na reta final.
O São João começa muito antes de junho
Na prática, os ensaios já fazem parte da rotina de muitos grupos desde janeiro. Em Parnaíba, por exemplo, a tradicional Quadrilha Rei do Cangaço, uma das maiores do estado, iniciou os trabalhos logo nos primeiros dias de 2026. O grupo, que reúne cerca de 150 integrantes, ensaia de terça a sábado enquanto finaliza o espetáculo deste ano, intitulado “Nem pão, Nem circo”.
“O processo envolve os projetistas juninos desde o repertório musical até figurino, cenário, casamento e coreografia”, explica Kennedy Clark, projetista da quadrilha.
O orçamento da Rei do Cangaço chega a R$ 500 mil nesta temporada. Segundo Kennedy, a arrecadação vem de patrocinadores, editais e ações internas promovidas pela própria equipe. “As dificuldades financeiras ainda são o maior desafio”, resume.
Nos grupos menores, o cenário é ainda mais delicado. Criada em 2021 no povoado Gurupá de Baixo, zona rural de Teresina, a Quadrilha Junina Gurupá intensificou os ensaios nas últimas semanas. Antes, o grupo ensaiava três vezes por semana. Agora, os encontros acontecem diariamente, das 19h às 22h.
“É um desafio muito grande conciliar tudo isso com trabalho, estudo e rotina pessoal, mas a gente sempre está dialogando e se apoiando para todos permanecerem firmes”, conta Josiel Júnior, presidente da Gurupá.
Sem apoio fixo, a equipe depende de rifas, bingos, mensalidades dos integrantes e ajuda pontual de apoiadores políticos para custear figurinos, maquiagem e cenário. Para Josiel, o maior problema enfrentado atualmente pelas quadrilhas locais é a dificuldade de acesso a financiamento.
“A falta de políticas públicas e incentivo tem mostrado a fragilidade do movimento. Muitos grupos encerraram suas histórias este ano”, afirma. Ainda assim, com o medo e os vários obstáculos no caminho, a Gurupá segue fazendo a alegria de todos os envolvidos, sejam participantes ou espectadores. "Seguimos nos reinventando e firmes na luta", diz Júnior.
A situação se repete em diferentes bairros da capital. Integrante da Quadrilha Pinga Fogo, Bruno Weslley descreve a fase atual da preparação como um “intensivão”. O grupo ensaia de quarta a domingo, sempre à noite. “É muito jogo de cintura para organizar os horários e não deixar chocar com trabalho e estudo”, relata.
A Pinga Fogo criou o próprio evento de arrecadação, o “Esquenta Pinga Fogo”, uma prévia junina com ingresso popular e venda de comidas e bebidas. Dentro da equipe, os próprios integrantes se dividem entre setores de maquiagem, figurino, logística e cenografia.
“A junina para mim não é só dança. É sentimento, é família, é cultura, é onde meu coração se sente vivo”, diz Bruno.
Uma tradição que atravessa o estado
Muito além da arena, o São João movimenta dezenas de profissões e aquece economias locais inteiras. Costureiras, sapateiros, marceneiros, maquiadores, motoristas de aplicativo, vendedores ambulantes, cenógrafos, produtores audiovisuais e lojas de tecido entram diretamente na engrenagem junina.
“É uma economia criativa grandiosa. Aqui a gente ganha e aqui a gente compra. O dinheiro circula na própria cidade”, resume João Rodrigues.
O calendário junino do estado confirma a dimensão desse movimento. Entre junho e julho, o Piauí terá mais de 20 festivais espalhados por municípios como Teresina, Picos, Piripiri, Floriano, Parnaíba, Luís Correia, Pedro II e São João do Piauí. Só na capital, eventos como o Cidade Junina e o Arraiá da Capitá devem reunir milhares de pessoas ao longo de vários dias.
Parte essencial da cultura nordestina, as quadrilhas juninas também vêm ampliando cada vez mais os temas levados para as arenas. Nos últimos anos, os espetáculos passaram a incorporar discussões sobre identidade nordestina, desigualdade social, ancestralidade, meio ambiente e migração.
No Piauí, esse encontro continua vivo nas comunidades onde a quadrilha ainda funciona como espaço de convivência coletiva. “As quadrilhas trazem memória, tradição e convivência. Manter viva essa cultura é preservar quem veio antes de nós”, afirma Josiel Júnior.
Para João Rodrigues, o impacto vai além da economia ou do espetáculo. “As quadrilhas juninas salvam vidas. Quem dança quadrilha se realiza. O sorriso vem fácil.”
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