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Mortes violentas de crianças e adolescentes cresce 46,2% no Piauí

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), nesta quinta-feira (23), apontam que o Piauí registrou um aumento de 46,2% nas mortes violentas intencionais (MVI) de crianças e adolescentes de 0 a 17 anos em 2025. O número de vítimas passou de 39, em 2024, para 56 no ano passado, colocando o estado entre os que apresentaram os maiores crescimentos do país.

Pixabay
Mortes violentas de crianças e adolescentes cresce 46,2% no Piauí

O cenário contrasta com o registrado nacionalmente. Em todo o Brasil, as mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes caíram 10,8%, passando de 2.356 para 2.079 vítimas entre 2024 e 2025. No mesmo período, as MVI totais recuaram 8,2%, chegando a 40.775 casos, impulsionadas principalmente pela redução dos homicídios dolosos.

No Piauí, o aumento foi observado em todas as faixas etárias analisadas. Entre crianças de 0 a 11 anos, os casos passaram de seis para nove mortes. Já entre adolescentes de 12 a 17 anos, o número subiu de 33 para 47 vítimas.

O professor e doutor em Sociologia Daniel Santos explica que os números alertam para uma transformação qualitativa da dinâmica da violência no estado, marcada pela crescente exposição de crianças e jovens aos conflitos produzidos pela expansão das organizações criminosas, assim como a cooptação desses jovens por essas facções.

“É preciso destacar que o Piauí vive, nos últimos anos, um processo de expansão e consolidação de facções criminosas, não só em Teresina como em municípios da região metropolitana e do interior. Esse processo aumentou a disputa territorial, o recrutamento de adolescentes para funções de baixo escalão como vigilância, transporte de drogas e armas, cobrança de dívidas e execução de ordens e, consequentemente, sua exposição à violência letal”, afirma.

Contudo, o sociólogo enfatiza que os dados do Anuário não permitem afirmar que todas as vítimas tinham vínculo com facções criminosas, mas que existe uma forte associação entre o crescimento da violência letal contra adolescentes e a intensificação das dinâmicas do crime organizado nos territórios mais vulneráveis.

Ele destaca que, em muitos casos, os adolescentes são recrutados pelas organizações criminosas, em outros, se tornam as vítimas justamente por integrarem redes familiares, afetivas ou territoriais vinculadas aos grupos em conflito. A violência deixa de atingir exclusivamente integrantes das facções e passa a envolver filhos, irmãos, companheiras, amigos e moradores dos territórios disputados.

“No Piauí, o crescimento dessas mortes também pode ser interpretado como expressão da intensificação da efervescência criminal, caracterizada pela expansão das facções que transformam determinados territórios em espaços de disputa permanente, nos quais a violência deixa de ser apenas um instrumento para obtenção de lucro e passa a funcionar como mecanismo de afirmação de poder, controle social e produção de reputação. Nesse ambiente, adolescentes se tornam simultaneamente mão de obra preferencial e principais vítimas da violência letal”, destaca.

Divulgaçã/SSP
No Piauí, a violência deixou de atingir exclusivamente integrantes das facções

Casos recentes registrados no Piauí confirmam esse cenário. Um adolescente morto dentro de uma escola localizada no bairro Torquato Neto, na zona Sul de Teresina, em agosto de 2025, foi identificado pela polícia como sendo integrante de uma facção criminosa. Antes do crime, a vítima havia publicado nas redes sociais a foto de uma arma e sinais em referência a uma facção criminosa, o que teria ensejado o “tribunal do crime” pelo grupo rival.

Outra vítima de apenas 14 anos foi sequestrada e morta em julho de 2025 por membros do Primeiro Comando da Capital (PCC). As investigações apontaram que a possível motivação do crime teria sido o fato do adolescente residir em uma área dominada pela facção Bonde dos 40, grupo rival ao PCC. Os executores, ao passarem pela região da Vila da Guia, avistaram o menor e decidiram realizar o sequestro e executar a vítima.

Para o doutor em Sociologia, os casos evidenciam que as mortes de jovens deixam de ser compreendidas como eventos isolados ou meros efeitos colaterais da criminalidade e passam a expressar um processo mais amplo de reorganização da violência, no qual o conflito armado reconfigura as relações sociais, amplia o universo das vítimas e transforma crianças e adolescentes em protagonistas involuntários da crise contemporânea da segurança pública.

“Quando uma criança ou um adolescente passa a figurar entre as vítimas da violência letal, o problema já não pode ser interpretado apenas como uma questão de segurança pública. Trata-se de um indicador de que o conflito entre organizações criminosas está transbordando para a vida cotidiana e comprometendo as possibilidades de desenvolvimento de toda uma geração”, finaliza.


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