Cada vez mais ameaçado de extinção, o tatu-bola, que inclusive foi escolhido como mascote da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, tem perdido espaço em seu habitat natural. No Piauí, porém, ainda é possível encontrar a espécie, especialmente em áreas de Caatinga. Pesquisadores localizaram cinco animais durante uma expedição realizada entre os dias 1º e 6 de setembro, no Parque Estadual do Cânion do Rio Poti, em Buriti dos Montes, na região Centro-Norte do Piauí.
A expedição permitiu a catalogação e a análise dos animais, com o objetivo de reunir informações que possam contribuir para pesquisas científicas e ações de conservação da espécie.
Durante o trabalho de campo, os tatus-bola foram estudados seguindo normas de biossegurança e de bem-estar animal. Foram coletadas amostras biológicas, como sangue, fezes, tecidos e parasitas, além do registro de peso e medidas dos animais para avaliar as condições de saúde. Após a coleta, todos foram devolvidos ao exato local onde haviam sido encontrados.
O tatu-bola está ameaçado de extinção principalmente devido à destruição de seu habitat natural e à caça ilegal. O desmatamento e as queimadas na Caatinga e no Cerrado reduzem as áreas disponíveis para a espécie, enquanto o avanço da agropecuária contribui para a perda e fragmentação desses ambientes.
A iniciativa faz parte do projeto No Clima da Caatinga, realizado pela Associação Caatinga em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. O trabalho de campo reuniu veterinárias do Instituto Tamanduá, além de um fotógrafo e um especialista em geoprocessamento. A iniciativa também contou com o apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros, ligado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
A expedição de setembro marca a terceira fase de um trabalho iniciado há dez anos. Em 2016, a primeira visita da equipe ao cânion confirmou a presença histórica do tatu-bola na região e forneceu dados técnicos que contribuíram para a criação do Parque Estadual do Cânion do Rio Poti, unidade de conservação com cerca de 24 mil hectares, que abriga uma rica diversidade de fauna, flora e sítios de arte rupestre.
A unidade de conservação no Piauí fica próxima a áreas protegidas localizadas no lado cearense do mesmo cânion, como a Área de Proteção Ambiental (APA) Boqueirão do Rio Poti e a Reserva Natural Serra das Almas. Juntas, essas áreas formam um corredor ecológico para a fauna nativa.
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Mapeamento genético e prevenção de doenças
O material recolhido durante a expedição será utilizado para abastecer um banco de dados unificado, que poderá auxiliar na definição de estratégias de manejo e conservação da espécie na Caatinga. As análises devem indicar o grau de parentesco entre as populações, o nível de endogamia, que corresponde ao cruzamento entre indivíduos aparentados, e a diversidade genética do tatu-bola na região.
"A gente coletou sangue, fezes, ectoparasitas e tecido para fazer diversas análises. Essas amostras vão permitir estudos de genética populacional, que fazem parte dos esforços de conservação da espécie”, explica a veterinária Maíra Prestes, do Instituto Tamanduá.
“Ter essas amostras guardadas serve tanto para já pesquisar alguns patógenos (agente biológico capaz de causar doença) quanto para o futuro. Se um dia houver algum declínio populacional na região e não soubermos a causa, teremos amostra para investigar a presença ou ausência desses patógenos. Essa é a importância de ter esse banco", complementa a profissional.
Para o coordenador de conservação da Associação Caatinga, Samuel Portela, compreender o perfil genético das populações é importante para direcionar recursos e ações de proteção às áreas consideradas mais vulneráveis.
"O valor desse trabalho está em transformar dados genéticos em decisões concretas de manejo. Não basta apenas registrar a presença da espécie; precisamos saber quais populações estão mais vulneráveis para agir no lugar certo", frisa Samuel Portela.