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Cinema piauiense: a resistência que transforma histórias em arte, com criatividade e talento

Produzir cinema vai muito além de captar imagens e transformar uma história em filme. Construir um roteiro envolvente, reunir uma equipe, organizar equipamentos, buscar recursos e fazer a obra chegar ao público fazem parte da rotina de quem escolheu viver do audiovisual. No Piauí, essa trajetória exige, acima de tudo, criatividade, planejamento e resistência.

O cinema existe no estado há mais de meio século. Foi em meados da década de 1970 que as produções ganharam força com a chegada das câmeras Super-8, tornando a realização de filmes mais acessível. Pouco depois, por incentivo do poeta Torquato Neto e apoio do médico Antônio Noronha, um grupo de artistas, jornalistas e cineastas deu origem ao Cinema Marginal Piauiense, considerado o marco da produção cinematográfica no estado.

Érica Santos
O setor vem se consolidando, especialmente com uma nova geração od

Desde então, o setor vem se consolidando, especialmente com uma nova geração de realizadores que participa de festivais nacionais e internacionais, levando o nome do Piauí para além das fronteiras do estado. Há 16 anos atuando no audiovisual, a produtora Maria Rufino destaca que empreender no setor, fora dos grandes centros de produção, exige persistência. Sócia de uma produtora, ela afirma que, apesar dos desafios, o estado possui profissionais qualificados e um grande potencial criativo.

“Empreender no audiovisual no Piauí é um exercício constante de criatividade, planejamento e, principalmente, resistência. Produzir fora dos grandes centros significa enfrentar desafios como a menor oferta de investimentos públicos e privados, a falta de profissionais em algumas áreas, poucas empresas especializadas e um mercado que ainda está em desenvolvimento. Mas, ao mesmo tempo, o Piauí tem um enorme potencial. Temos profissionais talentosos, temos uma cultura muito rica, paisagens e personagens que carregam grande força narrativa e enorme potencial de circulação”, afirma.

Entre os principais obstáculos enfrentados pelo setor, Maria aponta que a maior dificuldade ainda é transformar projetos em filmes. Embora a distribuição continue sendo um desafio para produções independentes, a captação de recursos permanece como o principal gargalo para os realizadores piauienses.

Arquivo pessoal
Maria Rufino aponta que a maior dificuldade ainda é transformar projetos em filmes

“Quando olhamos para o mercado audiovisual brasileiro como um todo, a distribuição é, sem dúvida, um dos maiores desafios para as produções independentes realizadas fora dos grandes centros. No contexto do Piauí, porém, ainda enfrentamos um desafio anterior: produzir. A captação de recursos continua sendo o principal gargalo para transformar bons projetos em filmes. Na prática, convivemos com dois grandes desafios: primeiro, viabilizar financeiramente a produção; depois, garantir que a obra encontre seu público”, explica.

Segundo a produtora, os editais públicos são fundamentais para manter o setor em atividade, mas ainda não são suficientes para garantir um crescimento contínuo da cadeia de audiovisual no estado.

Os editais públicos são um dos principais pilares para o desenvolvimento do audiovisual brasileiro. No Piauí, grande parte da produção audiovisual só se torna viável graças às políticas públicas de fomento. Agora, se a pergunta é se os editais atualmente disponíveis são suficientes para manter e desenvolver o audiovisual no Piauí, a resposta é ‘não

Maria Rufinoprodutora

Ela lembra que a Lei Paulo Gustavo representou um marco para o setor e destaca a criação do Sistema Estadual de Incentivo à Cultura (SIEC) do Audiovisual como um avanço importante. No entanto, defende a implantação de uma política permanente de incentivo que ofereça previsibilidade aos produtores.

Apesar das dificuldades, Maria avalia que o cenário tem evoluído significativamente. Hoje, o Piauí já conta com profissionais qualificados em praticamente todas as áreas da produção audiovisual, embora grandes projetos ainda recorram a especialistas de outros estados.

Ela também acredita que o cinema piauiense vive um momento de fortalecimento, impulsionado pela crescente participação em festivais e pelo interesse do público em histórias que retratam a identidade local.

“O mercado ainda está em consolidação, mas apresenta avanços importantes. O cinema piauiense conquistou mais visibilidade nos últimos anos e vem ampliando sua presença em festivais, mostras e canais públicos. O público demonstra interesse crescente por histórias que dialogam com sua identidade e seu território. O desafio agora é transformar esse reconhecimento artístico em um mercado economicamente sustentável”, conclui.

Cineasta piauiense defende mais oportunidades para o audiovisual no estado

O amor pelo cinema levou o jornalista, roteirista e diretor Thiago Furtado a transformar uma paixão em profissão. Com 25 prêmios nacionais no currículo e obras como Curica! (2021), O Casulo e a Borboleta (2017) e A Cigana (2025), ele iniciou a carreira em Teresina, mas decidiu se mudar para Salvador (BA), onde vive há cinco anos e sete meses, em busca de mais oportunidades para desenvolver seus projetos.

Arquivo pessoal
Thiago Furtado diz que há bons profissionais no mercado, mas que os incentivos ainda são insuficientes para atender ao setor

Thiago conta que o interesse pelo audiovisual surgiu aos 22 anos, durante um estágio em uma produtora. Embora sempre gostasse de escrever e assistir a filmes, foi naquele ambiente que percebeu que poderia transformar esse interesse em carreira. Ao lado de amigos, criou um coletivo de produção audiovisual e passou a realizar os primeiros filmes de forma independente, utilizando equipamentos emprestados. Com o tempo, vieram os primeiros editais, a remuneração da equipe e o reconhecimento em festivais pelo país.

Apesar das conquistas, o diretor afirma que produzir cinema no Piauí ainda é um desafio. Segundo ele, embora o estado conte com muitos profissionais qualificados, os incentivos ainda são insuficientes para atender à demanda do setor. Para Thiago, além da falta de recursos, o audiovisual ainda não ocupa o espaço que deveria nas políticas públicas de cultura. Ele acredita que a categoria precisa estar mais organizada para reivindicar investimentos e fortalecer o setor.

Arquivo pessoal
O amor pelo cinema levou o jornalista, roteirista e diretor Thiago Furtado a transformar uma paixão em profissão

"Os poucos editais que já rolaram no Piauí são insuficientes para o volume de gente que quer produzir. De lá para cá eu observei um crescimento nas produções, mas não observei esses editais sendo suficientes. A categoria aqui [Salvador] é mais unida e tem uma organização melhor. No Piauí isso ainda é muito raro. Essa organização do setor tem que vir para poder exigir política pública, para poder exigir edital", avalia.

Foi justamente em busca de um mercado mais estruturado que ele decidiu morar em Salvador. A mudança permitiu ampliar contatos profissionais, participar de novos projetos e conquistar espaço em uma indústria mais consolidada. Ainda assim, ele lembra que essa é uma área que exige muita resiliência, tanto pessoal quanto profissional.

A gente não pode romantizar trabalhar com arte. A gente precisa se alimentar, pagar contas. Você fica refém de um mercado que suga

Thiago Furtadojornalista, roteirista e diretor

Esse foi um dos motivos que fez Thiago deixar, recentemente, o emprego fixo em uma produtora para retomar a carreira independente. Segundo ele, a experiência acumulada e a rede de contatos construída nos últimos anos lhe deram segurança para investir novamente em projetos autorais.

Mesmo vivendo fora do estado, o Piauí continua sendo a principal inspiração para suas produções. O diretor já prepara um novo longa-metragem ambientado no estado e reforça a importância de contar histórias locais. "O Piauí vai estar sempre no radar. Foi onde tudo começou. A gente tem muita história boa que ainda precisa ser contada", diz.

Para ele, além de investir na produção de filmes, é fundamental formar público para o cinema local. "A gente tem que parar de se espantar quando vê alguém do Piauí na tela. É mais um filme do Piauí, mais uma história sendo contada. A arte precisa ser valorizada antes mesmo de conquistar reconhecimento fora", conclui Thiago Furtado.

Cinema piauiense fortalece identidade própria e amplia espaço no cenário nacional

Produzir cinema no Piauí é também construir narrativas que valorizam a cultura, os territórios e os personagens locais. Em um estado que, há mais de cinco décadas, vem consolidando sua produção audiovisual, uma nova geração tem conquistado espaço em festivais nacionais e internacionais, levando histórias piauienses para diferentes públicos. Para o produtor, fotógrafo e realizador audiovisual Weslley Oliveira, esse movimento representa o fortalecimento de um cinema cada vez mais autoral e conectado às suas origens.

Marielle Rangel
WeOliveira, produtor, fotógrafo e realizador audiovisual

Formado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Weslley iniciou sua trajetória no audiovisual ainda durante a graduação. Foi na universidade que teve os primeiros contatos com a linguagem cinematográfica e, ao lado de outros estudantes, ajudou a fundar o coletivo Labcine, que mais tarde deu origem às produtoras Labcine Films e Cocais Filmes.

Ao longo de mais de dez anos de atuação, participou da produção de diversos curtas e longas-metragens, entre eles Reação do Gueto, Cidade Entre Rios, Tempo de Pipa, Caldeirão e O Boi Romeiro, obras que conquistaram prêmios e circularam por festivais no Brasil e no exterior. Para Wesley, o principal diferencial do cinema produzido no estado está justamente nas histórias que durante muito tempo permaneceram fora das grandes produções nacionais.

Acho que o principal ponto forte do cinema produzido no Piauí está justamente naquilo que, durante muito tempo, permaneceu invisibilizado. Nos últimos anos, temos percebido um movimento cada vez maior de interesse dos grandes centros de produção, especialmente do eixo Rio-São Paulo, por histórias que vêm do interior do país e de territórios historicamente pouco representados no audiovisual brasileiro

Weslley Oliveiraprodutor, fotógrafo e realizador audiovisual

Segundo o produtor, o interesse por essas narrativas demonstra o potencial das produções piauienses, que encontram na diversidade cultural e nas paisagens do estado elementos capazes de dialogar com diferentes públicos. Apesar desse reconhecimento crescente, ele avalia que o setor ainda precisa avançar em áreas fundamentais, como formação profissional, investimentos e circulação das obras.

"Temos paisagens únicas, uma diversidade cultural muito rica e personagens que carregam experiências singulares. Isso faz com que nossas produções despertem curiosidade e dialoguem com públicos de diferentes lugares. O grande desafio agora é fortalecer nosso próprio sistema de produção. Precisamos ampliar os investimentos em formação, criar condições para que mais realizadores piauienses possam desenvolver seus projetos com qualidade técnica e artística e fortalecer também as etapas de distribuição e circulação dessas obras", explica.

Para Weslley Oliveira, o audiovisual deve ser compreendido como uma indústria criativa capaz de movimentar a economia, gerar empregos e preservar a memória de um povo. Ao falar sobre a identidade do cinema piauiense, o diretor acredita que ela ainda está em construção, mas já apresenta características marcantes.

"Acredito que essa identidade ainda está em processo de construção. Temos muitos realizadores produzindo no Piauí, alguns com trajetórias mais longas, outros iniciando agora, mas todos ainda desenvolvendo seus próprios olhares, linguagens e interesses estéticos", afirma.

Ele explica que a consolidação dessa identidade depende não apenas da produção de filmes, mas também da ampliação dos espaços de exibição e do fortalecimento de toda a cadeia audiovisual.

"Precisamos fortalecer toda a cadeia do audiovisual: ampliar os espaços de exibição, investir em cineclubes, festivais, formação de público, escolas de cinema e políticas que aproximem os realizadores da sociedade. É desse diálogo permanente que uma identidade cinematográfica se fortalece", pontua.

Ana Falcão
Para Weslley, o audiovisual deve ser compreendido como uma indústria criativa capaz de movimentar a economia, gerar empregos e preservar a memória de um povo

Mesmo considerando que ainda há um caminho a percorrer, Weslley vê um cenário promissor para o audiovisual produzido no estado. Para ele, os cineastas piauienses têm demonstrado um compromisso crescente em contar histórias a partir do próprio território, retratando personagens, culturas e modos de vida que ajudam a construir uma representação cada vez mais autêntica do Piauí nas telas.

"Acredito que, à medida que fortalecermos as condições de produção, circulação e debate, essa identidade do cinema piauiense se tornará cada vez mais consistente e reconhecida", conclui.