Uma das maiores emoções vividas por estudantes que almejavam uma vaga em uma universidade pública era ver seus nomes estampados nas páginas dos jornais impressos. A prática de divulgar as listas de aprovados nos vestibulares marcou gerações e mobilizava redações inteiras. Essa rotina chegou ao fim com a implantação do Enem, quando os vestibulares tradicionais deixaram de existir e os resultados passaram a ser divulgados de forma digital.
Nas redações, repórteres, editores, fotógrafos, diagramadores e equipes de impressão precisavam correr contra o tempo para colocar todos os nomes no papel e garantir que os exemplares chegassem rapidamente às bancas.
A jornalista e doutora em Ciências da Comunicação, Elizângela Carvalho, foi editora-chefe do Jornal O Dia entre 2010 e 2017 e vivenciou intensamente esses momentos. Curiosamente, sua relação com o impresso começou antes mesmo da carreira profissional, quando ainda era estudante.
“Eu morava em São Luís e, nesse ano, tive o prazer de receber o jornal com a lista do resultado do vestibular com o meu nome, e até hoje eu tenho esse recorte. Meu primeiro contato com o impresso foi, de fato, ver o meu nome na lista. Era uma felicidade muito grande. Isso tinha um valor enorme antigamente. Então, meu primeiro contato veio como estudante e só depois como jornalista”, relembra.
Leia a edição especial dos 75 anos aqui
Anos mais tarde, já como estagiária do O Dia, Elizângela passou a enxergar o momento por outra perspectiva: a da logística intensa e da responsabilidade editorial envolvidas na divulgação.
Segundo ela, nenhum veículo de comunicação tinha acesso antecipado às listas. Os jornalistas recebiam os nomes oficialmente no momento da divulgação, durante solenidades realizadas nas universidades. A partir dali, começava uma verdadeira corrida contra o tempo. “A corrida de cada jornal era levar a lista para a redação e, da maneira mais rápida possível e segura, divulgá-la. Era uma responsabilidade muito grande, porque não podia haver erros, como deixar de colocar o nome de alguém aprovado”, comenta.
Inicialmente, os dados eram entregues em disquetes. Depois vieram os CDs e, com o avanço da tecnologia, o processo se tornou um pouco mais ágil. Ainda assim, a rapidez dependia de uma engrenagem bem ajustada. Motoboys ficavam de prontidão para transportar o material até a redação.
No dia da divulgação, a rotina da redação mudava completamente. Profissionais de diferentes turnos eram convocados, havia reforço de repórteres, fotógrafos, diagramadores e equipes de impressão. O objetivo era único: fazer o jornal chegar às mãos dos leitores o mais rápido possível.
“Havia uma mistura muito grande de adrenalina, da urgência de divulgar, da emoção das pessoas aprovadas e da cobertura jornalística em si, com histórias de superação, notas altas e cursos mais concorridos. Eram muitas nuances que a cobertura precisava dar conta”, lembra Elizângela Carvalho.
LEIA TAMBÉM
- Jornal O Dia: 75 anos de credibilidade, resistência e legado da comunicação piauiense
- 75 anos do Jornal O Dia: A ditadura militar e a redemocratização no Piauí
- 75 anos do Jornal O Dia: cadernos especiais, um molho a mais na comunicação
- 75 anos do Jornal O Dia: quando a capa fala antes da notícia
- 75 anos do Jornal O Dia: O guardião da memória piauiense
- Jornal O Dia celebra 75 anos com edição histórica e série especial
A lista de aprovados costumava sair em uma edição extra, que precisava estar nas ruas até o meio-dia e trazia exclusivamente os nomes dos classificados. No dia seguinte, o jornal publicava a cobertura jornalística. “As pessoas gostavam de ver quem tinha passado, quem foram os primeiros lugares, e isso vendia bastante”, observa.
Para Elizângela Carvalho, esse momento tinha um peso social significativo. “Era um período em que os jornais eram esperados. As pessoas queriam ter e guardar aquelas edições. Isso mostrava a presença do jornal na vida e na memória das pessoas. Mesmo depois, muitos voltavam para comprar o exemplar, seja porque não tinham conseguido, seja para enviar a alguém. Era um momento simbólico, o ingresso na universidade, e o jornal fazia parte disso”, acrescenta.
Segundo a doutora em Comunicação, com a adoção do Enem, a partir de 2009, e o fim dos vestibulares tradicionais, quando as listas deixaram de circular no impresso e passaram a ser divulgadas apenas em meios eletrônicos, houve uma perda que vai além do formato, não somente pelo fim da lista no papel, mas pelo fim da expectativa em torno desse ritual.
Elizângela Carvalho aproveita para destacar que o jornalismo precisa se reinventar no contexto da digitalização e “reencontrar sua relevância no mundo, que é cada vez mais digital”. “Não é porque o mundo se tornou digital que o jornal vai deixar de ter relevância, mas talvez os jornais impressos ainda encontrem dificuldades para se inserir ou se manter inseridos na vida das pessoas, e esse é o grande desafio”, conclui.
Um dos responsáveis pela diagramação da edição extra com a lista dos aprovados no vestibular era o editor eletrônico Glaubher Callad, que trabalha no Jornal O Dia há 22 anos. Todos os profissionais já ficavam a postos para o momento em que o material com os nomes dos estudantes chegava à redação, geralmente por volta das 9h da manhã.
“A lista sempre chegava por volta das 9h ou 10h, ainda em disquete. A gente corria contra o tempo para fechar essa edição especial. Eram cerca de quatro diagramadores trabalhando para que, no máximo até as 11h, o jornal já estivesse na rua para ser vendido”, disse.
Você quer estar por dentro de todas as novidades do Piauí, do Brasil e do mundo? Siga o Instagram do Sistema O Dia e entre no nosso canal do WhatsApp se mantenha atualizado com as últimas notícias. Siga, curta e acompanhe o líder de credibilidade também na internet.