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Mais de 20 indígenas venezuelanos morreram de doenças evitáveis em abrigos impróprios em Teresina

"Muitos falam que os Warao não querem trabalhar, mas nunca oferecem emprego." A frase é de Yovini Torres, liderança do abrigo São João, em Teresina. Ao lado dele, Yamili Mendonza, mulher e liderança da Casa de Passagem, resume o outro lado do abandono: "Dentro do abrigo sempre precisamos de ajuda para levar a mulher grávida ao hospital, para levar a criança. A mulher não consegue se comunicar em português. Está muito difícil para nós."

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O levantamento das mortes dos indígenas Warao na capital piauiense foi realizado pela Caritas Arquidiocesana.

Pescadores e agricultores do delta do Orinoco, na Venezuela, os Warao chegaram a Teresina em 2019. Na época, eram 50 pessoas. Hoje, são a quarta maior etnia indígena do Piauí, segundo o Censo 2022 do IBGE. Mais de 89 famílias, cerca de 321 pessoas, vivem em abrigos marcados por surtos de tuberculose, desnutrição, diarreia, escabiose e casos de infecções sexualmente transmissíveis como HIV e sífilis.

Desde 2019, oito crianças entre dois meses e um ano e meio morreram de doenças evitáveis. No total, somadas todas as faixas etárias, foram 21 mortes, segundo levantamento da Cáritas Arquidiocesana de Teresina.

Em abril deste ano, uma auditoria do Tribunal de Contas do Piauí (TCE-PI) confirmou o que os Warao já denunciavam: os abrigos estão em situação precária. O relatório apontou ausência de políticas públicas específicas para os imigrantes, ambientes impróprios para convívio humano e improvisações estruturais que se tornaram permanentes.

Do Delta do Orinoco aos abrigos em Teresina

Os Warao são uma das etnias mais antigas da América do Sul, originários da região do Delta do Rio Orinoco, na Venezuela. Suas dificuldades começaram décadas antes da migração em massa para o Brasil. A antropóloga Lilian Gabriella Castelo Branco explica que, desde os anos 1960, o povo sofre com o avanço de empresas petrolíferas, narcotráfico, grilagem de terras e mineração em seus territórios, causando surtos de doenças e violações sistemáticas que iniciaram os processos migratórios.

A pesquisadora conta que, antes da crise de 2014, o episódio mais devastador foi em 1992, quando os Warao enfrentaram um surto de cólera que dizimou comunidades inteiras, dando início a um processo de estigmatização em que eram vistos como "sujos" pela sociedade venezuelana. Em decorrência da crise, passam a utilizar a mendicância como ato de reivindicação de direitos, movimento iniciado por mulheres que foram às cidades exigir assistência à saúde durante a epidemia e passaram a receber doações da população.

"Os Warao não compreendem a mendicância que a gente conhece como uma atividade depreciativa. Eles fazem como se fosse realmente um trabalho, que inclusive exige um horário. Eles têm todo um olhar como se isso fosse de fato uma atividade remunerada."

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Antropóloga, Lilian Gabriella Castelo Branco.

A morte de Hugo Chávez, em março de 2013, teve impacto direto na vida dos Warao. O governo chavista mantinha políticas públicas que os beneficiavam, incluindo acesso à saúde e fornecimento de suprimentos básicos. Com a crise econômica venezuelana de 2014, esse suporte desapareceu.

"O que eles enfrentam é algo que foram suportando por muito tempo. As violações afetaram vários eixos de suas vidas, desde a saúde até o trauma de ver pessoas morrendo em grandes quantidades. Na Venezuela, crianças e adultos morriam apenas por fome. O que os faz se deslocar é justamente essa inúmera sucessão de violações que ganhou grandes proporções”, explica a antropóloga Lilian Gabriella Castelo Branco.

Os Warao passaram a migrar para o Brasil principalmente por Roraima a partir de 2014, com fluxo crescente em 2016. Os que hoje estão em Teresina percorreram os estados do Norte, passando por Belém, no Pará, cidades do Maranhão, até chegar ao Piauí. São originários das localidades de Antônio Dias e Tucupita, na Venezuela.

Francisco Júnior, conhecido por Júnior do MP3, coordenador do Movimento Pela Paz na Periferia, conta que os primeiros Warao chegaram a Teresina e se instalaram na Praça Saraiva, no centro da capital, em cenário de completo abandono pelo poder público. Sem equipes da prefeitura ou do estado no local, o movimento os transportou para um espaço no bairro Poti Velho, na Zona Norte. "Levamos até o Centro Social do Poti Velho. Fiquei desesperado porque estava dando abrigo, mas faltava comida e faltava água”, lembra.

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Francisco Júnior, conhecido por Júnior do MP3, coordenador do Movimento Pela Paz na Periferia

A Pastoral do Povo de Rua e outras ONGs garantiram a alimentação inicial, mas o poder público só apareceu após Júnior do MP3 convocar a imprensa. "Esperamos a boa vontade da Prefeitura de Teresina para fazer o acolhimento, não apareceu ninguém. Então, convoquei a imprensa. Foi quando a Secretaria Municipal de Assistência Social (Semcaspi) apareceu, mas com muita dificuldade”.

A recepção, segundo ele, foi marcada por hostilidade e choque cultural. As cestas básicas fornecidas eram distantes da cultura alimentar Warao, causando desnutrição, especialmente entre as crianças. "Nós tivemos muitas mortes de criança por fome. Ninguém diz isso, mas é por fome, porque faltava comida nos abrigos"

Nós, teresinenses, contribuímos para as mortes dessas crianças"

Júnior do MP3Coordenador do Movimento Pela Paz na Periferia

Mortes com causa e endereço

A busca dos Warao por uma vida melhor em Teresina transformou-se em um cenário de institucionalização prolongada. Na capital piauiense, passaram a enfrentar barreiras linguísticas, preconceito e doenças que já deveriam ter sido erradicadas nos espaços de acolhimento. Com o tempo, a infraestrutura precária revelou novos problemas: falta de segurança, exposição à criminalidade e o desgaste físico dos prédios, consolidando uma crise sanitária silenciosa e letal.

De todas as faixas etárias, as mortes de crianças representam 38,1% do total registrado entre 2019 e 2026. O levantamento da Cáritas aponta que, nas crianças de 0 a 2 anos, as principais causas estão relacionadas a infecções intestinais, desnutrição grave e doenças respiratórias. Entre os idosos, predominam doenças cardíacas, AVC e câncer. Entre adultos de 18 a 59 anos, as causas incluem duas mortes por Covid-19, uma por eletrochoque, tuberculose e doença cardíaca.

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Abrigos impróprios são apontados como um dos principais causadores das doenças nos Warao.

Em 2021, os Warao enfrentaram um recorde na morte de crianças nos abrigos de Teresina. Ao todo, foram registrados quatro casos entre os meses de junho e novembro. Os laudos apontam infecção intestinal, desnutrição, pneumonia e intoxicação. Todas doenças evitáveis, todos os casos em espaços sob gestão do poder público.

Um desses casos condensa o que os Warao denunciavam então e repetem até hoje. Um bebê de um mês, nascido em Teresina, morreu de infecção alimentar em 8 de junho de 2021. Os pais, que mal falavam português, denunciaram que foram sozinhos buscar atendimento médico. A Semcaspi afirmou ter levado a família à UPA do Satélite, na zona Leste, onde a criança chegou a melhorar. Com nova piora, os pais o encaminharam ao cacique, seguindo os rituais da cosmologia Warao. Saíram do abrigo do Emater para o CSU Buenos Aires. O bebê morreu com um mês de vida.

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Os Warao reclama da falta de higiene e água dos banheiros, que utilizam baldes para descarga.

Cada morte tem nome, tem rosto, tem causa identificada e tem uma doença que a medicina conhece e que, em condições dignas, poderia ter sido tratada. São mortes documentadas, com laudos, com datas, com endereço. O que os números não mostram é por que, seis anos depois da chegada dos primeiros Warao a Teresina, crianças ainda morrem de diarreia e desnutrição em abrigos sob gestão do poder público. Parte da resposta está nos próprios espaços onde vivem e no vácuo entre o que o sistema de saúde oferece e o que os Warao conseguem, ou aceitam, receber.

O hospital como "lugar de morte"

Para a antropóloga Lilian Gabriella, a tragédia das mortes está profundamente ligada a uma falha de diálogo entre o sistema de saúde e a cosmologia Warao. Experiências traumáticas na Venezuela, onde parentes internados não retornavam vivos, criaram um medo estrutural da medicina ocidental que faz com que os Warao evitem o atendimento até que a situação seja crítica.

"Eu diria que o fator das mortes advém da falta de comunicação com os Warao. Eles precisam disso. Eles acabam não enxergando o espaço da saúde como espaço de cura. O hospital é ligado ao espaço onde vai existir morte. Então eles acabam não entregando a criança ou permitindo que uma pessoa adulta vá para a saúde."

A advogada e presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-PI, Jéssica Lima Rocha, aprofunda esse conflito. Na visão indígena, muitas enfermidades não são compreendidas como processos biológicos, mas como resultado de atritos sociais entre comunidades, o que os Warao chamam de "daño".

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Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-PI, Jéssica Lima Rocha.

Para eles, o daño vai além da ideia ocidental de doença, interpretado como resultado de feitiço, situado no campo espiritual e avaliado por seus líderes espirituais, responsáveis por distinguir se o adoecimento tem essa origem. Certas doenças, nessa concepção, não decorrem de falhas do corpo, mas de relações sociais tensionadas ou conflitos que extrapolam o plano físico

Para Jéssica Lima, quando um indígena é internado e recebe medicação sem mediação cultural, a comunidade frequentemente interpreta que o hospital ou o remédio foram os causadores da morte.

"A nossa forma, nosso protocolo de saúde, conflita com o protocolo místico deles. Eles acreditam na reza, na oração, e acreditam que a doença às vezes é dano, que é feitiço. E o feitiço é atrito entre comunidades.", defende.

As próprias lideranças Warao reconhecem a necessidade de mesclar a medicina ocidental com seus processos de cura espirituais. Mas a baixa cobertura médica nos abrigos força os indígenas a buscar as Unidades Básicas de Saúde, onde enfrentam, além da barreira cultural, a linguística. Sem tradutores, as UBS acabam recusando atendimento.

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Os Warao reforçam que o uso dos baldes são uma rotina nos abrigos para armazenar água.

As consequências dessa ausência aparecem de forma concreta dentro dos próprios abrigos. Em espaços superlotados, sem saneamento adequado e sem monitoramento médico regular, doenças infecciosas se propagam sem controle desde 2019. Os Warao denunciaram ao Jornal O Dia um surto de tuberculose com ao menos 15 infectados. A Fundação Municipal de Saúde negou a existência de casos ativos, mas os indígenas afirmam que não houve testagem universal, que infectados e não infectados convivem nos mesmos espaços e que equipes médicas não visitam os abrigos com regularidade.

A precariedade estrutural dos abrigos

Os abrigos onde vivem os Warao em Teresina não são apenas inadequados, são vetores de doenças. Ausência de espaço para guardar alimentos, ambientes insalubres e estrutura precária compõem o cotidiano de 321 pessoas, distribuídas em unidades confirmadas pelo TCE-PI como impróprias para convívio humano.

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Alex Perez, Warao e intérprete das comunidades

"No Poti Velho, o abrigo não tem ar fresco, tem goteira de água, a criança molha à noite. Água no banheiro não chega. A pessoa tem que pegar o balde, encher de água, botar no banheiro para banhar", relata Alex Perez, Warao e intérprete das comunidades.

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Alex, reclama que os abrigos não possuem água para diversas atividades, como até mesmo tomar remédio

A falta de água compromete até o tratamento médico básico. Alex descreve situações em que os indígenas recebem receitas médicas, mas não conseguem buscar os remédios nas UBS e quando os têm, não há água para tomá-los no horário correto. Funcionários dos abrigos chegaram a dizer aos Warao que, depois de tanto tempo em Teresina, já deveriam falar português, ignorando que a barreira linguística é estrutural, não uma escolha.

Yovini Torres, liderança do abrigo São João, reforça que a precariedade é uma constante que o poder público tenta mascarar com discursos oficiais: "Se você vai visitar os abrigos, não tem chuveiro, não chega água, o vaso sanitário não tem descarga, mas eles falam que não precisamos de nada. Isso é mentira."

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Yovini Torres, liderança do abrigo São João

As doenças que matam os Warao em Teresina estão documentadas nos laudos, nas fichas médicas e no levantamento da Cáritas. Infecção intestinal, desnutrição, doença respiratória, condições diretamente ligadas às estruturas onde vivem.

Para Yovini, a saída não passa por melhores abrigos, mas por um lugar que seja de fato deles. "Em abrigo é muito difícil, porque não é a nossa comunidade, é outro país, outro idioma, é muito difícil, muito regulamento. Nós, o Warao, precisamos ter um terreno para nós, para morar com a nossa família, criar peixe, criar agricultura. Tudo isso seria bom para nós, para o Warao."

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Os Warao denunciam que as cozinhas e espaços não são adequados para o manuseio dos alimentos.

Sem documentos, emprego e oportunidades

Yovini Torres, conta que existe uma narrativa distorcida sendo construída pela sociedade e pelo poder público, que rotula os Warao como preguiçosos ou desinteressados no trabalho. Ele contesta essa visão ao apontar que o problema não é falta de vontade, mas ausência de oportunidades que respeitem suas habilidades.

"Muitos falam de nós, que nós não sabemos trabalhar, mas essa pessoa, por que não oferece trabalho? Muitos deles falam só a parte negativa dos Warao. Por que eles não olham essa parte positiva que nós temos? Nós queremos sair daqui. Sabemos plantar, sabemos pescar, temos artesanato. Já fizemos muitos cursos: cursos de limpeza, serviços gerais, barbearia, mas até agora continuamos sem trabalho, sem emprego."

A advogada Jéssica Lima Rocha explica que a busca por trabalho e a regularização documental são faces da mesma moeda. Ela define os Warao como "sujeitos desconstitucionalizados", conceito criado pela professora e pesquisadora Maria Sueli, para categorizar esse povo que vive em um limbo jurídico onde direitos básicos são bloqueados por falhas burocráticas. Sem documentação regular, não conseguem abrir contas bancárias nem assinar contratos.

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Banheiros e demais espaços dos abrigos não estariam passando por manutenções.

"A maioria está inclusive com pedido de protocolo extinto e arquivado. Em tese, todos eles já deveriam ser naturalizados, poder votar, ter CPF, conta bancária. Mas nós temos muitos ainda que são apenas residentes temporários”, destaca a advogada.

A dificuldade é agravada por exigências administrativas incompatíveis com a realidade indígena, como a necessidade de e-mail individual para receber notificações do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados). Como resultado, muitos protocolos de refúgio são arquivados ou extintos, impedindo que indígenas que vivem no Brasil há mais de cinco anos alcancem a naturalização.

As indígenas Warao carregam o peso mais visível desse abandono. Com o Bolsa Família como única renda regular e os homens sem acesso ao mercado de trabalho, são elas que saem às ruas para pedir e enfrentam violências nesse processo.

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Yamili Mendonza, liderança Warao.

"As mulheres recebem Bolsa Família. Isso não dá para o homem, ele não tem trabalho. Por isso as mulheres saem na rua para pedir. Às vezes, sofremos aquela violência do branco também na rua", defende Yamili Mendonza, liderança Warao.

Avanços ainda insuficientes

Em meio ao cenário de precariedade, a educação se tornou um dos poucos avanços concretos. O projeto Ciranda Latina, que evoluiu para uma modalidade de EJA Intercultural em parceria com o estado e a Cáritas, na Escola Indígena Oka Ka Inaminanoko, mantida pela Secretaria de Educação do Piauí, abriu frentes de trabalho para a comunidade, inclusive com a contratação de 22 indígenas Warao como tradutores e intermediadores nas turmas. Para Yovini Torres, foi uma conquista histórica.

Governo do Piauí
Escola Indígena Oka Ka Inaminanoko em Teresina.

"A educação foi um passo muito gigante para nós, porque nós precisávamos disso. Quando chegamos, na primeira reunião que tivemos, foi pedido isso: educação, trabalho, moradia e saúde", afirma.

Mas a antropóloga Lilian Gabriella pondera que o avanço ainda não é suficiente para fixar o povo na cidade. "Mesmo com algumas mudanças, mesmo pequenas, foram mudanças importantes, como ter educação, ter uma escola voltada para os indígenas. Mas ainda assim parece que esse ainda não é o ponto essencial para fazê-los permanecer", lamenta.

Mesmo na Venezuela, poucos Warao tiveram contato com a universidade indígena, e os que chegaram a estudar não concluíram o curso por causa da crise. Um deles tornou-se técnico em enfermagem, mas hoje, em Teresina, sem documentos, perdidos ao longo do caminho até o Piauí, não tem como comprovar a formação. Entre eles, há um consenso: é a educação, o trabalho e a terra que podem mudar os rumos das suas vidas.

A mesma luta, outro país

Os Warao chegaram a Teresina fugindo de violações que marcaram gerações, como o avanço da mineração sobre seus territórios, o narcotráfico, a cólera, a fome e a crise venezuelana. No Piauí, encontraram um cenário que, em muitos aspectos, repetiu o que deixaram para trás: doenças sem tratamento, espaços insalubres, invisibilidade e uma burocracia estatal que não foi feita para reconhecê-los.

Ainda assim, seguem aqui. Participam de reuniões, integram comissões, denunciam à imprensa, aprendem português, as mulheres vão às ruas porque não veem outra saída, fazem cursos de barbearia sendo pescadores e agricultores. Vinte e uma pessoas já não puderam continuar esperando, oito delas eram crianças que não chegaram a completar dois anos de vida.

Divulgação/TCE-PI
Auditoria do TCE revela precariedade e falhas na assistência a venezuelanos em Teresina

O que pedem não mudou desde que chegaram: terra para morar, plantar e pescar. Documentos que os reconheçam como o que já são: pessoas que estão no Brasil há seis anos, que aqui tiveram filhos, que aqui enterraram seus mortos. Para as lideranças Warao, Teresina ainda é o lugar onde esse futuro pode ser construído. Falta o poder público chegar à mesma conclusão.

A luta que nós temos é uma moradia digna, onde nós possamos viver com a nossa família, com o nosso filho. E até agora não temos esse pedido atendido. Continuamos na mesma situação, nos abrigos

Yovini TorresLiderança Warao

O que o poder público responde

O Ministério dos Povos Indígenas afirma acompanhar a situação dos Warao em contexto urbano em articulação com órgãos federais, estaduais e municipais, mas distribui responsabilidades: vigilância epidemiológica, atendimento e notificação de óbitos cabem aos municípios e estados, assim como a execução direta das ações de saúde pelo SUS. Sobre surtos de doenças, diz que as medidas são conduzidas pelas autoridades sanitárias locais, com suporte federal quando necessário.

Quanto aos recursos repassados ao município, o ministério informa que os repasses seguem instrumentos legais vigentes e que a aplicação e prestação de contas são responsabilidade dos entes executores. Sobre a regularização migratória dos Warao, afirma que o processo é conduzido pelos órgãos federais competentes, com apoio de organismos internacionais, cabendo à pasta atuar de forma articulada para garantir acesso a direitos e serviços.

A Fundação Municipal de Saúde (FMS) afirma acompanhar continuamente os Warao em Teresina por meio de equipes de atenção primária, vigilância epidemiológica e UBS, com encaminhamentos para serviços especializados quando necessário. Há cronograma de vacinação em andamento nos abrigos Buenos Aires, Poty Velho, Casa de Passagem, Miguel Rosa, São João e Tabuleta. Sobre tuberculose, a FMS diz ter realizado investigação epidemiológica, busca ativa, coleta de exames e acompanhamento medicamentoso, atribuindo a separação física dos acolhidos como responsabilidade compartilhada com os gestores dos espaços.

A fundação nega orientação institucional para recusa de atendimento e afirma que as barreiras linguísticas são contornadas com apoio de lideranças, mediadores e instituições parceiras. Doenças crônicas como diabetes e hipertensão são acompanhadas no fluxo regular da atenção primária, com consultas, monitoramento e dispensação de medicamentos. A FMS diz ainda realizar testagens para ISTs, incluindo HIV e sífilis, com tratamento e acompanhamento dos diagnosticados.

A Secretaria Estadual de Desenvolvimento, Assistência Social, Família e Combate à Fome (SASC) afirma que, desde a chegada dos primeiros grupos, em 2019, o estado atua em parceria com a Prefeitura de Teresina e a sociedade civil para garantir proteção social às famílias Warao. Segundo a pasta, os abrigos foram reformulados e as famílias passaram a contar com acompanhamento de equipes de assistência social, saúde e educação, além de acesso a documentação, vacinação, pré-natal e programas sociais federais. A secretaria cita ainda o incentivo ao artesanato, a construção de uma escola indígena, onde 22 Warao trabalham, e a elaboração do Plano Estadual de Migrantes.

A Fazenda da Paz, organização responsável pela gestão dos abrigos em contrato renovado por mais cinco meses em abril deste ano, e a Secretaria Municipal de Cidadania e Assistência Social (Semcaspi) foram procuradas em reiteradas ocasiões e não se manifestaram até o fechamento desta reportagem.