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75 anos do Jornal O Dia: Visita do Papa em Teresina, o dia em que nós fomos até ele

Na manhã de 8 de julho de 1980, Teresina acordou diferente. O entorno do aeroporto estava tomado por uma expectativa incomum. Pessoas começaram a chegar ainda na noite anterior, algumas apenas com a roupa do corpo, aguardando a visita que atravessou a madrugada. Não era dia de feira nem de eleição. Era o dia em que, pela primeira vez, um papa pisaria em solo piauiense.

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Arquivo/ O Dia
75 anos do Jornal O Dia: Visita do Papa em Teresina, o dia em que nós fomos até ele

“Ele veio até nós”. Essa foi a frase estampada na capa do jornal O DIA, resumindo o sentimento de gratidão que tomou conta da capital após a visita do papa João Paulo II. O registro traduzia a dimensão de um acontecimento raro, quase improvável, daqueles que pareciam contrariar a própria geografia. Distante dos grandes centros, Teresina passava a integrar, ainda que por poucas horas, o mapa do mundo católico.

João Paulo II desembarcou por volta das 10h no então aeroporto Santos Dumont, hoje Petrônio Portella. O gesto foi simples e protocolar: desceu do avião, acenou e seguiu para o carro oficial. Para quem aguardava desde a véspera, no entanto, o significado era muito maior. O líder máximo da Igreja Católica havia incluído o Piauí em seu roteiro, dando visibilidade a uma região historicamente acostumada a acompanhar grandes acontecimentos à distância.

Recebido pelo governador Lucídio Portella e outras autoridades, o papa seguiu em carro aberto até a área externa do aeroporto, onde uma multidão o aguardava. O veículo utilizado foi um Ford Galaxie Landau, fabricado em 1980, que permanece conservado até hoje e pertence à família Claudino.

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A memória daquele momento ainda é viva para quem acompanhou a visita de perto. O padre Tony Batista, Vigário Geral da Arquidiocese de Teresina, relembra o clima que tomou conta da cidade naquele dia: “Era um momento muito bonito, uma época de muita alegria e de muita esperança. Um novo Papa, vindo da Polônia, quebrando toda aquela tradição dos italianos e chegou como um grande peregrino, visitando o mundo”, disse.

Uma multidão recebeu o pontífice em um dia registrado como de 37º, segundo o jornal, mas isso não impediu que muitos participassem da recepção, ignorando o calor intenso. “Eu me lembro de uma frase do Papa aqui no aeroporto de Teresina: ‘Vocês não são obrigados a seguir o que eu digo, mas eu sou obrigado a dizer a verdade e a palavra de Deus’”, lembra o padre Tony.

A presença de João Paulo II em Teresina, porém, não constava inicialmente no roteiro oficial da viagem papal ao Brasil. A inclusão da capital piauiense só foi confirmada após uma articulação política e diplomática conduzida por lideranças locais com acesso direto ao Vaticano.

“Santo Padre, o povo passa fome"

Na época, o senador Petrônio Portella, o governador do Piauí e o então embaixador do Brasil junto à Santa Sé, Expedito Resende, piauiense de Piripiri, atuaram diretamente para viabilizar a passagem do pontífice pelo estado. A mobilização contou ainda com o apoio do arcebispo de Teresina, Dom José Freire Falcão, responsável por intermediar as negociações junto à Igreja.

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No palanque montado para a celebração, João Paulo II falou sobre fé, esperança e dignidade humana. Houve troca de gestos simbólicos, acenos e presentes. Um chapéu de couro, que não coube na cabeça do pontífice, arrancou sorrisos da multidão. Mas foi um gesto inesperado que marcou definitivamente a visita: durante o discurso, alguém ergueu uma faixa com a frase “Santo Padre, o povo passa fome”. “Isso deu a falar no Brasil inteiro e no mundo todo. Foi uma denúncia coletiva, da comunidade do Piauí inteiro”, relembra.

Ao todo, João Paulo II permaneceu em Teresina por cerca de 42 minutos, mais do que os 30 inicialmente previstos. Um dia antes, na Bahia, havia se encontrado com Irmã Dulce, reconhecida pelo trabalho junto aos pobres e que décadas depois seria canonizada. O Papa João Paulo II chegou ao Brasil em 30 de junho de 1980.

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Mais de quatro décadas depois, a visita segue sendo lembrada como um marco para a Igreja Católica no Piauí. Atualmente, o estado é o mais católico do Brasil, conforme o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com 77,4% da população declarando-se católica.

Para o padre Tony Batista, a passagem do pontífice contribuiu para fortalecer a fé e ampliar a consciência social da Igreja local, deixando marcas que ainda repercutem. “Nossa fé ficou mais robusta, mais autêntica e mais audaciosa. Essa repercussão ainda não terminou”, conclui.

O papado de João Paulo II durou 26 anos e cinco meses, sendo um dos mais longos da história da Igreja Católica. Karol Wojtyla, como era chamado antes de se tornar papa, foi canonizado pelo Papa Francisco em 27 de abril de 2014.


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