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Após 26 anos sem notícias, família coleta DNA em esperança de encontrar irmão desaparecido

Ficar anos sem notícias de um familiar desaparecido é algo devastador para quem permanece na espera por respostas. Mesmo quando as possibilidades de busca parecem se esgotar, a esperança de encontrar o ente querido e vê-lo retornar para casa permanece. No Piauí, foram registrados 415 desaparecimentos somente no primeiro semestre de 2026, uma média de mais de dois casos por dia.

Em Teresina, uma família procura há 26 anos por Eloia José dos Santos Neto. Ele tinha 39 anos quando saiu de casa, no dia 31 de dezembro de 1999, e nunca mais foi visto. Nesta terça-feira (25), o caminhoneiro Francisco José Borges da Silva, irmão de Eloia, compareceu ao Instituto de DNA Forense da Polícia Civil do Piauí para realizar a coleta de material genético e ajudar nas buscas.

Francisco soube da Semana de Mobilização de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas pela imprensa e decidiu participar da campanha, realizada em todos os estados brasileiros. A ação é coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, e os dados serão inseridos nos bancos Piauiense e Nacional de DNA para comparação com perfis de pessoas não identificadas, vivas ou falecidas.

Isabela Lopes/ODIA
Após 26 anos sem notícias, família coleta DNA em esperança de encontrar irmão desaparecido

Segundo Francisco, Eloia tinha problemas de saúde mental e apresentava episódios de alucinação, que se agravaram com o consumo de bebidas alcoólicas. “Hoje ele está com 65, se estiver vivo. Ele foi diagnosticado pelos médicos como tendo a mentalidade de uma criança de 6 anos. Além do problema mental, ele também tinha problemas com bebida”, conta.

O desaparecimento ocorreu enquanto a família estava em casa. Eloia saiu para tomar banho enquanto a mãe preparava o café. Quando perceberam que ele não estava mais no local, começaram a procurá-lo. Eloia teria pulado o muro do quintal, pediu uma camisa emprestada a um colega e desapareceu. Desde então, a família nunca desistiu de procurar.

Como é caminhoneiro e percorre diferentes regiões do país, Francisco conta que passou a observar pessoas que encontrava durante as viagens, na tentativa de reconhecer o irmão. A mãe de Eloia tem 83 anos e, segundo Francisco, nunca perdeu a esperança de encontrar o filho. A família, inclusive, evita falar muito sobre o assunto para não provocar sofrimento à matriarca, mas percebe que a ausência ainda está presente em sua rotina.

A gente nota que, às vezes, quando ela faz alguma coisa para os filhos, alguma festa em casa, ela coloca um prato a mais. Sempre com aquela possibilidade de que ele ainda esteja entre nós

Francisco Borgesprocura o irmão desaparecido há 26 anos

Para Francisco, independentemente do resultado da análise genética, ter uma resposta poderá trazer algum conforto depois de tantos anos de incerteza. “Queremos ter pelo menos uma notícia para aquietar o coração, coisa que minha mãe até hoje não tem”, completou.

DNA ajuda a cruzar informações e pode trazer respostas às famílias

Para as famílias que têm um parente desaparecido, o primeiro passo é registrar o caso em uma delegacia. Em Teresina, o atendimento é realizado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que possui uma unidade específica para ocorrências envolvendo pessoas desaparecidas. Após o registro, os familiares são orientados a procurar um ponto de coleta para fornecer material genético.

No Piauí, a coleta pode ser realizada no Instituto de DNA Forense e nos núcleos regionais de Polícia Científica. O material é coletado por meio de um swab (haste semelhante a um cotonete), que recolhe saliva e células da parte interna da bochecha. Depois, a amostra é encaminhada para o processamento e inclusão no banco de perfis genéticos.

Isabela Lopes/ODIA
DNA ajuda a cruzar informações e pode trazer respostas às famílias

Segundo Jesus Cardoso, perito criminal do Instituto de DNA Forense da Polícia Civil e coordenador do projeto no Piauí, os perfis genéticos coletados no estado são integrados à Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos, que permite o cruzamento de informações entre os estados brasileiros.

Além da coleta de familiares, o sistema também pode utilizar objetos pessoais da pessoa desaparecida como referência genética. Escova de dentes, aparelho de barbear, pente, brinco ou outros objetos de uso exclusivo podem ser importantes para a investigação. Mesmo que o desaparecimento tenha ocorrido há muitos anos, esses objetos não devem ser descartados. Dependendo da forma como foram armazenados, ainda podem conter material genético. “Às vezes, dependendo de como o familiar guardou esses objetos, o DNA pode estar guardado lá. As células do cabelo, por exemplo, podem durar muito tempo”, explica.

Parentes mais próximos têm mais chances de compatibilidade

Para a coleta de referência genética entre familiares, os parentes mais próximos são os mais indicados, principalmente pais, filhos e irmãos da pessoa desaparecida. Tios também podem participar, mas, quanto maior o grau de parentesco, maior a necessidade de reunir mais familiares para aumentar a precisão da análise.

No caso de irmãos, por exemplo, a análise pode ser mais complexa porque eles não necessariamente herdam os mesmos marcadores genéticos dos pais. Por isso, quanto maior o número de irmãos que participam da coleta, melhor pode ser o cálculo estatístico realizado pelo sistema.

“Se a única família que você tem para doar são irmãos, quanto maior o número, melhor. Nós temos um software, um programa, que vai fazer um cálculo estatístico da probabilidade desse parente desaparecido ser irmão desses doadores”, destaca o perito criminal Jesus Cardoso, acrescentando que, além do material genético, é importante que a família disponibilize fotografias da pessoa desaparecida para que possa ser feita a biometria facial.

Isabela Lopes/ODIA
Parentes mais próximos têm mais chances de compatibilidade

Desde que o Piauí passou a integrar esse trabalho, em 2021, já houve casos solucionados com a utilização da genética. Segundo Jesus Cardoso, os cruzamentos podem ocorrer inclusive entre estados diferentes, o que demonstra a importância da integração nacional.

“Hoje os 26 estados, junto com o Distrito Federal, estão dentro dessa rede de genética. Então todos os materiais que são doados ou que são pegos restos mortais são colocados nesse Banco Nacional”, conta.

Para o perito, porém, a importância da campanha vai além de encontrar uma pessoa desaparecida. Mesmo quando o resultado confirma que o familiar morreu, a identificação pode encerrar anos de incerteza e permitir que a família finalmente tenha uma resposta.

Isabela Lopes/ODIA
Parentes mais próximos têm mais chances de compatibilidade

“O projeto desaparecido, essa campanha, tem uma importância enorme para a sociedade. Quantas famílias não procuram seus parentes do IML, com aquela sensação de não saber onde ele está. Por mais que a família encontre o seu parente morto, mas aquela dúvida que corrói anos e anos, ela é resolvida. De uma forma não muito positiva, mas vai dar um descanso, um conforto ao familiar que vai poder sepultar e fazer todos os rituais que uma família pode fazer com seu alguém querido e resolver outras pendências jurídicas, como crianças que não têm pensão porque os pais não foram achados”, complementa o coordenador do projeto.

Quem tiver dúvidas sobre a coleta, pode entrar em contato com Instituto de DNA Forense através do telefone (86) 99484-9989 - WhatsApp.