O rompimento da barragem de Algodões II, em 27 de maio de 2009, transformou – em poucos minutos – a rotina e a vida de comunidades inteiras no Norte do Piauí. A tragédia entrou para a história como o maior desastre natural já visto no estado. A estrutura cedeu em Cocal da Estação, a cerca de 290 quilômetros da capital Teresina, despejando aproximadamente 52 milhões de metros cúbicos de água no leito do rio Pirangi, no povoado Franco.
Leia a edição especial dos 75 anos aqui
LEIA TAMBÉM
Casas, criações, plantações e sonhos foram arrastados pela correnteza. Ao todo, 24 pessoas morreram, entre vítimas imediatas e aqueles que faleceram posteriormente em decorrência de doenças e traumas ligados à tragédia.
Antes do rompimento, a barragem era o centro da vida econômica e social da região. O reservatório impulsionava o turismo, garantia água para a agricultura e sustenta atividades como piscicultura, balneários e horticultura. “Todo mundo era bem de vida por causa da barragem. Ela dava suporte para tudo”, lembra Wladimir Machado, morador da região e agente comunitário de saúde à época.
Segundo ele, a destruição não foi apenas material, mas também emocional e psicológica. “O habitat natural da gente sumiu. Onde era um vale cheio de vida virou uma cratera que ninguém reconhecia”, lembrou.
O impacto imediato foi de desorientação coletiva. Milhares de pessoas ficaram desabrigadas nas rurais de Cocal e Buriti dos Lopes, sem documentos, renda ou perspectiva de recomeço. Wladimir relata que, nos primeiros dias após a tragédia, a comunidade alternava entre a sensação de fim e esforço de se apoiar mutuamente. A chegada de equipes do Corpo de Bombeiros, da Defesa Civil e da Secretaria Estadual de Ação Social e Cidadania trouxe algum alívio inicial, com atendimento psicológico, alimentação, roupas e o pagamento de aluguel social.
Esse apoio, porém, não se sustentou ao longo do tempo. De acordo com Wladimir, após cerca de seis a sete meses, a assistência começou a diminuir, especialmente quando as famílias ingressaram com ações judiciais para reaver perdas. “Quando entrou o processo, o apoio foi se afastando. Teve gente despejada, sem ter para onde ir”, afirma. A alternativa apresentada pelo governo foi a construção de agrovilas, com casas entregues em troca das moradias destruídas, em vez de indenização direta.
A demora na entrega dessas casas gerou novos conflitos. Em 2010, moradores invadiram os imóveis ainda inacabados na agrovila Jacaré e concluíram as obras, por conta própria. A mobilização comunitária contou com apoio posterior da SASC, que garantiu recursos para a compra de móveis. Hoje, mais de 100 famílias vivem na localidade, enquanto outras se estabeleceram na zona urbana.
LEIA TAMBÉM
Os efeitos da perda
Além das perdas materiais, o trauma psicológico permanece como uma das marcas mais profundas do desastre de Algodões. Wladimir, que atuou no cadastramento das famílias atingidas e na articulação com órgãos públicos, relata ter desenvolvido problemas emocionais meses após o rompimento. “No começo, a ficha não caiu. Depois, veio tudo de uma vez. Fiz tratamento, mas sei que qualquer pressão pode trazer tudo de volta”, diz. Ele afirma que há moradores que nunca se recuperaram plenamente e associa mortes ocorridas anos depois ao impacto emocional da tragédia.
A luta por reparação avançou após anos de mobilização das vítimas, organizadas pela Associação das Vítimas e Amigos das Vítimas da Catástrofe pelo Rompimento da Barragem de Algodões. Em 2014, cinco anos após a tragédia, a Justiça determinou o pagamento de cerca de R$ 100 milhões às famílias atingidas. Um acordo posterior reduziu o valor para R$ 60 milhões, pagos em parcelas. Antes disse, entre 2011 e 2017, as famílias receberam uma pensão alimentícia. As indenizações começaram a ser pagas apenas em 2017, mas atrasos ainda deixaram parcelas pendentes por muito tempo.
Para muitos, o dinheiro não apagou as marcas do passado, mas permitiu reconstruir a vida com maior estabilidade. Wladimir Machado conta que perdeu casa, criações, área irrigada e um balneário que vivia do turismo. Com o tempo, conseguiu recomeçar, trabalhando fora do estado e, aos poucos, construindo uma nova moradia e uma nova vida. “Hoje, não tenho o que tinha antes, mas tenho sossego”, resume. Ele pondera, porém, que essa não é a realidade de todos.
Quase duas décadas depois, a expectativa em torno da construção de uma nova barragem ainda divide opiniões, mas também revela a esperança de que os erros do passado não se repitam. Para sobreviventes como Wladimir, a solução passa por fiscalização rigorosa e transparência. A memória do desastre segue viva nos relatos, nas marcas da paisagem e no registro jornalístico que, ao longo dos anos, ajudou a documentar a dor, a resistência e a reconstrução de uma parte fundamental da história do Piauí.
Durante os últimos dezessetes anos em que centenas de pessoas, dezenas de famílias, precisaram ter força o suficiente para se reerguer, é marcante a união de uma comunidade marcada pela dor de ter suas vidas arrastadas pela água. Água que destrói, mas que alimenta e dá – ou devolve – a vida.
Você quer estar por dentro de todas as novidades do Piauí, do Brasil e do mundo? Siga o Instagram do Sistema O Dia e entre no nosso canal do WhatsApp se mantenha atualizado com as últimas notícias. Siga, curta e acompanhe o líder de credibilidade também na internet.