Os municípios de Baixa Grande do Ribeiro e Uruçuí estão entre os maiores produtores de soja do país, o que tem contribuído para o crescimento do PIB estadual. Em 2023, o Piauí registrou expansão de 3,1%, acima da média do Nordeste. Na contramão do desenvolvimento econômico, o uso de agrotóxicos tem causado impactos ao meio ambiente no Sul do estado. O Painel de Monitoramento dos Agrotóxicos em Recursos Hídricos, do Ministério do Meio Ambiente, lançado na última semana, identificou pelo menos sete tipos de defensivos agrícolas no rio Uruçuí Preto.
Foram coletadas seis amostras entre 2024 e 2025, com 294 análises realizadas. A incidência de agrotóxicos foi de 6,1%, abaixo da média nacional de 7,2%. Ainda assim, duas substâncias ultrapassam o limite permitido pela legislação: o S-Metolacloro, detectado em 100% das amostras, e a Ametrina, presente em 66,7% delas, banida na União Europeia desde 2002. A Atrazina, encontrada em 33,3% das amostras, também é proibida no bloco desde 2004.
Além destas, foram encontrados Acefato (33,3%), Clomazona (33,3%), Malationa (16,7%) e Simazina (16,7%), todas associadas ao cultivo de soja na região.
Para o engenheiro ambiental e sanitarista Tiago Fonseca, mesmo os agrotóxicos detectados dentro dos limites legais representam um risco, porque a ciência ainda não consegue medir os efeitos combinados dessas substâncias no ecossistema.
"A preocupação está não só na presença deles, mas nas suas ações sinérgicas dentro do corpo d'água, o que é uma problemática. Sabemos os efeitos, o potencial risco deles nas espécies, no ecossistema aquático, de forma individual, mas de forma sinérgica é diferente."
Fonseca explica que tanto o S-Metolacloro quanto a Ametrina são herbicidas potencialmente tóxicos. O primeiro é usado no início da germinação das lavouras para controle de ervas daninhas, mas pode afetar plantas que não são o alvo, comprometendo a germinação de outras espécies.
"A ametrina possui uma grande persistência no solo, ela permanece muito mais tempo no solo e também possui um efeito inibitório na fotossíntese de algas e também no desenvolvimento. Em estudos feitos em peixes, foram observados que esse agrotóxico afeta o desenvolvimento de embriões e larvas."
O engenheiro concluiu que, mesmo com incidência abaixo da média nacional, a presença de substâncias tóxicas em ecossistemas aquáticos já é, por si só, um problema. "A elevada exposição a agrotóxicos, dependendo do tipo do agrotóxico, é um risco contínuo à saúde tanto do ecossistema, quanto dos seres humanos que vivem, que fazem uso daquele rio."
Impacto na comunidade
A coordenadora da Rede Ambiental do Piauí (Reapi), Tânia Martins, afirmou ao Jornal O Dia que Uruçuí é o município mais afetado, mas que as demais cidades do Cerrado piauiense, nas bacias do Parnaíba e do Gurgueia, também sofrem os efeitos da atividade agrícola na região.
Segundo ela, moradores já fizeram denúncias à Reapi relatando doenças de pele, cânceres e casos de aborto espontâneo. No entanto, a falta de exames e estudos aprofundados impede estabelecer uma correlação direta com o uso dos agrotóxicos.
Tânia também apontou falhas na fiscalização municipal da qualidade da água. Segundo a coordenadora da Reapi, pelo programa Vigiagua, do Ministério da Saúde, as prefeituras são responsáveis por realizar os testes, mas, mas nenhum município da região cumpre essa obrigação, alegando restrições orçamentárias.
"Os municípios têm obrigação de fazer análise da água, mas na região nunca foi obedecido, pois quem paga é o município e nenhuma cidade chega a fazer a análise. O que a gente sabe é dos danos percebidos: dos peixes, das pessoas que adoecem, que indicam câncer. Há uma certa negligência sem conhecer a causa, muitas causas de câncer e aborto."
O que diz a Semarh
A Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Piauí (Semarh) informou ao Jornal O Dia que não realiza monitoramento da qualidade da água do rio Uruçuí Preto, mas que há previsão para este ano e que acompanha sistematicamente outros 19 pontos nas bacias dos rios Gurgueia e Itaueiras, também inseridas na região do Matopiba. O monitoramento contempla nove parâmetros básicos de qualidade, conforme resolução do Conama.
"Os resultados têm demonstrado uma variação sazonal de conformidade e não conformidade em relação aos valores de referência previstos na referida norma, não representando, até o momento, nenhuma inferência definitiva acerca da impossibilidade de consumo humano da água desses cursos hídricos. Ainda, está previsto para este ano o monitoramento da qualidade da água do Rio Uruçuí Preto."
Em paralelo, a Semarh informou que a Secretaria de Planejamento está em processo de contratação de um estudo sobre o uso de agrotóxicos pelos empreendimentos agrícolas da região. A secretaria também desenvolve ações de fiscalização em Baixa Grande do Ribeiro, com análise de possíveis impactos ambientais. A pasta ressaltou que a autorização, o registro e o controle dos defensivos agrícolas são atribuições do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
"Nesse contexto, cabe à Semarh atuar na fiscalização ambiental, apuração de danos ambientais, monitoramento da qualidade ambiental e adoção de medidas administrativas relacionadas a impactos sobre recursos hídricos, solo, fauna, flora e demais aspectos ambientais decorrentes do uso inadequado desses produtos."
Sobre as denúncias de impactos na saúde de moradores, a Semarh afirmou que nenhum relato foi reportado ao órgão até o momento, e que segue com as ações previstas de monitoramento e fiscalização.
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