Portal O Dia

Ninho vazio: mães transformam saudade em novos recomeços

Ser mãe é dedicar-se integralmente ao filho desde antes do seu nascimento. É aguardar, ansiosa, aquele que mudará, para sempre, o rumo da sua vida. Em cada fase, uma nova descoberta, para ambos. Os medos e a insegurança, apesar de presentes, dão lugar ao infinito amor, cuidado, zelo e cumplicidade. Uma companhia que compartilha as dores e alegrias diárias. Memórias e lembranças criadas através de palavras, gestos e olhares. O colo amigo, a mão que afaga, a risada que preenche toda a casa, o abraço que acolhe. Mas, um dia, chega a hora de voar com as próprias asas e, aquele pequeno ser, que antes cabia em seus braços, agora decide trilhar o seu caminho. E, mesmo com uma dor que mal cabe no peito, é preciso entender que chegou a hora da partida e do breve adeus. O orgulho de ver aquele que nasceu de seu ventre seguir agora com as próprias pernas aquece o coração de quem precisou ser forte, e sabe que, ali, será o porto seguro daquele que nunca deixará de ser, para sempre, o seu único e verdadeiro amor.

A saudade e o orgulho de ver os filhos seguirem seus caminhos

Ser mãe é aprender, todos os dias, sobre amor, cuidado e também sobre despedidas. Desde o primeiro choro até os passos em direção ao mundo, há, entre mães e filhos, uma relação de presença e proteção e, inevitavelmente, o aguardo pelo momento em que o “ninho” precisará ficar vazio. Neste 10 de maio, Dia das Mães, é uma data em que muitas mulheres relembram, com carinho, saudade e orgulho, as trajetórias dos filhos, que seguiram seus próprios caminhos, mas sempre com a certeza de que têm para onde voltar.

A servidora pública Socorro Pereira (65) conhece bem essa realidade. Mãe de três filhos: Diego Felipe, Amanda e Manoela, ela viu, aos poucos, cada um deixar a casa dos pais para construir a própria trajetória. E, mesmo sem ouvir Los Hermanos tocando no rádio da cozinha, como o filho mais velho costumava fazer, não é com um olhar de tristeza que ela vê a casa silenciosa.

Assis Fernandes / O DIA

“Eu me sinto bem, me sinto realizada em eles terem conseguido sair de casa e desenvolver a vida deles. A gente sabe que chega uma hora em que os filhos precisam caminhar com as próprias pernas. É a consequência natural da vida”, afirma.

Ela conta que o primeiro “ensaio” da partida aconteceu há cerca de dez anos, quando Amanda decidiu fazer intercâmbio na Colômbia. Ali, ela e o esposo Messias, já se preparavam para o momento que, uma hora, chegaria. “Foi o início desse processo. Não seria exatamente um desapego, mas de afrouxar a corda e entender que uma hora eles vão seguir”, relembra.

Assis Fernandes / O DIA

Depois vieram as mudanças dos outros filhos. Diego Felipe mudou de estado. Manoela, a caçula, permaneceu em Teresina, mas também saiu da casa dos pais. Foi então que, de fato, o “ninho” ficou vazio.

Apesar da mudança na rotina, Socorro encontrou novas formas de preencher o tempo e redescobrir a própria vida para além da maternidade. Ela conta que começou essa transição ainda quando os filhos entraram na universidade. Após 25 anos sem estudar, decidiu voltar à sala de aula e iniciar um curso superior. Cuidar de si foi o primeiro passo para se adaptar à mudança que, em breve, aconteceria.

Hoje, ela e o marido dividem a rotina entre trabalho, caminhadas, passeios e momentos a dois. “A gente procura ocupar os espaços. Vai ao cinema, toma um café, passeia. O corpo humano precisa de movimento. Se parar, enferruja. E meu trabalho é essencial para isso e para ocupar a mente”, comenta.

Mesmo com a distância, os filhos seguem presentes no cotidiano da família. Amanda costuma ligar durante a semana e compartilhar desde as conquistas até os pequenos momentos do dia a dia. Manoela mantém a tradição de almoçar todos os sábados na casa dos pais. Já Diego Felipe, mesmo morando em São Luís (MA), sempre encontra uma forma de estar perto.

Socorro afirma que nunca enxergou a saída dos filhos como abandono ou solidão. Para ela, ver os filhos conquistando independência é motivo de felicidade e orgulho. “Eles podem não estar aqui fisicamente, mas continuam presentes o tempo inteiro. E aquele cuidado que a gente tinha dentro de casa se transforma em oração. Tenho orgulho dos filhos que Deus me deu. Sou muito realizada como mãe. Acho que a síndrome do ninho vazio não veio para mim, graças a Deus”, afirma.

Arquivo Pessoal

No Dia das Mães celebrado neste domingo (10), nem todos os filhos de Socorro conseguirão estar presentes fisicamente. Amanda, que mora em outro estado, não poderá viajar. Ainda assim, o amor permanece intacto, independentemente da distância. “O querer da gente era que eles viessem, claro. Mas a gente entende. O importante é saber que eles estão bem, correndo atrás dos sonhos deles”, destaca.

Ao olhar para trás, e para todas as décadas dedicadas à criação dos filhos, Socorro Pereira entende que ser mãe é mais do que cuidar e dar amor, é também aprender a deixar partir. “A gente é só instrumento. Seja mãe biológica, adotiva, de qualquer forma, é uma missão que Deus entrega para nós. E eu só tenho a agradecer pela família que Ele me deu”, conclui.

Casa de mãe, um porto seguro para os filhos

Para a professora e jornalista Amanda Noleto (36), a saída de casa foi um processo rápido e cercado de mudanças. Em 2022, ela precisou deixar Teresina para assumir um emprego no interior do Mato Grosso. A convocação aconteceu em uma sexta-feira e, poucos dias depois, ela já precisava estar na nova cidade. Não houve tempo para grandes planejamentos ou despedidas mais demoradas, mas o apoio estava lá, e isso fez toda a diferença.

“Tudo aconteceu de forma muito acelerada e com zero preparação. Mas minha mãe fez toda a diferença porque foi comigo para a nova cidade e ficou a primeira semana me ajudando a organizar a nova rotina”, relembra.

Hoje morando em Ipatinga, no interior de Minas Gerais, Amanda afirma que a distância nunca diminuiu o vínculo com a mãe, Socorro Pereira. Pelo contrário, mesmo longe, as duas seguem extremamente próximas. “Sou muito ligada aos meus pais. A gente se fala praticamente todos os dias por mensagem e, a cada dois ou três dias, por ligação. E quando eu não ligo, eles cobram notícias no WhatsApp”, brinca.

As chamadas de vídeo aos domingos se transformaram em uma tradição para a família. “Eles gostam de ver nossa imagem. Isso também acontece com meu irmão que mora em São Luís (MA). Saímos de casa, mas seguimos muito unidos”, afirma Amanda.

Ao olhar para a mãe, a professora diz enxergar uma mulher realizada pela maternidade e orgulhosa pelos caminhos escolhidos pelos filhos. “Vejo na minha mãe uma entrega muito grande e uma realização muito profunda em ser mãe de três. Digo isso, porque enxergo minha mãe muito feliz, grata e realizada nesse papel. A maternidade dela foi construída com muita entrega e cuidado, então não vejo nossa saída para ela como algo doloroso”, destaca.

Apesar da distância, e da saudade, Amanda e os irmãos sabem que a casa dos pais continua sendo sinônimo de acolhimento e de porto seguro. “Obviamente que não foi tão fácil, mas sinto que há para ela uma saudade da gente em casa - fisicamente falando, mas também uma alegria de ver que estamos no mundo construindo nossas vidas, e sabendo que há esse lugar para voltar sempre que precisar”, conclui.

“A gente nunca se prepara”: mãe fala sobre saudade após filha sair de casa

Se para algumas mães o “ninho vazio” chega acompanhado pelo orgulho da independência dos filhos, para outras ele também traz um silêncio difícil de preencher. Afinal, depois de anos compartilhando a rotina, as conversas e os pequenos detalhes do dia a dia, a ausência passa a ocupar espaços antes preenchidos pela convivência.

A comerciária Evanilda Alvarenga (54) vive essa experiência desde janeiro deste ano, quando a filha única, Ianca Alvarenga (27), mudou-se para Curitiba em busca de uma nova vida. Companheiras inseparáveis, mãe e filha sempre tiveram uma relação marcada pela amizade. “Ela é minha companheira do dia a dia. A gente conversava muito, fazia as refeições juntas, dividia tudo. Então, quando ela saiu, ficou realmente muito difícil”, conta.

Arquivo Pessoal

A mudança começou a ser planejada ainda em novembro, quando Ianca viajou para Curitiba a passeio. Ao retornar para Teresina, revelou à mãe que pretendia voltar à cidade, dessa vez de forma definitiva. Apesar de saber do desejo da filha por mudar-se da cidade natal, a notícia veio com um frio na barriga da mãe. “Foram praticamente dois meses tentando me preparar psicologicamente. Mas a verdade é que a gente nunca se prepara de fato”, desabafa.

Mesmo entendendo que a filha precisava seguir o próprio caminho, o vazio na casa de Evanilda foi inevitável. As diversas atividades realizadas ao longo do dia acabam por preencher os horários, fazendo com que a mãe não tenha tanto tempo para notar os cômodos mais silenciosos. “A pior parte é à noite. Era o momento em que a gente realmente se encontrava, conversava, assistia TV. Hoje o silêncio fica muito grande”, relata.

As duas continuam com o contato diário, ainda que as ligações sejam rápidas, devido à correria da rotina. Compartilhar as vivências ajuda a diminuir a saudade e a aliviar um pouco a preocupação materna. “Eu falo com ela todos os dias e , hoje mesmo, já falei duas vezes. Mas não é igual à convivência. Você não sabe mais exatamente como foi o dia dela, não vê mais as expressões, os detalhes”, explica.

Para amenizar essa ausência, Evanilda reorganizou sua rotina e tem preenchido o tempo com novas atividades, e a culinária é uma delas. A paixão da filha agora tornou-se um passatempo para a comerciária. Enquanto prepara as guloseimas, ela não apenas lembra de Ianca, como também tem a oportunidade de compartilhar com a filha os novos dotes aprendidos.

Arquivo Pessoal

“Ela era muito ligada à culinária e deixou muitos utensílios, receitas e materiais. Então comecei a tentar fazer algumas coisas. Às vezes ligo para ela pedindo ajuda. Embora eu não tenha quem consuma, mas eu vou fazendo, porque isso ocupa minha mente”, conta.

Outra forma encontrada para manter a presença da filha dentro de casa foi preservar o quarto exatamente como ela deixou. “O quarto dela está do mesmo jeito. Eu troco os lençois como ela fazia, organizo as coisas dela. A porta do quarto eu deixo aberta, para quando eu passar, olhar. São detalhes pequenos que vão suprindo a falta”, diz.

Evanilda explica que a partida da filha faz parte de um processo natural da vida, ainda que tenha deixado uma imensa saudade. E, entender os sonhos da filha, também têm ajudado a tornar essa ausência menos dolorosa.

“A gente cria os filhos para o mundo. Eu sempre soube que isso um dia ia acontecer, mas nunca estamos preparados. O que mais alivia é saber que ela está buscando uma vida melhor, tentando crescer, construir o futuro dela. Então a gente fica aqui torcendo e vigiando de longe”, afirma.

A distância fortaleceu ainda mais a relação entre mãe e filha, que passaram a conversar com mais frequência. Apesar disso, Evanilda Alvarenga não nega que há momentos em que o coração aperta mais que outros dias, mesmo com ligações e chamadas de vídeo. Afinal, nenhuma tecnologia substitui a presença física, o abraço apertado e o beijo caloroso.

“A chamada de vídeo, às vezes, até aumenta a saudade. Mas, ao mesmo tempo, é o jeito que a gente tem de matar um pouquinho a saudade.É a forma que eu tenho de acompanhar a vida dela mesmo de longe”, conclui Evanilda.

“Ninho vazio” possibilita que mães enxerguem para além da maternidade, diz psicóloga

Para muitas mães, ver os filhos saindo de casa pode representar mais do que uma mudança na rotina. O silêncio nos quartos, a ausência das conversas diárias e a quebra de hábitos construídos ao longo de décadas podem despertar sentimentos profundos de tristeza, vazio e solidão em mães.

A psicóloga e terapeuta de família Sileli Santiago explica que esse processo, conhecido como “síndrome do ninho vazio”, pode ser vivido como uma espécie de luto simbólico. Segundo ela, essa fase pode provocar sintomas como ansiedade, tristeza e um forte sentimento de vazio, impactando diretamente o bem-estar emocional dessas mulheres. “É uma sensação de perda. Perda da presença, da rotina e do papel central que muitas mães ocupavam na vida dos filhos”, explica.

Assis Fernandes / O DIA

Porém, a especialista destaca que esse momento também pode ser encarado como uma oportunidade de redescoberta. Para atravessar essa transição de maneira mais saudável, Sileli aponta três passos importantes. O primeiro é validar os próprios sentimentos.

“Essa mãe precisa entender que continua tendo um vínculo com o filho, continua sendo importante na vida dele, mas agora essa relação acontece de outras formas. Muitas mães tentam ignorar a dor, fingir que está tudo bem, quando não está. É preciso reconhecer essa tristeza e acolher o que está sendo sentido”, orienta.

O segundo passo é ressignificar o momento atual. Para a terapeuta, a saída dos filhos não deve ser enxergada apenas como uma perda, mas também como a concretização de uma missão cumprida. “Ao mesmo tempo em que existe tristeza, também pode existir orgulho. Orgulho de ter criado um filho com autonomia suficiente para seguir o próprio caminho, fazer suas escolhas e construir sua vida”, ressalta.

Já o terceiro passo é voltar o olhar para si mesma. Segundo Sileli, muitas mulheres acabam construindo a própria identidade exclusivamente em torno da maternidade e, quando os filhos saem de casa, sentem dificuldade em reconhecer quem está além desse papel.

Assis Fernandes / O DIA

“É um convite para essa mulher voltar a olhar para ela, entender quais são suas necessidades, retomar interesses que foram deixados de lado ao longo dos anos e perceber que ela também ocupa outros papéis além de ser mãe”, pontua.

A psicóloga reforça ainda que os filhos também têm papel importante nesse processo. Demonstrar presença emocional, manter contato e validar os sentimentos da mãe podem ajudar a tornar essa separação menos dolorosa. “Os filhos precisam deixar claro que continuam presentes, mesmo à distância. Muitas mães sentem medo de não terem mais importância na vida deles”, afirma.

A terapeuta explica que, em muitos casos, a distância física acaba fortalecendo os laços familiares e aproximando ainda mais mãe e filho. “Escuto muitos relatos de famílias que se aproximaram ainda mais depois que os filhos saíram de casa. Quando existe distância, as pessoas passam a valorizar mais os momentos juntos e percebem que pequenas discussões do cotidiano não eram tão importantes quanto o afeto e a conexão”, destaca.

Sileli Santiago aproveita para deixar uma mensagem às mães que enfrentam esse momento de despedida e se veem com o “ninho vazio”. “Nós criamos os filhos para o mundo. É claro que dói vê-los partir, porque queremos tê-los sempre por perto, mas também é preciso sentir orgulho da história construída. E entender que esse pode ser um novo começo: um momento para olhar mais para si, fortalecer outros vínculos, cuidar da própria vida e perceber que, mesmo com a distância, o amor continua existindo”, conclui a psicóloga.


Você quer estar por dentro de todas as novidades do Piauí, do Brasil e do mundo? Siga o Instagram do Sistema O Dia e entre no nosso canal do WhatsApp se mantenha atualizado com as últimas notícias. Siga, curta e acompanhe o líder de credibilidade também na internet.