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Ocupando 53% do território do Piauí, Cerrado pode armazenar mais carbono que a Amazônia, aponta estudo

Correspondente a 53% do território do Piauí, segundo dados da Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), o Cerrado tem papel estratégico tanto para a biodiversidade quanto para o equilíbrio climático. Um estudo internacional publicado nesta quinta-feira (12) na revista científica New Phytologist aponta que áreas úmidas do bioma podem armazenar até seis vezes mais carbono por hectare do que a densidade média registrada na Amazônia, ampliando o debate sobre a importância da preservação desse ecossistema no país.

Divulgação/Semarh
Apesar da redução de 11,49% do desatamento do cerrado no ano passado, região do MATOPIBA corresponde a 77,9% de todo o desmatamento do bioma.

A pesquisa mostra que regiões conhecidas como veredas e campos úmidos do Cerrado podem armazenar cerca de 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare. Tradicionalmente, a Amazônia e outras florestas tropicais são consideradas os principais reservatórios naturais de carbono do planeta e, por isso, desempenham papel central no combate às mudanças climáticas. No entanto, o novo estudo indica que parte desse potencial também está presente no Cerrado, bioma que ocupa cerca de 26% do território brasileiro e que, no caso do Piauí, representa mais da metade da área do estado.

O trabalho foi liderado pela pesquisadora Larissa Verona e contou com cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do Cary Institute of Ecosystem Studies (Estados Unidos), do Instituto Max Planck (Alemanha) e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Trata-se da primeira avaliação detalhada dos estoques de carbono presentes nos solos dessas áreas úmidas do Cerrado.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores coletaram amostras de solo de até quatro metros de profundidade. Estudos anteriores analisaram apenas camadas superficiais, de 20 centímetros a um metro, o que acaba subestimando o carbono presente no solo em até 95%. A nova metodologia revelou que o bioma pode guardar uma quantidade muito maior de carbono do que se imaginava.

© Rafael Oliveira/Unicamp
Pesquisadores alertam para risco climático com degradação do bioma.

A análise também mostrou que parte desse carbono é extremamente antigo. Testes de datação por radiocarbono indicam que o material orgânico presente nesses solos têm idade média de cerca de 11 mil anos, com registros que ultrapassam 20 mil anos.“Esse carbono levou muito tempo para se acumular. Se ele for perdido, não podemos reconstruí-lo rapidamente, como ocorre com uma floresta que pode ser replantada”, afirma Larissa Verona.

Além da biodiversidade, o Cerrado também tem importância estratégica para os recursos hídricos. O bioma abriga as nascentes de aproximadamente dois terços das grandes bacias hidrográficas do Brasil, incluindo sistemas que alimentam o rio Amazonas. “As condições úmidas dos campos e veredas criam falta de oxigênio, o que desacelera a decomposição de plantas e outros resíduos. Como resultado, a matéria orgânica se acumula ao longo do tempo e permite que esses ambientes armazenem grandes quantidades de carbono”, explica a pesquisadora Amy Zanne, coautora do estudo.

Apesar dessa relevância, os pesquisadores afirmam que o papel do Cerrado no equilíbrio climático ainda é subestimado.“O enorme estoque de carbono do Cerrado não costuma ser incluído nos cálculos climáticos porque, até recentemente, não sabíamos que ele estava ali”, afirma Zanne.

Divulgação/CCOM
Produção agrícola tem avançado na região do Cerrado.

Dados divulgados em novembro de 2025 apontam que o desmatamento no Cerrado caiu 11,49% entre agosto de 2023 e julho de 2024, segundo o sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Mesmo assim, a região do Matopiba, que é formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, ainda responde por 77,9% de toda a devastação registrada no bioma.

Esse cenário reflete o avanço da agricultura na região, considerada uma das principais fronteiras agrícolas do país, com expansão de culturas como soja, milho e pecuária. Ao mesmo tempo em que impulsiona a economia, essa expansão aumenta a pressão sobre áreas de vegetação nativa e ambientes úmidos do Cerrado.

“Chamamos o Cerrado de bioma de sacrifício, porque o Brasil quer proteger a Amazônia, mas também quer manter a agricultura. Então, o agronegócio acaba convertendo o Cerrado para a produção de commodities. O Cerrado também é fundamental por seus grandes estoques de carbono de longo prazo, e precisamos lutar para protegê-lo”. diz Larissa Verona


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