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“Não quero que termine com minha família tendo que me enterrar”, diz jornalista vítima de agressão por PM

Terror e desamparo. É assim que a jovem de 26 anos que foi agredida pelo ex-namorado em Teresina define sua situação depois que saiu da Casa da Mulher Brasileira na última segunda-feira (27). Ela foi brutalmente agredida física, emocional e sexualmente, mas contou com exclusividade ao Portalodia.com que saiu do depoimento à polícia sem nada nas mãos que comprovasse a violência sofrida nem lhe garantisse a medida protetiva que solicitou.

Assis Fernandes/O DIA
A O Dia, a vítima diz ter medo de morrer. “Eu estou aterrorizada"

Ainda, segundo ela, o agressor, o policial militar Gabriel Veras Tomaz Silva, encontra-se solto mesmo depois de ter sido autuado por violência doméstica. A jovem disse temer pela própria vida e da sua família, sobretudo a da sua filha de oito anos. É que, além de ameaça-la, Gabriel teria, também dirigido ameaças a seus parentes, inclusive à criança.

A O Dia, a vítima diz ter medo de morrer. “Eu estou aterrorizada. Não sei o que fazer e a cada minuto que passa, me sinto ainda mais desamparada. Fiquei desamparada, porque meu medo é ele sair nas ruas e fazer isso com outras pessoas, fazer isso comigo de novo e com minha filha, que ele tanto ameaçou. Não sei o que esperar dele, porque eu achava que ele era uma pessoa, mas ele se mostrou alguém completamente diferente”, desabafa a jovem, que não será identificada nesta reportagem por motivos de segurança.

Assis Fernandes/O DIA
A vítima relata que mais de uma vez tentou terminar o relacionamento.

Ela contou que conheceu Gabriel em 2022 e desde então iniciaram um relacionamento, mas só decidiram morar juntos no final de 2025. O comportamento dele, no entanto, foi mudando ao longo do tempo juntos. A vítima diz que havia muito ciúmes disfarçado de zelo e que ele costumava querer acompanha-la em todos os lugares aonde ia, inclusive no trabalho, como se a “estivesse vigiando”.

“Ele começou a querer me acompanhar no meu trabalho. Eu ia trabalhar e ele ficava lá me observando. Aquilo começou a me incomodar e depois de um tempo começou até a me atrapalhar no meu serviço. Eu comecei a faltar, porque não queria ele lá me acompanhando. E ele costumava andar armado o tempo todo, inclusive dentro de casa. Aonde eu ia, ele ia junto e armado. Dizia que era porque era do trabalho dele, que é policial e precisava andar com a arma. Mas eu não achava que era só isso”, conta.

Assis Fernandes/O DIA
“pode denunciar que não vai dar em nada”, a jornalista relata as falas do agressor.

A vítima relata que mais de uma vez tentou terminar o relacionamento, mas que sempre que isso acontecia, Gabriel lhe culpava pelo fim e lhe fazia se sentir mal por querer pôr um ponto final em tudo.

O extremo veio na noite do domingo (26), quando o PM se trancou em casa com ela e iniciou uma série de agressões. Ela contou que ele aparentava descontrole e, armado, ameaçou mais de uma vez matá-la, enquanto lhe agredia fisicamente.

“Ele apertou meu pescoço, meus braços, me jogou contra a parede quando tentei correr dele, pisou em minhas costas num momento em que caí no chão. Chegou uma hora em que eu tive certeza que ou eu matava ele ou eu ia morrer. Eu sabia que ele tinha uma arma guardada no quarto e corri para lá para pegar, mas ele conseguiu me empurrar no meio do caminho, me jogou no chão, pisou em mim e pegou a arma”, relembra.

A jovem diz que durante as agressões, o PM ficava repetindo frases como “pode denunciar que não vai dar em nada” e “eu tenho amigos que podem me ajudar”. Segundo ela, em dado momento ele chegou a entregar o celular para que ela ligasse para a polícia. “Ele jogou o celular em mim mandando eu denunciar e se trancou o quarto. Eu liguei desesperada para o 190 e mandei mensagens pedindo socorro nos grupos de Whatsapp que faço parte. Foi aí que começaram a me ajudar”, recorda.

Um dos grupos em questão é formado por colegas de profissão da jovem, que também acionaram a polícia e deram suporte durante o andamento da ocorrência. Uma guarnição chegou ao local já no final da noite do domingo (26), colheu o primeiro relato da vítima e conduziu o PM e ela para a Casa da Mulher Brasileira. Ela na condição de vítima das agressões e ele, autuado por violência doméstica.

Com hematomas nos braços, pernas e pescoço, ela passou por exame de corpo de delito e foi ouvida pela delegada plantonista, momento no qual solicitou uma medida protetiva.

Assis Fernandes/O DIA
A jornalista fez um apelo para que a polícia e o poder público a mantenha protegida. “Pelo amor de Deus, me ajudem.

O Portalodia.com conversou com o advogado da vítima, Smailly Carvalho, que disse que ainda não teve acesso aos autos completos que foram encaminhados para a Justiça. Mas que ontem (28), em contato com a Corregedoria da Polícia Militar, foi informado que Gabriel estava preso administrativamente. No entanto, segundo o advogado, à noite a defesa foi surpreendida com uma foto do acusado na assistindo aula na universidade e, depois, chegando em casa.

A prisão administrativa é uma medida restritiva de liberdade, de caráter excepcional e disciplinar, aplicada por uma autoridade administrativa, em geral um superior hierárquico, a militares. Ela se baseia no Artigo 5º da Constituição, que permite a prisão sem ordem judicial em casos de transgressão militar, podendo durar até 30 dias, mas sendo passível de ser revista pela Justiça quanto à sua legalidade.

“A lei é clara. O mínimo é que ele esteja usando tornozeleira, mas, pelo visto, nem isso foi feito. A vítima está visivelmente abalada, foi agredida física, moral e psicologicamente e ainda vem sendo agredida com toda essa situação posterior”, afirma Smailly.

“Não quero virar estatística”

Ao Portalodia.com, a vítima fez um apelo para que a polícia e o poder público a mantenha protegida. “Pelo amor de Deus, me ajudem. Não me deixem virar mais uma estatística como vejo todos os dias nos jornais. Eu não quero terminar com minha família tendo que me enterrar ou eu ter que enterrar alguém da minha família se ele continuar solto”, finaliza.

A reportagem de O Dia está tentando contato com algum representante da defesa de Gabriel Veras Tomaz Silva, mas até o fechamento desta reportagem, ninguém foi encontrado. A reportagem também procurou a Polícia Civil para pedir esclarecimentos sobre a denúncia da defesa de que o acusado encontra-se solto mesmo depois de ser conduzido pela polícia. O espaço segue aberto para esclarecimentos futuros pela instituição.


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