Na manhã da inauguração do Estádio Albertão, em Teresina, o então jovem Numeriano Sá já estava no local desde cedo. Ele recorda que todos os trabalhadores chegaram por volta das 9h, cada um designado ao seu setor, seguindo orientações claras de segurança. Numeriano ficou responsável justamente pela área do placar, ponto onde ocorreria o acidente que marcaria para sempre a história do estádio.
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Segundo ele, havia a determinação de manter os portões sem cadeados para que fossem abertos imediatamente em caso de qualquer eventualidade, procedimento que acabou sendo colocado em prática naquele dia.
Do ponto em que estava, o administrador diz ter sentido a mudança repentina no clima do estádio logo após o início da partida. A vibração intensa das arquibancadas deu lugar ao pânico quando pessoas começaram a correr em direção às saídas. Numeriano afirma que não houve barulho de avião nem falha no sistema de som, contrariando versões que circularam à época. Para ele, o estopim foi um grito de alerta que se espalhou rapidamente, gerando confusão generalizada. Com os portões abertos, torcedores passaram pelas roletas e cercas de arame em meio à correria, o que provocou choques e ferimentos.
Em outro ponto do estádio, um funcionário do Corpo de Bombeiros tentou conter a multidão ao afirmar que a estrutura não iria ceder. Mesmo assim, os gritos de “tá caindo” se multiplicaram. Numeriano reforça que, tecnicamente, o estádio não sofreu colapso estrutural. O problema ocorreu na região das cadeiras amarelas, próxima ao placar, onde havia uma grade que não suportou a pressão das pessoas que desciam empurradas pelo pânico coletivo.
A grade acabou cedendo, fazendo com que várias pessoas caíssem umas sobre as outras em um fosso. Jogadores interromperam a partida e correram para ajudar no resgate dos feridos. Apesar da gravidade da situação, o jogo chegou a ser reiniciado, decisão que Numeriano questiona até hoje. Ele relata ter presenciado diversas pessoas machucadas, consequência direta da queda e da correria, reforçando que o acidente não foi causado por falha estrutural do estádio, mas pelo colapso da grade diante do empurra-empurra.
Após o incidente, medidas imediatas foram adotadas para reforçar a segurança no Estádio Albertão. Segundo Numeriano Sá, mudanças estruturais passaram a ser prioridade já no jogo seguinte. “Para o segundo jogo, que foi contra o Cruzeiro, o Alberto Silva mandou fazer uma passarela, ligando o gramado às arquibancadas. Antes não tinha nada”, recorda. Ele destaca que a decisão foi acompanhada de perto por autoridades e pela imprensa. “Vários secretários dele estavam lá, pessoal da imprensa, muita gente que acompanhou de perto as alterações”, afirmou ao ressaltar que as adequações eram para evitar que episódios semelhantes voltassem a acontecer.
Questionado se o episódio poderia ter sido evitado, o administrador diz que, à época, não havia como prever uma reação daquela magnitude. Ainda assim, reconhece que a principal lição deixada foi a necessidade de reforçar protocolos de segurança em grandes eventos. A tragédia contribuiu para maior rigor nas exigências feitas por Corpo de Bombeiros, Vigilância Sanitária e Polícia Militar, órgãos que, segundo Numeriano, estiveram no Albertão e deram o aval para a realização da partida.
Projetado para grandes públicos
Para Numeriano, apesar do episódio trágico, o Albertão sempre foi uma praça esportiva segura, fruto de um projeto pensado para colocar o Piauí em destaque no cenário nacional. Ele lembra que a construção atendeu a exigências da antiga CBD, que só aceitava estádios com capacidade mínima de 40 mil torcedores, inviável no antigo Lindolfo Monteiro. Projetado por profissionais que também participaram da construção do Mineirão, o Albertão impulsionou o futebol piauiense após sua inauguração.
Numeriano destaca campanhas históricas, como a do Tiradentes no Campeonato Brasileiro, além da participação de clubes como River, Flamengo-PI e Auto Esporte. O estádio também se consolidou como espaço de grandes eventos culturais, recebendo artistas nacionais e públicos recordes, com destaque para o show da Turma do Balão Mágico, apontado por ele como o maior público de sua história.
Ao falar da importância do registro jornalístico, Numeriano reconhece a dor associada à lembrança da inauguração, mas ressalta o valor da memória preservada. Para ele, o jornal impresso cumpre um papel fundamental ao eternizar os fatos. “Mas, por outro lado, ter o registro é muito bom. É uma história que você tem para contar e relembra”, afirma, destacando o Jornal O Dia como veículo que documentou o ocorrido e permitiu que gerações futuras conheçam a história do Albertão.
Assim, entre dor e aprendizado, a história do estádio segue viva, registrada pela imprensa e preservada como parte da memória coletiva do Piauí.